Encontro Putin/Assad: Começo do Fim da Dominação Norte-Americana no Oriente Médio

23/11/2017, Tom Luongo, Zero Hedge

Traduzido Pelo Coletivo Vila Vudu

Não sou homem terrivelmente religioso. Mas gostaria de acreditar que haja um canto especial no Inferno reservado para os que fomentaram a Guerra na Síria.

Desde o início da guerra síria, na Líbia, com as armas encaminhadas através da embaixada dos EUA em Benghazi, até o encontro de ontem, entre o presidente da Rússia Vladimir Putin e o presidente da Síria Bashar al-Assad, todo esse affair será lembrado como um dos períodos mais cínicos, violentos e abusivos da história da humanidade.

O poder (moral) que salvou o século

A chamada 'Guerra Civil' síria [nunca foi guerra civil: sempre foi guerra lá implantada] foi promovida para ser a culminância dos sucessos das políticas de EUA/Israel/Sauditas no Oriente Médio, a apoteose do neoconservadorismo.

Se aquela política tivesse sido bem-sucedida teria transformado o mundo num inferno ardente governado por gente como Hillary Clinton, George Soros, Angela Merkel e o cartel da banqueiragem EUA/Grã-Bretanha.

Síria deveria ter sido a cunha que escancararia não só o Oriente Médio, mas também a Ásia Central. Poria fim à ressurgência da Rússia como potência mundial e subjugaria a Europa, metendo-a num pesadelo sem fim de assimilação cultural forçada e bancarrota completa dos EUA, para pô-los em linha com o fracassado projeto de integração europeia.

Tratados supranacionais como as Parcerias Trans-Pacífico [ing. TPP] e Transatlântica de Comércio e Investimento [ing. TTIP] e o Acordo de Paris foram concebidos para criar uma supraestrutura indiferente a qualquer apoio do povo, exatamente os mais afetados por eles.


No discurso crucial do presidente Vladimir Putin à Assembleia Geral da ONU dia 28/9/2015, a oposição ao projeto dos EUA foi afinal expressa nos termos mais claros e fortes e, francamente, nos termos mais assumidamente humanistas que seria possível imaginar. Lembro as partes mais importantes daquela fala histórica, no que se relaciona à Síria.

"Nessas circunstâncias, é atitude hipócrita e irresponsável pôr-se a fazer ‘declarações’ sobre a ameaça do terrorismo internacional, ao mesmo tempo em que os mesmos ‘declarantes’ fingem que não veem os canais por onde caminha o dinheiro que financia e mantém terroristas, inclusive o tráfico de drogas e o comércio ilícito de petróleo e de armas. Também é igualmente irresponsável tentar ‘manobrar’ grupos extremistas e pô-los a seu próprio serviço para que ‘colaborem’ na busca de objetivos políticos só dos supostos ‘manobradores’, na esperança de “negociar com eles” ou, dito de outro modo, sob a certeza de que, “depois”, poderão matá-los facilmente.

Aos que têm procedido assim, gostaria de dizer: “Caros senhores, não duvidem: os senhores estão lidando com gente dura e cruel, mas não são pessoas ‘primitivas’ ou ‘atrasadas’. São exata e precisamente tão espertos quanto os senhores. Na relação com eles, ninguém jamais saberá quem manipula quem. Perfeita prova disso está nos dados recentes sobre destino final do armamento doado àquela oposição suposta “moderada”.

Os russos acreditamos que qualquer tentativa de ‘jogar’ ou ‘brincar’ com terroristas – e de armar terroristas, então, nem fala! – não é só comportamento de pessoas sem visão, mas é criar pontos de alto risco de fogo, do tipo que iniciam grandes incêndios. É comportamento que pode resultar em aumento dramático na ameaça terrorista, e que se alastre para outras regiões – dado, especialmente, que o Estado Islâmico reúne em seus campos de treinamento militantes de muitos países, inclusive de países europeus.


Na verdade, todo o discurso merece ser relido. É impressionante reflexão e evidência de que Putin, normalmente homem reservado e de poucas palavras, sim, abriu completamente o jogo, expôs todas as suas cartas sobre a mesa e acusou diretamente os EUA por terem declarado guerra a todos os povos do mundo.

E 48 horas depois os jatos Sukhois já sobrevoavam a Síria bombardeando alvos que se opunham ao governo sírio legítimo, o que abriu caminho para várias sucessivas importantes vitórias militares do Exército Árabe Sírio. Pouco depois, uma coalizão formada em torno do governo de Assad, já reunia a Guarda Revolucionária Iraniana, o braço armado do Hezbollah libanês e o apoio financeiro e moral tácito dos chineses.

Putin disse a quem quisesse ouvir, na ONU: "Chega. Agora, basta." Na sequência, ofereceu ações que completaram a significação das palavras. A guerra é sempre lastimável. Quase nunca é justificada. Mas, quando se tem de enfrentar inimigo implacável, pouco resta a fazer senão dar-lhe combate.

Pela minha avaliação, as forças conservadoras que comandavam as decisões de fazer guerra contra Assad eram esse tipo de inimigo implacável.

Fim de 'Assad tem de sair' by Killary 

Com o movimento de Putin, iniciou-se o processo para desmontar e desmascarar a narrativa falsa, cuidadosamente construída, da qual o mundo ouviu falar sob o rótulo de 'guerra civil síria'.

Mas chega de história.

Síria sobreviveu como unidade política. Ontem, Putin apresentou Assad aos comandantes militares mais diretamente responsáveis pela estabilização da Síria.

A velha guarda da Arábia Saudita está presa, perdeu quantidades astronômicas de dinheiro e continua a perder influência pelo mundo, mais a cada minuto. O governo neoconservador de Israel liderado por Benjamin Netanyahu, o alucinado, reclama impotente ante o desenrolar dos eventos, e, claro, os terroristas do ISIS foram varridos dos dois países, Síria e Iraque.

