sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Emir Sader: O Congresso tolera tudo, menos marmitex

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Por Emir Sader - 03/08/2017

Nunca o Congresso Nacional viveu uma situação de tamanha indignidade. Uma vergonha para a historia do Parlamento, para a historia politica brasileira, para a própria historia do Brasil. Nunca se viu tamanha indignidade junta, protagonizada por parlamentares, em flagrante confronto com as normas mínimas de dignidade

Um Congresso que já havia passado por outros dias de vergonha. Aquele do golpe de 1964, em que parlamentares se prestaram a declarar a vacância de poder, como se o Jango tivesse renunciado, para abrir espaço para que os militares tomassem o poder e instaurassem a mais feroz ditadura da historia do pais.

Ou a cada vez que as mais altas patentes das Forças Armadas decidia, entre os generais de 4 estrelas, a quem caberia dirigir o Estado militarizado brasileiro, e o Congresso, subserviente, de cabeça baixa, aprovasse o militar que seria o ditador de turno.

Ou quando aceitava a perda de mandato de parlamentares imposta pela ditadura.

Ou quando aprovou a anistia decretada pelos militares, que juntava torturadores e torturados no mesmo plano, para precaver-se das investigações e eventuais punições quando terminasse a ditadura.

Ou quando, vergonhosamente, não permitiu que, por 2/3 dos seus membros, o Brasil voltasse a ter eleições diretas para presidente da republica, impondo a via do Colégio Eleitoral, que teve consequências muito nefastas para a transição democrática brasileira.

Ou quando tolerou a compra de parlamentares, capitaneada por Antônio Carlos Magalhães, para que o presidente biônico José Sarney tivesse um ano mais de governo.

Ou quando fechou os olhos para a escandalosa compra de votos para que FHC pudesse ter um segundo mandato.

Ou quando quebrou o monopólio estatal do petróleo da Petrobras, para preparar as condições para a privatização da mais importante empresa estatal brasileira.

Ou quando decretou o impeachment, sem provas, da presidente Dilma Rousseff. 

Foram tantos dias de vergonha, que seria muito longo mencionar a todos.

Mas esta vez tudo foi superado. Nunca o Parlamento foi submetido a uma situação tao vexatória. Nunca suas paredes presenciaram cenas tao grotescas, imorais, escandalosas, inverídicas, inaceitáveis, incompatíveis com o decoro parlamentar, injustificáveis, indignas, incompreensíveis, inadequadas, chocantes, inverossímeis, impactantes.

Nunca o decoro parlamentar foi ferido por tantos parlamentares, juntos, por varias horas do dia, negando-se a aceitar as normas regimentais, rejeitando os apelos das autoridades constituídas. Nunca houve comportamentos tao distantes daqueles que caracterizam as casas do Congresso. Nunca a boa educação e as normas da boa convivência foram tao ultrajadas.

Nunca se uniram tantos parlamentares para impor sua vontade à da maioria, de forma tao inconveniente, valendo-se da presença da mídia para fazer declarações contra o governo e contra o próprio Congresso.

Mas ocorreu e agora aqueles que cometeram esse crime de lesa decoro parlamentar vao pagar por isso. A Comissão de Ética do Senado tramita duras punições para as senadoras Angela Portela, Fatima Bezerra, Gleisi Hoffmann, Lidice da Mata, Regina Souza e Vanessa Grazziotin, que, não bastasse bloquearem os trabalhos do Senado para a aprovação da brutal reforma da CLT, se puseram a almoçar, com seus marmitex, na própria mesa do 
Senado.

Superou todos os limites. O Congresso suporta tudo. Compra de votos no próprio plenário por ministros do governo, declarações mentirosas sobre as razoes dos votos contra a presidente Dilma e a favor do Temer, parlamentares ofendendo a deputadas, outros com comportamentos ainda mais imorais.

Mas marmitex é demais pro Parlamento. É invadir seu recinto sagrado com as condições de vida e de alimentação da massa dos trabalhadores brasileiros, nas portas de fábricas, realidade para a qual justamente o Congresso faz um imenso esforço para dar as costas, para desconhecer. Além de tudo, as senadoras superaram em muito o prazo de meia hora para o almoço que o Congresso estipulou, mais que suficiente para que qualquer trabalhador possa almoçar.

Violações inaceitáveis do decoro parlamentar. Tudo, menos marmitex, senhoras senadoras!
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