Janot admitiu cooperação com Estados Unidos para Lava Jato avançar e condenar Lula

por Patricia Faermann - no GGN - 16/03/2018


Quais foram os convidados da imprensa e da Justiça para falar em Washington sobre a "luta contra a corrupção" com "turbulência política" e valorizar a parceria com os Estados Unidos
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Jornal GGN - "A Operação Lava Jato, sobretudo o veredito de culpado sobre Lula, colocou o Brasil na liderança do front dos países que estão trabalhando para combater a corrupção, tanto dentro de casa, como fora", resumiu o procurador-geral adjunto dos Estados Unidos, Kenneth Blanco, em palestra realizada pelo Atlantic Council, em Washington, no dia 19 de julho de 2017. "Sem a cooperação jurídica internacional, seria impossível fazer o que nós estamos fazendo", admitiu Rodrigo Janot, também convidado a falar.
Conforme noticiou o GGN aqui, essa e outras falas da autoridade máxima da Justiça norte-americano, expondo o nível de atuação conjunta das investigações da Operação Lava Jato com os Estados Unidos, foram usadas pela defesa do ex-presidente para sustentar um novo pedido para anular o processo contra Lula no caso do Triplex do Guarujá.
Mas por trás do evento em que a autoridade judicial dos Estados Unidos admite a influência e o controle do país nas investigações brasileiras, uma polêmica equipe foi convidada a participar do Seminário, intitulado "Lições do Brasil: Lutando contra a Corrupção em meio à Turbulência Política". 
A moderadora do evento foi a ex-correspondente da Folha de S.Paulo e que hoje atua como vice-diretora do gabinete da América Latina da filantrópica estadunidense Adrienne Arsht, Andrea Murta. Ainda que não mais atuante direta no jornalismo, Murta segue escrevendo artigos para o próprio Atlantic Council e aparece como porta-voz para enaltecer as atuações de Sérgio Moro e da Operação Lava Jato.
"É um cenário terrível para o legado de Lula e não apenas para ele como pessoa", foi as aspas de Murta ao Wall Street Journal, quando o ex-presidente foi condenado por Sérgio Moro [acesse aqui]
Como condutora das palestras sobre a corrupção e parceria do Brasil com os Estados Unidos, Andrea convidou uma colega e, por ela mesma descrita, sua "amiga" Alana Rizzo, da qual considera ser "a melhor jornalista investigativa do Brasil hoje em atividade", acrescentando: "porque se fosse no passado, eu diria que sou eu". 
Rizzo, então diretora da Abraji, passou pelas revistas Época, Veja e Correio Braziliense, e segue escrevendo para os jornais da velha imprensa, como o Estado de S.Paulo. Ela integra hoje uma a empresa de consultoria Albright Stonebridge Group, e tem o papel de oferecer análise e suporte políticos aprofundados para a implementação de estratégias de participação e sociedades.
Em descrição na empresa de consultoria norte-americana, Alana Rizzo aparece como uma especialista em política para dar suporte aos clientes [acesse aqui]
Foi a convidada selecionada para falar de corrupção e investigação no Brasil. Mas não só ela. Também foi o escolhido para representar a imprensa Fernando Mello, que já escreveu para a Veja e para a Folha de S.Paulo, foi colunista do El País América e, como sócio atualmente, assina análise política para o Jota - portal que, se antes detinha certa autonomia editorial, hoje é mais um parceiro da Folha.
Junto com os três, também esteve presente o então chefe da Unidade de Práticas de Corrupção no Exterior (FCPA), do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, e atual advogado Patrick Stolkes, e o primeiro de todo esse grupo a enaltecer os trabalhos da equipe de investigadores brasileiros, o então diretor da Polícia Federal Maurício Valeixo. 
Como havia de ser, a pouca repercussão que recebeu o evento na imprensa brasileira, até então passando quase pelo desconhecimento da opinião pública, foi de exaltação dos investigadores, da parceria com os Estados Unidos, e de Rodrigo Janot - como também foi o conteúdo do próprio evento.