Os EUA continuam a mentir mentiras diferentes, uma para cada interlocutor, dando fuga a alguns terroristas do ISIS, na esperança de voltar a usá-los, presumivelmente contra Irã e/ou Líbano, ao mesmo tempo em que se autoatribui supostas glórias da derrota do ISIS e da libertação de Raqqa.

A situação lastimável em que se veem os EUA é reflexo das questões de fundo jamais equacionadas e que consomem as gigantescas comunidades diplomática, militar e de inteligência dos EUA e das dificuldades que o presidente Trump enfrenta para reorganizar esses grupos que não se entendem nem internamente nem externamente, sem se mostrar fraco ou ineficaz.

Basta considerar o estranho evento durante o fim-de-semana, de helicópteros militares pousando no quartel general da CIA em Langley, para saber que, no mínimo, há uma guerra interna em andamento dentro do governo dos EUA.

A melhor explicação que ouvi (e não há absolutamente prova alguma) é que militares norte-americanos agiram e aplicaram um show de força contra os obamistas dentro da CIA que continuam a manobrar terroristas que mantêm a serviço deles na Síria. E que aquelas operações estão em oposição direta aos objetivos militares dos EUA naquela região.

Se for esse o caso, Putin acerta ao simplesmente ignorar os EUA e fazer andar adiante as conversações políticas em ritmo acelerado, ignorando as conversações de Genebra e dando a Assad todo o apoio de que precisa para continuar como presidente da Síria, no caso de ser eleito pelo voto dos sírios.

Dado que Assad conta com integral apoio de seus militares, e considerando-se o modo como as forças sírias conduziram em campo a guerra contra os terroristas do ISIS e outros grupos separatistas, não há dúvidas de que Assad receberá o indispensável apoio dos eleitores sírios nas próximas eleições.

Não se verá regozijo de Putin 

Mas a grande questão é que preço os EUA terão de pagar pela sua participação em tudo isso. Putin de modo algum porá Trump em situação difícil. A desmoralização dos EUA já aconteceu no plano internacional.

A cumplicidade do governo Obama nesse vergonhoso capítulo da história dos EUA no Oriente Médio já está praticamente exposta, nua e cria, aos olhos de quem abra os olhos e queira ver.

Putin oferecerá uma saída honrosa a Trump, deixando que toda a culpa recaia sobre Obama, Clinton, McCain e o resto da gangue. Só quem não queira ver não verá a conexão entre esse movimento e o fim sem glória da investigação de Robert Mueller sobre o affair 'Russia-Gate'. Mueller está tentando alucinadamente salvar todos os implicados dentro dos EUA, de processo em que serão fatalmente acusados de crimes de alta traição. Mas tenho esperança de que tudo, no cenário político dos EUA, esteja à beira de mudar radicalmente.

Tão logo o juiz Roy Moore vença as eleições no Alabama* e assuma sua cadeira no Senado (pesquisas mostram que a probabilidade de isso não acontecer aproximam-se de zero), Trump terá maioria na Câmara e no Senado para ficar imune a impeachment. Então poderá mandar Mueller para o chuveiro, ou forçá-lo a negociar.

Assim, Trump ganha a oportunidade de aparecer como o grande pacificador. Pode melhorar sua posição como homem capaz de administrar os piores atores que Arábia Saudita e Israel puseram em cena, e mantê-los sob rédea curta.

Na verdade, pode-se até supor que o expurgo na Arábia Saudita tenha também a ver com o rearranjo das relações com a Rússia de Putin. O contragolpe comandado por Mohammed bin Salman aconteceu com as bênçãos de Trump.

Putin pode agir do mesmo modo, para afastar suspeitas quanto a intenções do Irã e do Hezbollah. Também pode impedir que Assad decida retaliar contra seus inimigos – retaliação que é mais que justificada –, em nome de construir uma paz duradoura. E tão logo as conversações estejam concluídas, e superado o risco de independência curda, a Turquia retirará da Síria as suas tropas. 

Putin telefonou a Trump no início da semana, para atualizá-lo sobre o que virá a seguir. É óbvio que os dois mantêm contato ativo sobre como as coisas estão andando na Síria. Trump, por sua vez, espertamente deixou para Putin o serviço de faxina final, enquanto ele lida com seus problemas neoconservadores domésticos.

Aconteça o que acontecer depois – ou fixam-se as linhas gerais para uma paz duradoura, ou se configura um difícil cessar-fogo, com a Rússia fazendo o trabalho de intermediário, pelo menos por hora –, os EUA já perderam toda a credibilidade na região, exceto em Riad e em Telavive.

E, disso, os únicos culpados somos nós mesmos.*****


* Haverá uma eleição especial no estado do Alabama para eleger novo senador, marcada para 12/12/2017. A eleição especial é prevista por lei, necessária para escolher quem substituirá o ex-senador Jeff Sessions e completará o mandato dele, até 3/12/2021. O ex-senador Sessions renunciou ao Senado em fevereiro de 2017 para assumir o cargo de U.S. Attorney General. O governador do Alabama Robert J. Bentley escolheu Luther Strange, ex-Advogado Geral do Alabama, para substituir Sessions no Senado até a data marcada para a eleição especial. Embora tivesse poderes para marcar uma eleição em 2017, Bentley decidiu fazer coincidir a eleição especial e a eleição geral de 2018. Mas a sucessora dele no governo do Alabama, Kay Ivey, mudou a data para 12/12/ 2017, agendando a primária do Estado para 15 de agosto e o segundo turno para 26 de setembro [NTs, com informações de Wikipedia] .

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