sábado, 7 de julho de 2018

Celso Amorim: 'López Obrador é um exemplo para a América Latina'


NOVO PRESIDENTE DO MÉXICO
Para o ex-chanceler brasileiro, vitória de Andrés Manuel López Obrador terá impacto considerável no tabuleiro político regional

por Darío Pignotti, da Carta Maior publicado 07/07/2018

ARQUIVO/AMLO
novo presidente do México
Primeira vitória da esquerda no México em 90 anos desmente argumento do fim da onda progressista na região
Carta Maior – “Com a vitória de Andrés Manuel López Obrador, o México passa a ser um exemplo para o Brasil e para a América Latina em geral”, afirma o ex-chanceler Celso Amorim, ao fazer um primeiro balanço do resultado das eleições mexicanas do último domingo.
Nesta entrevista com Carta Maior, Amorim analisa a chegada de um líder popular e progressista ao Palácio Nacional (equivalente ao Planalto brasileiro), e considera que isso terá um impacto considerável no tabuleiro regional.
O fundador do Movimento de Regeneração Nacional (Morena) é considerado um Lula mexicano. O que você acha dessa comparação?
Vejo semelhanças entre eles, embora também existam diferenças, já que o Brasil e o México não são idênticos, as circunstâncias políticas atuais não são idênticas às de há 16 anos.
Entre as diferenças, há uma que favorece López Obrador, que é o fato de que ele teve uma muito boa eleição parlamentar, coisa que não aconteceu nas eleições brasileiras de 2002, quando não obtivemos nem 30% do Parlamento.

Outra diferença, essa a favor do Brasil, é que nós estamos a uma boa distância dos Estados Unidos, enquanto o México tem três mil quilômetros de fronteiras com essa potência hegemônica. Como se diz sempre, “pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”.
Para o México, não é fácil se desfazer das diretrizes de Washington. Para o Brasil, porém, era relativamente mais fácil rejeitar alguns imperativos de Washington, como ocorreu com o não à ALCA – o projeto de Área de Livre Comércio da América Latina.
O tema migratório nos Estados Unidos aparece esporadicamente na agenda do Brasil, como está ocorrendo agora, com as crianças brasileiras separadas de seus pais. Por outro lado, para o México esse tema é um assunto central da sua agenda, onde as imposições de Donald Trump são muito agressivas, como se vê no caso do muro.
Agora estamos falando das semelhanças, e creio que este López Obrador de 2018 é comparável ao Lula de 2003, que o rol que o México pode desempenhar agora na América Latina tem pontos parecidos ao desempenhado pelo Brasil há 16 anos.
Assim como Lula, López Obrador demonstrou um compromisso com os pobres, com o desenvolvimento, demonstrou sua disposição de levar adiante uma política industrial, de desenvolvimento, de impulsar uma política energética diferente da realizada pelo atual governo, haverá um distanciamento do neoliberalismo, e também um combate mais sistemático à desigualdade social.
López Obrador é um homem que vem do sul do México, a região que mais sofreu com a globalização.
De que forma López Obrador pode influir no equilíbrio de forças da região?
A chegada de López Obrador é muito importante porque a América Latina estava precisando de um novo equilíbrio de forças. Nós celebramos o seu triunfo e ao mesmo tempo estamos alertas sobre a reação que este triunfo causará nas forças de direita. Nós sabemos que essas forças estão atuando para impedir uma vitória de Lula nas eleições de outubro no Brasil, mesmo com ele tendo um apoio esmagador do povo.
Seria extraordinário se Lula vencesse em outubro, já que seria a primeira vez que Brasil e México teriam governos progressistas ao mesmo tempo.
Por outro lado, a vitória de López Obrador pode demonstrar a falência deste modelo neoliberal exagerado, como é o caso atual do México, com um alinhamento econômico total com os Estados Unidos. E não nos esqueçamos do fato de que o México foi utilizado pelos grandes meios de imprensa como um exemplo do sucesso desta globalização, um exemplo que logo se ampliou ao modelo de integração da Aliança do Pacífico.
Este triunfo progressista demonstrará ao povo as diferenças de um modelo de desenvolvimento com inclusão em comparação ao cenário de terra arrasada causado pela globalização neoliberal. Uma globalização que deixou milhões de mexicanos na pobreza e obrigou muitos deles a emigrar em busca de trabalho.
A morte anunciada da onda progressista era um mito.
Efetivamente, essa vitória desmente o argumento de que a onda progressista na região se esgotou. Este é o primeiro governo de esquerda no México nos últimos 90 anos. A posse de López Obrador, em dezembro será um fato marcante.
Os processos históricos são complexos, nem sempre são simétricos e tampouco evoluem de forma linear, há ondulações. Creio que esta vitória demonstra que o progressismo continua vigente.
Ademais, em toda a região há dezenas de milhões de pessoas estão vendo o que acontece no México, inclusive o Brasil.
Se levarmos em conta que no Brasil e no México, os países mais populosos da América Latina, há um apoio grande a líderes de centro-esquerda, isso nos indica que esse movimento está muito vigente.
Claro que não podemos desconhecer o surgimento de uma direita e uma ultradireita em vários países.
Estamos diante de um processo novo, que deu lugar a um fascismo neoliberal, que no caso do Brasil se encarna na candidatura de Jair Bolsonaro.

