Noam Chomsky vê ‘mão americana’ na ascensão de Bolsonaro à presidência

Foto Mauro Calove/ Chomsky: "Como Trump, os compromissos políticos mais importantes de Bolsonaro, de longe, são destruir as perspectivas de vida humana organizada sob o interesse de lucros de curto prazo para seus amigos"

 Por Redação RBA - 17/07/2021

 O filósofo e linguista Noam Chomsky, em entrevista ao site Truthout, publicada nesta sexta (16), fala do cenário brasileiro, em especial do governo de Jair Bolsonaro. Chomsky compara o presidente brasileiro ao ex-mandatário estadunidense Donald Trump, embora ressalte que, em muitos aspectos, a imitação é pior do que o original.

Ao abordar as condições que ajudaram a levar Bolsonaro ao poder no Brasil, Chomsky destaca que, com a queda dos preços das commodities alguns anos após a saída de Lula da presidência, “a direita brasileira – com incentivo, senão apoio direto dos EUA – viu a oportunidade de retomar o país em suas mãos e reverter os programas de bem-estar e inclusão que eles desprezaram”.

“Eles começaram a elaborar um sistemático ‘golpe suave’. Um passo foi o impeachment da sucessora de Lula, Dilma Rousseff, em procedimentos totalmente corruptos e fraudulentos. O seguinte foi prender Lula sob acusações de corrupção, impedindo-o de concorrer (e possivelmente vencer) as eleições presidenciais de 2018. Isso preparou o cenário para que Bolsonaro fosse eleito em uma onda de uma incrível campanha de mentiras, calúnias e trapaças que inundaram os sites que a maioria dos brasileiros usa como principal fonte de ‘informação’. Há motivos para suspeitar de uma mão americana significativa”, afirmou Chomsky.

O linguista também destaca que as condenações ao ex-presidente Lula foram derrubadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). E, claro, cita o papel desempenhado pelo então juiz Sergio Moro, evidenciado pelo escândalo da Vaza Jato.

“Moro praticamente desapareceu de vista com o colapso de sua imagem como o intrépido cavaleiro branco que salvaria o Brasil da corrupção. Enquanto isso, não por coincidência, destruía grandes empresas brasileiras que eram concorrentes de corporações americanas (que não são exatamente famosas por sua pureza)”, pontua.

Brasil de Lula: incômodo para os EUA

Chomsky avalia que, apesar do sucesso econômico e da redução da pobreza, os programas de Lula foram concebidos de forma a não infringir seriamente o poder da elite. Mas, ainda assim, foram “pouco tolerados” nesses círculos. “O PT não conseguiu fincar raízes sociais, a tal ponto que muitas vezes os beneficiários das suas políticas desconheciam a sua origem, atribuindo os benefícios a Deus ou à sorte.”

A relevância do Brasil no plano geopolítico internacional, alcançada durante o governo do ex-presidente Lula, também teria incomodado o governo dos Estados Unidos. “O Brasil se tornou uma voz efetiva para o Sul Global nos assuntos internacionais, e isso não era bem-vindo aos olhos dos líderes ocidentais. E, particularmente, foi irritante para o governo Obama-Biden-Clinton quando o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, esteve perto de negociar um acordo com o Irã sobre programas nucleares, minando a intenção de Washington de comandar o show em seus próprios termos”, lembra Chomsky.

Desse modo, a vitória de Bolsonaro acabou sendo recebida com entusiasmo pelo capital e finanças internacionais, avalia o filósofo. Eles ficaram particularmente impressionados com o czar econômico do Bolsonaro, o ultraliberal economista de Chicago Paulo Guedes. Seu programa era muito simples: em suas palavras, ‘Privatize Tudo’, uma bonança para os investidores estrangeiros. Eles ficaram, no entanto, desiludidos com o colapso do Brasil durante os anos do Bolsonaro e as promessas de Guedes não foram cumpridas.”

Bolsonaro: “nível de depravação” que nem Trump atingiu

Ao ser questionado sobre políticas implementadas por Bolsonaro e se poderiam ser comparadas com as do ex-presidente Donald Trump, Chomsky descreveu similitudes e diferenças. “Trump era o modelo óbvio de Bolsonaro, embora não o único. Em seu voto pelo impeachment de Dilma, Bolsonaro o dedicou ao torturador dela durante a ditadura militar. Esse é um nível de depravação que nem mesmo seu herói Trump atingiu”, critica.

“Como Trump, os compromissos políticos mais importantes de Bolsonaro, de longe, são destruir as perspectivas de vida humana organizada sob o interesse de lucros de curto prazo para seus amigos – no caso dele, mineração, agronegócio e extração ilegal de madeira que aceleraram fortemente a destruição das florestas amazônicas”, descreve.

“Os cientistas previram, antes de Bolsonaro, que em algumas décadas a Amazônia passaria de um dos maiores sumidouros de carbono do mundo a uma fonte de carbono, à medida que faz a transição da floresta tropical para a savana. Graças ao Bolsonaro, esse ponto já pode estar se aproximando.”

Chomsky demonstrou preocupação em relação ao discurso de Bolsonaro sobre a possibilidade de fraude no sistema eletrônico de votação no Brasil. Mas não só. “Neste momento, Lula está bem à frente nas pesquisas, assim como em 2018, quando foram tomadas medidas para barrar sua candidatura. Existem preocupações legítimas de uma recorrência.”

Preparação para um golpe militar

Na entrevista, o filósofo também destaca outras possíveis ameaças à democracia. Em especial com a revelação de que militares estão envolvidos em possíveis esquemas de corrupção na negociação de vacinas contra a covid-19.

“Há relatos de medidas que podem ser uma preparação para um golpe militar, talvez inspirado no golpe de 1964 que instalou o primeiro dos perversos ‘Estados de Segurança Nacional’ que aterrorizaram o hemisfério por 20 anos”, diz Chomsky. “O pretexto para derrubar o governo moderadamente reformista de Goulart em 1964 foi o apelo ritual para salvar o país do ‘comunismo’. Algo semelhante poderia ser inventado hoje.”

Quanto ao papel que os Estados Unidos poderiam desempenhar neste cenário, ele afirma que “existem precedentes que sugerem uma resposta. Um é 1964. O golpe militar que derrubou o governo foi elogiado pelo embaixador de Kennedy-Johnson no Brasil, Lincoln Gordon, como ‘a vitória mais decisiva pela liberdade em meados do século XX'”, lembra.

“Aqueles que podem acreditar inocentemente que as coisas mudaram podem recorrer à reação de Obama-Clinton ao golpe militar em Honduras em 2009, derrubando o governo moderadamente reformista de (Manuel) Zelaya”, recorda. Seu apoio ao golpe, quase sozinho, ajudou a transformar Honduras em uma das capitais do assassinato do mundo, estimulando uma enxurrada de refugiados aterrorizados agora cruel e ilegalmente repelidos na fronteira dos Estados Unidos, se eles conseguirem chegar tão longe através das barreiras impostas por parceiros dos EUA.”

A entrevista na íntegra você pode conferir aqui.

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