terça-feira, 1 de agosto de 2017

Emir Sader: O melhor Congresso que o dinheiro pode comprar

.
Por Emir Sader - 01/08/2017

Já não bastassem as desgraças que sofre o pais com a ruptura da democracia, a atuação conivente do Judiciário e o pacote de maldades do governo golpista, há ainda a desgraceira do Congresso eleito pelo Eduardo Cunha, com o dinheiro do grande empresariado. O melhor Congresso que o dinheiro comprar.

Além de todas as evidencias no processo do Eduardo Cunha, o grande eleitor desse Parlamento, a Odebrecht confessou que comprou a 140 parlamentares, constituindo-se na maior bancada do Congresso Nacional. Um Congresso dominado pelos lobbies – dos ruralistas, da bala, da educação privada, da saúde privada, dos bancos -, eleitos pelo poder do dinheiro, sequestrou o pais.

Não adianta a enorme rejeição do pacotes de medidas do governo, não adianta a imensa rejeição do Temer, não adianta a esmagadora maioria da população ser a favor da saída do Temer por corrupto – o Congresso se rende ao poder do dinheiro do governo e dos interesses que representa. O STF não tem coragem de invalidar as decisões do Congresso em base às denuncias e provas sobre a forma como ele foi eleito. Deixou que ele tomasse a mais escandalosa das medidas – o golpe contra a Dilma – e assiste impávido as barbaridades que ele vota, contra tudo e contra todos.

O Brasil paga caro a incapacidade dos movimentos populares no seu conjunto de impedir que a direita elegesse um Congresso tão de direita. Que fosse eleito um Congresso pelo menos tal ruim quanto os anteriores, mas não tão ruim como o atual. Não ha tradição nos movimentos populares brasileiros de eleger representantes seus para o Congresso, deixando que os votos sejam canalizados por outro tipo de candidatos. E como o Congresso não era importante, isso parecia não ter maiores consequências, ate' que a direita se deu conta de como poderia utiliza-lo e seu o golpe.

Os que pregam que basta o povo na rua para reverter essa situação e restabelecer a democracia no Brasil não conseguem explicar porque houve grandes manifestações no primeiro semestre deste ano no pais, mas a situação não se alterou e as próprias manifestações tiveram um refluxo. Não se dão conta que para que o povo se mobilize não basta a indignação – ponto de partido obrigatório -, mas é necessário que tenha esperança de resolução dos problemas.

Esse Congresso, comprado sistematicamente pelo governo, se erige como obstáculo para a solução dos problemas em torno dos quais o povo se mobilizou. A culpa não é do povo, não tem sentido ficar falando da apatia do povo, do seu desinteresse pelo que passa no pais. O povo está lutando duramente para sobreviver à recessão, ao desemprego, à perda de direitos, à insegurança pessoal na vida cotidiana.

Os que achavam que uma greve geral teria um efeito magico de fazer avançar as lutas populares e a queda do governo, se deram conta que a classe trabalhadora não é uma maquina pronta para parar tudo, bastando ser convocada para tal. A primeira greve, como grande jornada nacional de lutas, foi vitoriosa, mas não pôde se repetir, pela ansiedade de convoca-la, sem as condições necessárias para ela.

A luta pela restauração da democracia requer uma luta cotidiana em todos os setores da sociedade, para superar o isolamento que foi relegada a esquerda. Para isso precisar estar munida de propostas, de vias de sua realização, de lideranças com credibilidade para conduzir o povo por esse caminho.

Lula assumiu a proposta de que os movimentos sociais se responsabilizem por eleger cotas de parlamentares que possam reverter essa situação escandalosa de um Congresso que vota contra os direitos da grande maioria e agora se dispõe a absolver a Temer, apesar da condenação da esmagadora maioria da população. Tanto o movimento sindical, quanto os movimentos de mulheres, de negros, de jovens, de LGBT e todos os outros, tem que assumir a responsabilidade de invadir próximo Congresso com seus representantes, fazendo do Parlamento a cara do povo e não dos delegados do poder do dinheiro.

É parte indispensável da via de democratização radical do Estado a construção de uma representação parlamentar progressista, o que só pode ocorrer se os movimentos populares elegerem representantes seus para o Congresso. Sem o que qualquer tentativa de superação do chamado presidencialismo de coalizão ou ainda qualquer possibilidade de convocação de uma Assembleia Constituinte esbarra no sequestro da representação parlamentar pelos grandes lobbies privados.
Postar um comentário