Thierry Meyssan: Os êxitos da diplomacia russa no Médio Oriente

As mudanças políticas que transformam o Médio Oriente desde há dois meses são a resultante não do esmagamento dos protagonistas, mas da evolução dos pontos de vista iraniano, turco e emiradense. Lá onde o poderio militar norte-americano falhou, a subtileza diplomática triunfou. Recusando pronunciar-se sobre os crimes de uns e de outros, Moscovo consegue lentamente pacificar a região.

REDE VOLTAIRE | DAMASCO (SÍRIA) | 21 DE AGOSTO DE 2019 

JPEG - 32.1 kb
Nos últimos cinco anos, a Rússia multiplicou as iniciativas para restabelecer o Direito Internacional no Médio Oriente. Ela apoiou-se em especial no Irão e na Turquia, dos quais não partilha, no entanto, a maneira de pensar. Os primeiros resultados deste paciente exercício diplomático redesenham as linhas de partilha no meio de vários conflitos.

Novas relações de força e um novo equilíbrio instalam-se discretamente no vale do Nilo, no Levante e na península Arábica. Pelo contrário, a situação bloqueia-se no Golfo Pérsico. Esta enorme e coordenada mudança toca diferentes conflitos aparentemente sem relação entre eles. É o fruto da paciente e discreta diplomacia russa [1] e, em certos dossiês, da relativa boa vontade dos EUA.
Ao contrário dos Estados Unidos, a Rússia não procura impor a sua visão do mundo. Ela parte, pelo contrário, da cultura dos seus interlocutores que, com o seu contacto, por pequenos passos modifica.

Recuo dos jiadistas e dos mercenários curdos na Síria

Tudo começou a 3 de Julho : um dos cinco fundadores do PKK, Cemil Bayik, publicava uma coluna de opinião no Washington Post apelando à Turquia para encetar negociações levantando o isolamento do seu prisioneiro mais célebre : Abdullah Öcalan [2]. De repente, as visitas à prisão do líder dos Curdos autonomistas da Turquia, proibidas desde há quatro anos, foram novamente autorizadas. Esta abertura era um segredo de polichinelo. O rumor fora espalhado pelo Partido Republicano do Povo que a considerava como uma traição. Esperando por uma clarificação, os seus votantes abstiveram-se aquando da eleição municipal, a 23 de Junho, infligindo uma severa derrota eleitoral ao candidato do Presidente Erdogan.
Simultaneamente, os combates recomeçavam na zona ocupada pela Alcaida no Norte da Síria, na província de Idlib. Este Emirado islâmico não tem administração central, mas uma miríade de cantões adstritos a grupos combatentes diversos. A população é alimentada por «ONGs» europeias afiliadas aos Serviços Secretos desses países e a presença do Exército turco dissuade os jiadistas de tentar conquistar o resto da Síria. Sendo esta situação pouco verificável, a imprensa da Otanesca apresenta o Emirado Islâmico de Idlib como o pacifico refúgio de «opositores moderados à ditadura de Assad». De súbito, Damasco, propulsionada por apoio aéreo russo, começou a reconquistar o território e o Exército turco a retirar-se silenciosamente. Os combates tem sido extremamente sangrentos, em primeiríssimo lugar para a República. No entanto, após várias semanas, o avanço é notável, de tal modo que, se nada o travar, a província poderá estar libertada em Outubro.
A 15 de Julho, por ocasião do terceiro aniversário da tentativa de assassinato de que foi alvo, e do golpe de Estado improvisado que se seguiu, o Presidente Erdoğan anunciou a redefinição da identidade turca, já não mais com uma base religiosa, mas, sim, nacional [3]. Ele revelou também que o seu exército ia varrer as forças do PKK na Síria e transferir uma parte dos refugiados sírios para uma zona fronteiriça com 30 a 40 quilómetros de profundidade. Esta zona corresponde, um pouco mais ou menos, àquela na qual o Presidente Hafez el-Assad havia autorizado, em 1999, as forças turcas a reprimir eventuais disparos de artilharia curda. Depois de ter anunciado que o Pentágono não podia abandonar os seus aliados curdos, emissários norte-americanos vieram a Ancara fazer o contrário e aprovar o plano turco. Parece que, como sempre afirmamos, os chefes do «Rojava», esse pseudo-Estado autónomo curdo em terra síria, são quase todos de nacionalidade turca. Portanto, eles ocupam a região que limparam etnicamente. As suas tropas, de nacionalidade síria, enviaram, entretanto, emissários a Damasco para pedir a protecção do Presidente Bashar al-Assad. Lembremos que os Curdos são uma população nómada sedentarizada no início do século XX. De acordo com a Comissão King-Crane e a Conferência Internacional de Sèvres (1920), a existência de um Curdistão só é legítima no actual território turco [4].
É pouco provável que a França e a Alemanha deixem a Síria reconquistar a totalidade do Emirado islâmico de Idlib e abandonem a sua fantasia de Curdistão, seja onde for (na Turquia, no Irão, no Iraque ou na Síria, mas não na Alemanha onde, no entanto, eles constituem um milhão). Mas, poderão ser forçados a isso.
Da mesma forma, apesar das discussões actuais, é pouco provável que se a Síria se descentralizar, ela conceda a mínima autonomia à região que foi ocupada pelos Curdos turcos.
Após vários anos de bloqueio, a libertação do Norte da Síria repousa unicamente na mudança de paradigma turco, fruto dos erros norte-americanos. e da Inteligência russa.

