sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Greve de fome é ferramenta histórica da luta dos trabalhadores

Num resgate temporal, o BdF mostra algumas iniciativas ocorridas no país e no mundo


Representantes de povos tradicionais durante greve de fome em Brasília, em 2014, por criação de reserva sustentável em MG - Créditos: Foto: José Cruz/ Agência Brasil
Representantes de povos tradicionais durante greve de fome em Brasília, em 2014, por criação de reserva sustentável em MG / Foto: José Cruz/ Agência Brasil

A greve de fome é, em geral, um método de resistência pacífica que consiste na interrupção voluntária da alimentação por parte de um indivíduo ou grupo com o objetivo de fazer um protesto político.
Nesse sentido, a iniciativa dos seis militantes de movimentos populares que estão em greve de fome em Brasília desde a última terça (31/07) se soma a outras ações semelhantes já registradas na história do país e do mundo.
Os trabalhadores da atual mobilização protestam para exigir a liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e em denúncia do iminente retorno do Brasil ao Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), do qual o país havia sido retirado há quatro anos.

A professora Adelaide Gonçalves, do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC), destaca que greves dessa natureza são consideradas, historicamente, uma das mais significativas formas de resistência política da classe trabalhadora.
“A luta por direitos em escala universal institui a greve como poderoso instrumento dos trabalhadores na sua luta contra o capital”, complementa.
Foram muitas as iniciativas similares no país que simbolizaram a disposição de homens e mulheres na batalha pela garantia de direitos. Conheça a seguir algumas delas.
Previdência
A greve de fome mais recente no país ocorreu em dezembro do ano passado, também na capital federal, como reivindicação contra a reforma da Previdência.
Durante dez dias, seis militantes se concentraram na Câmara Federal, em jejum, para pressionar os parlamentares a retirarem de pauta a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 287, que instituía a reforma e comprometia o acesso dos trabalhadores a benefícios de seguridade social.
O movimento contou com diferentes manifestações de apoio, espalhando-se inclusive por outras regiões do país, com mais trabalhadores aderindo à greve de fome.
O encerramento se deu no dia 14 de dezembro, quando o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), anunciou o adiamento da votação da PEC para fevereiro de 2018 – o que não ocorreu, em virtude do caráter antipopular da medida e da proximidade das eleições.  
O desfecho foi interpretado como uma vitória da luta dos trabalhadores brasileiros por direitos.  
O Frei Sérgio Görgen, que participa da greve atual, por exemplo, já fez outras quatro greves de fome, e uma delas foi justamente no movimento contra a reforma da Previdência.
Outro atual grevista que já tem histórico com esse tipo de protesto é o militante Jaime Amorim, do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). Em 1996, ele fez jejum durante 11 dias em Pernambuco para reivindicar o direito à reforma agrária. Como efeito, conquistou o assentamento onde reside atualmente no estado.
Transposição
Outro episódio marcante de greve de fome no país se deu no final de 2007, durante os 24 dias de jejum de Dom Luiz Flávio Cappio, bispo católico da Diocese de Barra, na Bahia.
Ele protestava contra a transposição do rio São Francisco, tema que também motivou uma outra greve de fome do religioso, no ano de 2005, desta vez durante 11 dias.
Na primeira, o protesto se encerrou após uma negociação com o então ministro das Relações Institucionais, Jaques Wagner, enquanto, na segunda, o jejum chegou ao fim por conta de complicações na saúde de Dom Cappio.
As greves, no entanto, contribuíram para a ampliação do debate nacional em torno do tema e tiveram repercussão fora do país. Em 2008, por exemplo, a organização internacional católica Pax Christi Internacional, sediada na Bélgica, concedeu ao religioso o Prêmio da Paz daquele ano.
A condecoração foi dada a Dom Cappio em conjunto com movimentos populares envolvidos na luta contra a transposição.
Ditadura
As greves de fome foram utilizadas como via de protesto político também em outros momentos da história do país. Foi o que ocorreu, por exemplo, durante o regime militar (1964-1985).
Uma das principais iniciativas nesse sentido se deu em 1979, com a participação de dezenas de presos políticos que se mobilizaram em jejum contra a repressão e pela anistia.
A greve durou 32 dias e se encerrou após a aprovação da Lei de Anistia no Congresso Nacional, em agosto do mesmo ano.
Mundo
A tradição das greves de fome encontra referência também em diversas partes do mundo. O pacifista indiano Mahatma Gandhi (1869-1948), por exemplo, fez greve de fome em diferentes ocasiões. Uma delas foi para pedir a união entre hindus e muçulmanos.
No século XX, mulheres que lutavam pelo direito ao voto no Reino Unido e nos Estados Unidos também jejuaram em forma de protesto.
Outro episódio de destaque, desta vez na história mais recente, foi a greve de fome desencadeada por centenas de presos palestinos em abril do ano passado. Detidos em Israel, eles ficaram 41 dias em jejum para protestar contra as más condições das prisões e encerraram o movimento depois de um acordo que garantiu melhorias nas cadeias.
Adelaide Gonçalves sublinha que a utilização do corpo como instrumento de protesto teve destaque ainda em outros pontos do globo.
Ela Cita como exemplo o Chile, onde, historicamente, estudantes, indígenas e outros grupos têm protestado contra o sistema neoliberal e as prisões políticas, entre outras iniciativas.
“A greve de fome atualiza o seu conteúdo de resistência, de afirmação pelo gesto potente daquele que se dispõe a inscrever no próprio corpo o sentido da sua luta”, finaliza a professora.
Edição: Diego Sartorato
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