 
No Jota, a palestra de Janot no Atlantic Council foi divulgada como elogio: o ex-PGR foi tratado como um "marco" no antes e pós corrupção [acesse aqui]
E, como tal, de forma sutil, Mello aproveitou para elogiar no evento "a longa caminhada do Brasil em direção à responsabilidade e ao Estado de Direito", ao contextualizar que até 2001 a Constituição Federal impedia que políticos fossem investigados. Apresentou um balanço feito, à época, pelo Jota, que aponta que apesar de Michel Temer ser também investigado, 52% dos congressistas brasileiros acreditavam que o mandatário completaria seu mandato.
Rizzo, por sua vez, glorificou o papel da imprensa - neste caso, a grande imprensa - para "revelar" os dados da Operação Lava Jato, omitindo a direta citação a vazamentos. Mostrou a linha estimulada pelo próprio juiz Sergio Moro para dizer que a importância das notícias nessas investigações foi absurdamente grande. "A Operação Lava Jato foi uma das investigações onde praticamente tudo foi tornado público", admitindo que a função dos grandes jornais era quase de parceria com as autoridades investigadoras: o de um "segundo papel". E lamentou que, a partir daquela data, a imprensa não poderia seguir com o mesmo ritmo de divulgação, uma vez que o número das investigações era muito maior.
Valeixo, em nome da Polícia Federal brasileira, foi quem começou, decretando: "Não haverá qualquer instituição que irá reverter essa situação [gerada pela Lava Jato] no Brasil". E usou significativa participação de sua fala para clamar ao público - neste caso, depois das autoridades de investigação e da imprensa, conforme vem revelando o GGN, o terceiro pilar para a base de abusos da Lava Jato. "Está nas mãos da sociedade brasileira, que é, que foi vítima dessa corrupção, sofrendo com escolas e hospitais de baixa qualidade".
E imendou para o teor político: "A sociedade brasileira terá que assumir a responsabilidade de levar adiante e de exigir do governo", disse Valeixo, então representante da PF no encontro. 
As participações do primeiro painel, com a imprensa, a PF e o advogado americano, podem ser acompanhadas aqui:
Depois dele, o ex-chefe da FCPA Unit do Departamento de Justiça dos Estados Unidos fez questão de ressaltar, a benefício de sua própria nação, que "o Brasil saltou, do início daquele espectro [de investigações] para o atual fim tão rápido quanto nenhum outro país já conseguiu avançar", disse Stokes.. 
Tudo isso, segundo ele, graças à "adaptação de seus sistemas [de investigação] e o aumento da cooperação internacional", que teria permitido ao Brasil otimizar o sistema jurídico a poder investigar vários casos ao mesmo tempo. Ainda, chegou a admitir que é a sociedade que "controla" o que os "procuradores fazem no dia-a-dia". 
E um dia antes foi a vez do ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de se apresentar no Painel que valorizava a cooperação com os norte-americanos e, ainda, que escancarava o controle dos Estados Unidos sobre as investigações nacionais. 
Em sua fala, Janot tentou se blindar de parte das acusações a que vinha sendo alvo, de seletividade e afirmou que a sentença contra o ex-presidente Lula não se tratava de um "declaração política", mas de um "esforço da lei de demonstrar o compromisso do Brasil em combater a corrupção em todos os altos níveis da sociedade". "Não é uma ação política, mas aplicar a lei, empreender a lei", insistiu, em diversos momentos.
"Entretanto, sem a cooperação jurídica internacional, seria impossível fazer o que nós estamos fazendo", admitiu, após a sequência de fala em auto-proteção. 
A participação de Janot pode ser acompanhada a partir do minuto 29:00 do vídeo:
Citou como exemplo a ampliação da Operação Lava Jato para diversos países, sobretudo casos relacionados à companhia brasileira Odebrecht, devido ao seu grande legado de construção na América Latina. Da mesma forma como os demais convidados, fez questão de clamar e valorizar as outras "parcerias": com a imprensa e com o público.
Para ele, as pressões da sociedade civil e da "imprensa livre" não só ajudaram nos esforços da Lava Jato, como também "asseguraram" que os processos permanecessem abertos, sem sigilo. Em tom de heroismo e quase eleitoral, Janot disse: "Eu não sei se o sistema pode ser completamente mudado, mas os caminhos e os passos tomados são irreversíveis".
Nessa linha, concluiu seu pensamento: "Eu não acredito que a sociedade brasileira irá mais aceitar voltar ao sistema que tínhamos antes dessa investigação. Nós ainda temos um longo caminho pela frente, mas com o que estamos fazendo hoje, eu não acho que possamos voltar atrás". 

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