quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Indignação, alternativa, esperança: as vias da mobilização. Por Emir Sader

Foto: Ricardo Stuckert
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Por Emir Sader - 09/08/2017

"Se a realidade fosse visível aos olhos, a ciência não seria necessária." (Marx)

Diante dos reveses sofridos pela esquerda e pelo movimento popular, os diagnósticos frequentemente apelam para as soluções mais fáceis, que são as do sentido comum. O povo é cúmplice da corrupção porque não se mobilizou. Esse povo merece sofrer o que está sofrendo, porque não se mobilizou. Entre outras justificativas de quem não consegue entender a situação política e as condições de mobilização popular.

Parece existir uma crença que tudo o que cada um acha é perceptível imediatamente pela massa da população. Se esquecem dos mecanismos de alienação próprios do capitalismo, que impedem a consciência imediata da realidade. Parecem se esquecer do efeito dos meios de comunicação sobre a consciência das pessoas. (Inclusive aqueles artistas que culpam o povo, mas trabalham na Globo, essa máquina de imbecilizar as pessoas.)

Parecem não se dar conta das difíceis condições de sobrevivência da grande massa da população, afetada pela recessão, pelo desemprego, pelo medo de perder o emprego, pelos empregos precários, pela perda de direitos sociais, pela insegurança da vida cotidiana nas periferias, onde predomina a violência de bandos privados armados e da própria policia.

O processo de mobilização politica das pessoas costuma se iniciar com a indignação com a situação que vivem e/ou que vive o país e o mundo. É provocada pelo que na formação política clássica se chama de agitação: poucas ideias veiculadas para muitos. Indignação que é suscitada por denúncias sobre injustiças, desigualdades, repressão, arbitrariedades. Ela serve para tirar as pessoas da passividade, apelar para seus instintos de justiça, seus valores morais, seus sentimentos de indignação.

Esse primeiro momento tem que ser seguido de alternativas, para que as pessoas saibam que outro tipo de política, de governo, de sociedade, é possível. É o que na formação política clássica se chama de propaganda. Muitas ideias, mais elaboradas, para aprofundar a consciência das pessoas indignadas.

Uma vez suscitada a indignação e difundidas as alternativas, será preciso pregar a esperança, a ideia de que não apenas o que acontece é injusto e de que alternativas são possíveis, mas de que elas são viáveis, de que há formas reais de alcançá-las, sem o que não bastaria a indignação e saber que poderia haver alternativas. Em outras palavras, despertar a esperança concreta de que as propostas justas de um mundo melhor podem se concretizar.

No Brasil de hoje, apesar de que muito mais gente que há um ano se dá conta que o golpe foi feito para tirar direitos do povo e favorecer os mais ricos, essa consciência ainda não chega à grande massa do povo. A despolitização pela dureza da vida cotidiana, pela ação obscurantista de igrejas, da mídia, dificulta a consciência social da massa do povo.

Por isso a imagem do Lula surge com tanta força. Ele suscita diariamente a indignação do povo, pela denúncia de como seus direitos são tirados e de como, nos governos do PT, eles foram, como nunca, expandidos e garantidos. Ao mesmo tempo ele mostra como um outro tipo de governo foi possível e continua a ser possível. E aponta o caminho da recuperação da democracia pelo resgate do direito do povo a decidir seus destinos pelo voto popular.

Lula encarna os três momentos: indignação, alternativa e esperança. Daí a força da sua presença, da sua palavra, dos seus gestos. Por isso as Caravanas que ele recomeça agora pelo Brasil assumiram o nome de Caravanas da Esperança. Por isso também a direita tenta matar a esperança. Sabe que a indignação com o governo que ela faz é inevitável. Sabe que os governos do PT mostraram na prática que alternativas são possíveis. E que Lula representa a esperança. Daí que tentaram, por todos os meios, sujar sua imagem, levantar suspeitas reiteradas sem provas, para tentar envolver o nome dele com imagens negativas.

A direita tenta desmoralizar qualquer ação de retorno da democracia, buscando mostrar que nada diferente do que eles fazem é possível. Que a ação estatal é negativa, que os gastos públicos são negativos, que os direitos dos trabalhadores são excessivos, que todo governo deveria fazer o que eles estão fazendo. Isso eles diziam na época do Collor e do FHC. Mas o Lula mostrou que esse fatalismo é falso, é para fazer passar os interesses da minoria como se fossem um destino.

Por isso o redespertar da esperança é o caminho fundamental para o resgate da democracia, dos direitos do povo e do Brasil como nação.
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