quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Divisão do PSDB em votos pró e contra Temer pode ser teatro político

RUMO A 2018
PSDB ensaia estratégia para 2018 e objetivo do PMDB é voltar para as sombras. “A vitória desta quarta-feira (2) foi menos do Temer e mais da agenda liberal”, diz cientista político Vitor Marchetti, da UFABC

por Eduardo Maretti, da RBA publicado 03/08/2017

MATEUS BONOMI/AGIF/FOLHAPRESS
Temer
Partido de Temer não tem nada a perder. Não tem nome forte para lançar como candidato, e nem precisa
São Paulo – Logo após a votação na Câmara dos Deputados que deu a Michel Temer, ontem (2), a vitória contra a denúncia da Procuradoria-Geral da República, as avaliações de que o placar de 263 votos a 227 foi magro já eram correntes. Até mesmo o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), considerou o resultado “ótimo se formos pensar o hoje, mas muito ruim se olharmos para o futuro”.

Diante do que estava em jogo, o próprio mandato presidencial, a vitória de Temer pode ser considerada expressiva e demonstra que ele ainda mantém relativo controle sobre o parlamento. Mas o apoio ao presidente está minguando. O governo aprovou a reforma trabalhista, por exemplo, que exigiu menos empenho, por 296 votos a favor e 177 contra. 

A questão implícita na votação é que a própria vitória de Temer já dá algumas pistas de eventuais estratégias de seus aliados pensando em 2018. O “racha” tucano, por exemplo, um dos temas mais citados no day after, pode ser uma delas. Se a divisão dos parlamentares do PSDB, principal fiador de Temer, foi emblemática (21 votos contra e 22 a favor do presidente), para o cientista político Vitor Marchetti, da Universidade Federal do ABC, até mesmo esse racha tucano pode ter sido uma espécie de teatro político.
“Acredito que essa divisão do PSDB tenta dialogar com as duas pontas da sociedade: a daqueles que não toleram a corrupção e mantêm esse discurso de ‘fora todos, não aceito corrupção’ etc., mas também dialoga com a parcela para a qual o que importa é que as reforma avancem. Até a divisão do PSDB pode ter sido orquestrada”, diz Marcheti. “O partido não fechou com Temer, mas apoia a agenda de desenvolvimento segundo a agenda liberal. Eu acho, inclusive, que eles fizeram as contas, sobre quem vota a favor e quem vota contra.”
Ricardo Caldas, cientista político da Universidade de Brasília (UnB), lembra que tal comportamento faz parte do conhecido script tucano. “Eu diria que a imagem do partido é exatamente essa.”  Para ele, o cálculo do PSDB leva em conta que, com a aproximação das eleições, cada vez menos políticos querem se associar a um presidente e governo extremamente impopulares.
"A permanência do PSDB (no governo) continua sendo provisória. Pode sair a qualquer momento. Com a manutenção de Temer e a aprovação da reforma trabalhista, os elementos para a saída do PSDB foram dados. Até porque, dificilmente haverá reforma previdenciária como se imaginava um ano atrás. Caminhamos para uma minirreforma previdenciária, sem elementos constitucionais, porque o governo não dispõe de uma maioria nem de três quintos, nem de dois terços”, avalia Caldas.
Quanto ao presidente da República, ele sabe que não tem a menor possibilidade de se candidatar à presidência e cumpre seu papel de tocador da agenda econômica do mercado enquanto puder. Mas ele não fez pouco por essa agenda, aprovando a PEC do teto, a terceirização e a reforma trabalhista, além de conseguir sua própria manutenção na votação da Câmara.
“A vitória de quarta-feira (2) foi menos do Temer e mais da agenda liberal”, diz Marchetti. Como a vitória foi também de políticos implicados em corrupção e alvos de investigação, a tendência, diz o analista, é o país chegar a 2018 com o Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal mais sob controle. “A indicação de Raquel Dodge para assumir a Procuradoria-Geral da República e de Alexandre de Moraes para o STF vão nessa direção.”
E o partido do presidente não tem nada a perder. O PMDB não tem nome forte para lançar como candidato, e nem precisa. “O objetivo do PMDB é voltar para as sombras, talvez num acordo com o PSDB”, observa o analista da UFABC.
Para Ricardo Caldas, a vitória de Temer foi expressiva e também um ponto de interrogação. “O número de votos que ele teve foi um pouco acima da metade do Congresso. Se essa for a base real que ele possui no Congresso hoje, não consegue mais aprovar as reformas, especificamente da Previdência.” Para o cientista político, a tendência é a base não se reconstruir, dado que falta pouco mais de um ano para acabar o mandato. “A base que eu imagino que ele tenha é mais ou menos essa que apareceu ontem na votação”, acredita o professor da UnB.

E a esquerda?

A esquerda e, particularmente, o ex-presidente Lula, têm desafios importantes daqui a 2018. Para Caldas, o PT está fazendo uma aposta de alto risco ao jogar todas as fichas em Lula. Como o ex-presidente tem hoje, contra si, seis denúncias (três em Brasília e três em Curitiba), “se sua candidatura for inviabilizada o partido corre o risco de ficar sem candidato”.
Quais poderiam ser as alternativas da centro-esquerda? “O próprio Fernando Haddad, que tem se colocado à disposição, a senadora Gleisi Hoffmann, de certa forma. Mas, talvez, o grande plano B não seja nenhum nome do partido. Talvez seja o próprio Ciro Gomes”, pondera Caldas. Em seu benefício, Ciro tem o fato de ter ficado relativamente à margem da política nos últimos anos. “O que foi benéfico para ele, já que não foi atingido pelas crises. Por outro lado ele é conhecido por seu temperamento mercurial, instável, emocionalmente.”
Para Vitor Marchetti, a esquerda precisa com urgência construir uma reação e um novo discurso com uma agenda antiliberal, de retomada dos investimentos do Estado. “A esquerda começa a abandonar a tentativa de derrubar o governo e investir mais em construir essa agenda, centrar fogo no discurso eleitoral e apresentar um novo projeto pro país”.
Na opinião do cientista político da UFABC, Ciro Gomes “tem isso muito claro”. Como alvo de inúmeras investigações, Lula está tentando articular esse discurso. “Ele tem que construir uma agenda plural para atender as frentes com as quais dialoga, apresentar um projeto de país, num cenário em ele está sendo bombardeado”, afirma Marchetti. 
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