Partição de facto do Iémene

No Iémene, a Arábia Saudita e Israel apoiam o President Abdrabbo Mansour Hadi com vistas a explorar as reservas petrolíferas que estão situadas a cavalo sobre a fronteira [5]. Este teve de fazer face ao levantamento dos zaiditas, uma escola do xiismo. Com o decorrer do tempo, os Sauditas receberam a ajuda dos Emiradenses, e a Resistência zaidita a do Irão. Esta guerra, alimentada pelos Ocidentais, está a provocar o pior episódio de fome do século XXI.
No entanto, contrariando a ordenação dos dois campos, a 1 de Agosto, os guarda-costas emiradenses assinaram um acordo de cooperação transfronteiriço com a polícia das fronteiras iraniana [6]. No mesmo dia, o chefe da milícia iemenita financiada pelos Emiradenses (dito «Conselho de transição do Sul» ou «Cintura de Segurança» ou ainda «separatistas»), Abu Al-Yamana Al-Yafei, foi assassinado pelos Irmãos Muçulmanos do Partido Islah financiado pela Arábia Saudita [7].
Como salta à vista, a aliança entre os dois príncipes herdeiros da Arábia e dos Emirados, Mohammed bin Salman («MBS») e Mohammed ben Zayed Al Nahyane («MBZ»), deu para o torto.
A 11 de Agosto, a milícia apoiada pelos Emirados tomou de assalto o palácio presidencial e diversos ministérios em Áden, apesar do apoio da Arábia ao Presidente Hadi; o qual está refugiado já há longa data em Riade. No dia seguinte, «MBS» e «MBZ» encontraram-se em Meca, na presença do Rei Salman. Rejeitaram o Golpe de Estado e apelaram às suas respectivas tropas para manter a calma. A 17 de Agosto, os pró-Emirados evacuavam, em boa ordem, a sede do governo.
Durante a semana em que os «separatistas» tomaram Áden, os Emirados controlaram de facto as duas margens do altamente estratégico Estreito de Bab el Mandeb, que liga o Mar Vermelho ao Oceano Índico. Ora, agora que Riade preservou a sua honra, será preciso dar uma contrapartida ao Abu Dhabi.
Neste campo de batalha, a mudança é imputável unicamente aos Emiradenses, os quais, depois de terem pago um pesado tributo, tiram a real lição desta guerra impossível. Prudentes, primeiro aproximaram-se dos Iranianos antes de enviar este tiro de aviso ao seu poderoso aliado e vizinho saudita.

Cadeiras de dança no Sudão

No Sudão, depois de o Presidente Omar al-Bashir (Irmão muçulmano dissidente) ter sido derrubado pelas manifestações da Aliança para a liberdade e a mudança (ALC), e de a alta de preço do pão ter sido anulada, um Conselho militar de transição foi colocado no Poder. Na prática, esta revolta social e alguns biliões de petrodólares permitiram, nas costas dos manifestantes, fazer passar o país de uma tutela catari para uma outra saudita [8].
A 3 de Junho, uma nova manifestação do ALC foi dispersa de forma sangrenta pelo Conselho Militar de Transição deixando 127 mortos. Face à condenação internacional, o Conselho Militar encetou negociações com os civis e concluiu um acordo, em 4 de Agosto, que foi assinado a 17. Durante um período de 39 meses, o país será governado por um Conselho Supremo de 6 civis e 5 militares, cujo acordo não especifica as identidades. Eles serão controlados por uma Assembleia de 300 membros nomeados, não eleitos, abrangendo 67% dos representantes da ALC. Não há evidentemente nada de democrático nisto e nenhuma das partes se queixa a propósito.
O economista Abdallah Hamdok, antigo responsável da Comissão Económica das Nações Unidas para a África, será o Primeiro-ministro. Ele terá de obter o levantamento das sanções de que o Sudão é alvo e reintegrar o país na União Africana. Ele fará julgar o antigo Presidente Omar al-Bashir no país a fim de lhe garantir que não é extraditado para Haia, para o Tribunal Penal Internacional.
O verdadeiro poder será detido pelo «general» Mohammed Hamdan Daglo (dito «Hemetti»), o qual não é general, nem sequer soldado, mas chefe da milícia contratada por «MBS» para subjugar a Resistência iemenita. Durante este jogo de cadeiras de dança, a Turquia —que possui uma base militar na ilha sudanesa de Suakin para cercar a Arábia Saudita— nada disse.
De facto, a Turquia aceita perder em Idlib e no Sudão para ganhar contra os mercenários curdos pró-EUA. Apenas este último jogo é vital para ela. Terão sido necessários muitos debates para que se desse conta que não podia ganhar em todos os tabuleiros ao mesmo tempo e para que ela hierarquizasse as suas prioridades.

