sábado, 15 de julho de 2017

Emir Sader: Lulismo, a chave política da saída da crise atual

Ricardo Stuckert
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Por Emir Sader - 14/07/2017

A comoção gerada pela pífia e partidária sentença contra Lula revela a dimensão que o projeto histórico representando pelo ex-presidente brasileiro tem para o país. O rato colocou em movimento uma montanha. Quem proferiu a sentença não tinha ideia do que colocava em movimento e nem das consequências políticas de suas aberrações jurídicas.

Porque Lula não é um dirigente político, um ex-presidente, um candidato nas próximas eleições. Ele é isso e muito mais. Porque foi ele quem encontrou a fórmula para desatar o processo de superação do neoliberalismo – chave para qualquer força política nos tempos atuais.

Lula captou a centralidade da questão social, antes de tudo. Como no país mais desigual do continente mais desigual do mundo, qualquer proposta política tem que priorizar programas sociais de inclusão nos direitos econômicos e sociais básicos a toda a massa da população. Lula veio dessa massa excluída, lutou, como dirigente sindical, contra a exclusão e pelos direitos da massa de trabalhadores, presidiu um partido dos explorados e excluídos, soube liderar a resistência nacional contra o projeto neoliberal de intensificação da exploração do trabalho, de concentração de renda e do maior processo de exclusão social do Brasil contemporâneo, mediante a recessão, desemprego e a precarização das relações de trabalho.

No governo, Lula se deu conta de que o equilíbrio das contas públicas era condição da prioridade do social. Teve consciência que somente um Estado economicamente recuperado do seu desmonte pelo neoliberalismo, que somente um sistema de bancos públicos sólido e expandido, poderiam gerar as condições para a prioridade das políticas sociais. Que somente um sistema de democratização do crédito poderia recuperar a capacidade de crescimento da economia e que esta, por sua vez, só poderia crescer de forma sustentável se apoiada em uma dinâmica acelerada de distribuição de renda e de inclusão social. O mercado interno teria que servir de alavanca para essa retomada do crescimento.

Ao mesmo tempo, Lula se deu conta que somente uma política externa soberana, liberada das tentações de Tratados de Livre Comércio subordinados aos interesses dos EUA e, ao contrário, centrada nos processos de integração regional e no intercâmbio Sul-Sul, poderia ser funcional ao processo de crescimento econômico, de distribuição de renda e de inclusão social.

Esse esquema de governo desembocou no discurso de Lula, que tornou a esquerda hegemônica no Brasil. Não por acaso, vítima de mais de 80% de referências negativas na mídia, Lula concluiu seu segundo mandato com 87% de apoio. Seu discurso se assentava nos programas de inclusão social de maior sucesso na nossa história, articulado entre os crescente aumentos exponenciais dos salários e nos programas sociais de proteção de toda a população do país, até ali excluída e desprotegida. O direito igual de todos a se tornarem cidadãos, sujeitos de direitos, comandou esse discurso.

As alianças sociais e políticas funcionaram enquanto houve hegemonia dos objetivos fundamentais colocados pelo governo do PT. Os aliados políticos e sociais não queriam estar fora das políticas de governo de maior popularidade que o Brasil havia conhecido. Geração intensiva de empregos com carteira assinada, aumento constante dos salários acima da inflação, programas sociais como o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida, o microcrédito, o Luz para Todos, entre tantos outros, constituíram o cerne desse projeto histórico que resgatou o Brasil da intensa desigualdade e exclusão social, da fome e da miséria, promovendo a justiça social, a auto-estima dos brasileiros e o prestigio do Brasil no mundo.

Por isso Lula é mais do que um candidato, muito mais que um acusado em processos fajutados, é mais do que o PT e de que toda a esquerda, é mais do que um líder. Por isso Lula é o aríete de superação do isolamento da esquerda e dos movimentos sociais, porque seu discurso, sua fala, chega a todos os setores do povo.

Por isso Lula é o centro do lulismo, do amplo movimento que se constitui não apenas para defendê-lo como cidadão, mas daquele que o projeta como o símbolo mesmo do regaste da democracia, das políticas de inclusão social e do papel soberano do Brasil no mundo. Representa a necessidade imperiosa de resgate do papel ativo no Estado em todos os planos – econômico, social, político, cultural, internacional.

Daí que o lulismo se assemelhe tanto ao queremismo que trouxe de volta Getulio, que represente para o povo tanto quanto representava o retorno do Getulio e muito mais, pelo que significa também em termos de democracia e de projeção internacional do Brasil.

Quando começou a se romper o esquema político e social montado por Lula, durante o primeiro governo da Dilma Rousseff, foram se incubando os fatores da crise posterior, foi se instalando a crise hegemônica de que é vitima atualmente o país. O governo foi perdendo capacidade de liderança política sobre seus aliados e liderança econômica sobre setores do empresariado, ao mesmo tempo em que, sem compreender o papel do discurso na hegemonia politica, deixou de falar sistematicamente ao povo, acreditando que a eficácia das políticas sociais do governo seria suficiente para manter sua hegemonia.

A mais profunda e prolongada crise da história brasileira consiste numa imensa crise de hegemonia, com um governo totalmente isolado da população, com uma política econômica que só atende um setor irrisório do país, sem políticas sociais que garantam os direitos da massa do povo, sem qualquer discurso que possa justificar seu governo injustificável do ponto de vista democrático, social e nacional. Um governo que se instalou pela força e não dispõe de nenhuma capacidade hegemônica na sociedade.

O lulismo se alimenta desse vazio, desses retrocessos impostos pela elite que, com razão desde seu ponto de vista das minorias dominantes, persegue Lula como algoz das suas políticas cruéis e odiosas. Somente a retomada do esquema montado por Lula e atualizado nas condições atuais da economia e da política internacionais – com a reiterada recessão econômica, mas podendo contar com os Brics -, do clima econômico – com um grande empresariado rendido à especulação, mas que pode ser tentado pelas virtudes da retomada da expansão econômica –, com direitos sociais avassalados – mas, por isso mesmo, com a sensibilidade majoritária do país voltada para a questão social –, pode tirar o Brasil da crise a que o golpe levou o país.
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