Tradição diplomática

As escolas diplomáticas do Itamaraty, no Brasil, e de Chapultepec, sede chancelaria mexicana, são as mais reconhecidas da América Latina. Durante décadas, o serviço exterior do país asteca foi um protagonista do tabuleiro regional: recebeu dezenas de milhares de exilados sul-americanos durante as ditaduras, apoiou os processos de paz nas guerras civis da América Central e nunca rompeu relações com Cuba, apesar das pressões estadunidenses. Com a assinatura do Tratado de Livre Comércio da América no Norte, em 1994, essa fortaleza diplomática começou a se perder, com chanceleres que passaram a assumir uma posição mais obediente com relação a Washington, e perdendo o interesse pela América Latina.
Você acha que López Obrador se reencontrará com as velhas bandeiras diplomáticas do seu país?
Não conheço as novas gerações de diplomatas mexicanos, mas é verdade que o México tem uma tradição que se viu historicamente em sua defesa do desarmamento mundial, sua posição a favor de Cuba na Organização dos Estados Americanos, seu respeito ao princípio de não intervenção nos assuntos internos de outros estados.
Creio que com López Obrador, o México voltará a ter uma política externa mais autônoma, defensora de sua soberania, e isso é particularmente importante nestes momentos em que os Estados Unidos realizam uma aberta pressão contra a Venezuela, observada na semana passada durante a visita do vice-presidente Mike Pence ao Brasil e ao Equador.
Pode ampliar essa resposta?
É possível que os Estados Unidos queiram levar o governo brasileiro a uma posição mais intolerante e intervencionista contra a Venezuela. Mike Pence veio ao Brasil para garantir um maior isolamento da Venezuela, além de garantir que o petróleo seja explorado pelas multinacionais.
A posição dos Estados Unidos como potência hegemônica não se explica nas posições de Donald Trump. Estou falando dos interesses do chamado “Estado profundo” que existe nos Estados Unidos, onde estão os interesses de grandes grupos econômicos, da comunidade de inteligência, da indústria militar. Todos esses fatores vão trabalhar para isolar a Venezuela.
Também devemos incluir neste cenário o triunfo do candidato conservador na Colômbia, Iván duque, e o fato de que Bogotá se transformou em um membro associado da OTAN, que é algo preocupante, porque militariza mais as rivalidades entre Colômbia e Venezuela, uma tensão que se atenuou durante os anos da Unasul (União das Nações Sul-Americanas) e que está sendo reativada agora, com os governos neoliberais.
Por tudo isso, é importante que López Obrador atue como um fator que opere contra essas tendências negativas que alimentam a tensão e reforçam a pressão contra a Venezuela. E também a respeito de Cuba.
Venezuela e Cuba como peças chaves na geopolítica do hemisfério.
Creio que a mudança no México é uma esperança neste momento de transição em Cuba, com o novo presidente Díaz-Canel, e quando Trump parece querer terminar com o descongelamento das relações, que havia sido iniciado por Obama. Com um México diplomaticamente mais independente haverá espaço para que Cuba avance com as reformas democratizantes sem ter que se render aos padrões neoliberais, e tampouco à pressão do presidente Trump.
Durante o governo do presidente Lula houve apoio a Cuba através de projetos econômicos, para facilitar uma maior inserção internacional a partir do comércio, sem ter que renunciar aos seus avanços sociais. Inclusive, eu considero que essa política de Lula para com Cuba foi um dos fatores que causaram a moléstia desse “Estado profundo” que controla o poder nos Estados Unidos.
De que forma esse “Estado profundo” respondeu às políticas de Lula?
Estou convencido de que há fatores internacionais interessados na prisão do presidente Lula. Não creio que todas essas coisas ao redor do processo e da prisão sejam casuais. Há grupos que não se contentaram com a posição independente do Brasil diante do Oriente Médio, com relação à integração latino-americana, a criação do Conselho de Defesa da Unasul, a posição com relação ao Irã, a política para com a África. Sabemos que a criação dos BRICS (bloco de novas potências, com Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) causou uma grande preocupação a esse “estado profundo” norte-americano.
E além de tudo isso, é preciso considerar o descobrimento do Pré-Sal, e a decisão de mantê-lo sob o controle da Petrobras.
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