Os Estados Unidos contra o petróleo iraniano

Londres e Washington prosseguem a sua competição, encetada há setenta anos, para controlar o petróleo iraniano. Tal como na época de Mohammad Mossadegh, a Coroa britânica pensa decidir sozinha acerca do que acha que lhe caberá no Irão [9]. Enquanto isso Washington não quer que as suas guerras contra o Afeganistão e o Iraque tragam proveitos a Teerão (consequência da doutrina Rumsfeld/Cebrowski) e entende fixar o preço mundial da energia (doutrina Pompeo) [10].
Estas duas estratégias confluíram durante a tomada do petroleiro iraniano Grace 1 nas águas da colónia britânica de Gibraltar. O Irão, por sua vez, arrestou dois petroleiros britânicos no Estreito de Ormuz pretendendo —insulto supremo— que o principal transportava «petróleo de contrabando», quer dizer petróleo iraniano subsidiado comprado por Londres no mercado negro [11]. Assim que o novo Primeiro-ministro, Boris Johnson, percebeu que o seu país tinha ido longe demais, teve a «surpresa» de ver a justiça «independente» da sua colónia libertar o Grace 1. De imediato Washington emitiu um mandado para o apreender de novo.
Desde o início deste caso, os Europeus pagam os custos da política norte-americana e protestam, sem grandes consequências [12]. Só os Russos defendem, não o seu aliado iraniano, antes o Direito Internacional, tal como o têm feito a propósito da Síria [13], o que lhes permite manter uma linha política sempre coerente.
Neste dossiê, o Irão dá provas de uma grande tenacidade. Apesar da viragem clerical na eleição do Xeque Hassan Rohani, em 2013, o país reorienta-se para a política nacional do laico Mahmoud Ahmadinejad [14]. A sua instrumentalização das comunidades xiitas na Arábia Saudita, no Barém, no Iraque, no Líbano, na Síria, no Iémene poderá acabar por se tornar um simples apoio. Aqui ainda, foi graças às longas conversações de Astana que aquilo que é evidente para uns se acabou tornando também para os outros.

Conclusão

Com o tempo, os objectivos de cada protagonista se hierarquizam e as suas posições definem-se.
De acordo com a sua tradição, a diplomacia russa não busca, ao contrário dos Estados Unidos, redesenhar as fronteiras e as alianças. Ela tenta deslindar os objectivos contraditórios dos seus parceiros. Assim, ela ajudou o velho Império Otomano e o antigo Império Persa a afastarem-se da sua definição religiosa (os Irmãos Muçulmanos para o primeiro, o Xiismo para o segundo) e a regressar a uma definição nacional pós-imperial. Esta evolução é muitíssimo visível na Turquia, mas supõe uma mudança de chefias no Irão para ser realizada. Moscovo não busca «mudar os regimes», mas, apenas certos aspectos das mentalidades.
Tradução
Alva

***
[1] Ver os parágrafos 3, 4, 5 e 10 da « Déclaration conjointe de la Russie, de l’Iran et de la Turquie relative à la Syrie », Réseau Voltaire, 2 août 2019, e compará-los com as declarações das reuniões precedentes.
[2] “Now is the moment for peace between Kurds and the Turkish state. Let’s not waste it”, by Cemil Bayik, Washington Post (United States) , Voltaire Network, 3 July 2019.
[3] “A Turquia não se alinhará nem com a OTAN, nem com a OTSC”, “A Turquia renuncia pela segunda vez ao Califado”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 6 & 13 de Agosto de 2019.
[4] “Os projectos de Curdistão”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Setembro de 2016.
[5] “Exclusivo : Os projectos secretos de Israel e da Arábia Saudita”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Junho de 2015.
[7] “Missile fired by Yemen rebels kills dozens of soldiers in port city of Aden”, Kareem Fahim & Ali Al-Mujahed, The Washington Post, August 1, 2019.
[8] “O derrube de Omar al-Bashir”, Thierry Meyssan; “O Sudão passou para o controle saudita”, “A Força de reacção rápida no Poder no Sudão”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 6, 23, 30 de Abril de 2019.
[9] “Face ao Irão, Londres defende as suas sobras do Império”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 26 de Julho de 2019.
[10] “A nova Grande Estratégia dos Estados Unidos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Março de 2019. “Advancing the U.S. Maximum Pressure Campaign On Iran” (Note: The graph was distributed with the text !), Voltaire Network, 22 April 2019.
[11] “Reino Unido / Irão: «Grace 1» e «British Heritage»”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 12 de Julho de 2019.
[14] Como laico, nós pensamos que o muito místico Presidente Ahmadinejad queria separar as instituições religiosas e políticas e por fim à função platoniana do Guia da Revolução.

***
Thierry MeyssanIntelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).