sábado, 26 de maio de 2018

Tereza Cruvinel: Trilhas do desastre

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A soma das perdas do país com esta crise de caminhões, misto de greve e lockout, nunca será exata. Além das econômicas, existem os intangíveis transtornos causados à vida das pessoas. Mas era previsível que os caminhos percorridos pelo governo levariam a uma trombada. Numa trilha, a política de preços da Petrobras, que fatalmente bateria no limite do suportável pelos consumidores de combustíveis. Em outra, a lerdeza com que o governo lidou com o problema, despertando até a suspeita de que apostasse numa turbulência que pudesse comprometer a eleição.
Começando pela lentidão: No último dia 15 uma das entidades de caminhoneiros, a CNTA, pediu por escrito ao governo a abertura de negociações sobre duas reivindicações: o congelamento do preço do diesel até que fosse negociada uma redução tributária, e o fim da cobrança de pedágio a caminhões vazios. Do contrário, avisaram, a greve viria no dia 21, com apoio de outras 120 entidades (não informam se patronais ou de autônomos). O governo não quis conversa. Veio a greve e as transportadoras pegaram carona, incluindo na pauta demandas de seu interesse, como a não-reoneração fiscal do setor.

O movimento estourou na segunda-feira e só na quarta houve a primeira reunião com o governo, que acenou com fim da cobrança da Cide sobre o diesel. Temer pediu trégua. Com a recusa da proposta, que traria redução de apenas R$ 0,05 no preço do diesel, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, colocou finalmente em votação o projeto da reoneração, com emenda suprimindo a cobrança de PIS-Cofins sobre o diesel. Bola fora. O impacto fiscal não seria de R$ 3,5 bilhões, como ele disse, mas de R$ 12,5 bilhões. Na quinta, com o caos campeando solto, o governo fechou aquele acordo capenga, sem garantias de suspensão do movimento, sem a participação de todas as entidades. Não funcionou. Ontem Temer acionou as Forças Armadas. As estradas estão sendo liberadas mas o problema não estará resolvido. A trégua obtida no acordo foi por 15 dias.
Por que o governo demorou tanto? O deputado Miro Teixeira tem uma suspeita: “Talvez tenham apostado na criação de alguma situação política que pudesse até melar as eleições. Talvez acenaram com a Cide apenas para forçar a votação da reoneração. Mas se houve conspiração, ela foi abortada porque muitos, como eu, logo denunciaram que era lockout”. Se houvesse Parlamento de fato, diz Miro, “o impeachment de Temer estaria sendo redigido”, pois ao negligenciar o problema, colocou a ordem pública em risco.
Na base do problema, a gestão atual da Petrobrás, focada em sua recuperação. A política de preços vinculados à variação do dólar e ao preço internacional de petróleo produziu os aumentos constantes mas, para muitos especialistas no setor, o impacto interno não teria sido tão forte se a empresa não tivesse optado por reduzir o refino interno, aumentando as importações. Em 2013, utilizando 100% da capacidade das refinarias nacionais, a Petrobras atendia 90% da demanda. Em 2017, a utilização caiu para 76% e cresceram as exportações de óleo bruto. Agora, com dólar e preço do barril em alta no mundo, 24% do consumo de derivados, como diesel e gasolina, são importados, principalmente dos EUA. Somando-se os impostos, deu no que deu. A classe média, também castigada, não foi às ruas, como o governo até receou, mas ontem outros setores, como os motoristas de vans escolares, aderiram ao protesto. 
Na campanha eleitoral, essa crise alimentará o debate sobre o tamanho do Estado e o papel de sua maior empresa, no confronto entre os mais privatistas e os mais estatistas. Algum ponto de equilíbrio deve existir, entre uma política de preços dita “populista”, nefasta à empresa, e outra, focada nos acionistas e indiferente à realidade da população.
Mais ao fundo, há o velho problema da opção pelo rodoviarismo, num país continental que não investiu em ferrovias e em navegação de cabotagem, erro que só poderá ser corrigido com investimentos pesados por muitos anos.
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