quinta-feira, 6 de julho de 2017

A pesquisa sobre a confiança do brasileiro na velha mídia confirma nosso déficit civilizatório. Por Willy Delvalle

Os novos apresentadores do JN
Por Diario do Centro do Mundo - 6 de julho de 2017

POR WILLY DELVALLE

O apoio ao golpe militar de 1964. A tentativa de esconder as Diretas Já, nos anos 1980. A manipulação a favor de Collor. O apoio a um novo golpe. A defesa cheia de elogios até poucos dias atrás ao governo Temer. Já seria o bastante.
Mas, numa edição do Jornal Hoje, Cecília Malan narrava o resultado de uma pesquisa do Instituto Reuters de Estudos para o Jornalismo e da Universidade de Oxford. O estudo mostra que o brasileiro urbano é o povo que mais confia nas notícias da mídia, depois dos finlandeses. Quando ela terminou, Sandra Annenberg parabenizou o trabalho da emissora. Festa para eles. E para o Brasil?

A porcentagem dos que geralmente acreditam nas notícias de TV, rádio, internet e jornal é de 60% no país, segundo o estudo, que consultou cerca de 2 mil pessoas da zona urbana, entre janeiro e fevereiro deste ano. No ano passado, eram 58%. Na Argentina, o índice de confiança é bem menor, 39%. O país vizinho tem características socioeconômicas muito parecidas com as brasileiras e também é dominado por um oligopólio midiático. Porém, o que explica o fato de os brasileiros confiarem muito mais?
Má notícia
“A mídia tradicional comemorou muito essa pesquisa”, observa Angela Grossi, professora de Teorias da Comunicação da Unesp (Universidade Estadual Paulista). Para ela, a confiança apontada é um péssimo dado para o país. A professora contrasta o caso do Brasil com o da Finlândia, o primeiro do ranking dentre 36 países pesquisados. 62% dos entrevistados dizem confiar nas notícias da mídia finlandesa.
“A Yle, empresa pública de mídia fundada em 1926, tem quase metade do market share de rádio e TV do país”, diz. Grossi explica que o não comprometimento com os interesses do grande capital leva a uma transparência maior. E a população se sente mais confiante. “A concentração dos meios no Brasil impede que a informação chegue com a qualidade e transparência que deveria. Mas falta a leitura do público nacional em relação ao papel que os meios têm aqui”, afirma.
A professora diz que também falta uma cultura política bem desenvolvida entre os brasileiros. “Somos um país que viveu muito tempo sob ditaduras. Isso interfere diretamente na maneira como as pessoas leem os meios”, explica. Ela cita que, no caso da Argentina, que também vivenciou períodos ditatoriais, a questão educacional se consolidou com mais força. E o país teve a lei de meios, tornando a questão “um pouco menos nebulosa do que no Brasil”. Não é à toa que a história recente da Argentina inclui uma série de protestos contra o Grupo Clarín.
“Toda vez que não se consegue confiar plenamente num meio significa dizer que talvez ele não represente a população. A cultura política da Argentina talvez explique porque não há tanta confiança assim”, analisa. Grossi acredita que um desenvolvimento educacional maior no Brasil faria a confiança na mídia ser bem menor do que no país vizinho, que agora teve a lei de meios revista pelo presidente Maurício Macri.
Fake news
O advento da internet e das redes sociais poderia ter derrubado a confiança nas mídias tradicionais. Mas o que se viu não foi exatamente isso. A explicação está nas chamadas fake news. “O fato de as mídias sociais de modo geral terem uma variedade de informações às vezes falsas faz com que a credibilidade dos meios tradicionais aumente”, atribui a professora Angela Grossi.
É basicamente o que faz Telma Pereira dos Santos, 38 anos, secretária, confiar em meios como os da Rede Globo e UOL, seus favoritos e também, segundo a pesquisa do Instituto Reuters e da Universidade de Oxford, do público consumidor de notícias nas cidades do Brasil.
Telma é parte de um público expressivo que desconfia cada vez mais das notícias publicadas em redes sociais. “Hoje em dia confiar piamente em alguma notícia, seja ela publicada em qualquer mídia, é um pouco difícil, mas ainda quero acreditar que a Globo é mais confiável”, defende. No seu ponto de vista, publicações sem aprofundamento estão por todo lugar. “E acredito que a Globo tem um nome a zelar”, diz.
“Acredito que a Globo é bem responsável em relação às notícias que publica”, avalia. No entanto, o tamanho e o poder do conglomerado lhe parecem perigosos. “Eles monopolizam”, afirma.
Ela diz confiar “um pouco” em jornais como Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo. “Talvez os jornais mais antigos sejam confiáveis. Como estão há muito tempo no mercado, tentem ser íntegros. Ainda acredito que se alguma empresa consiga permanecer no mercado é porque é íntegra. Pode não ser 100%”, pondera.
Fracasso generalizado
Para Cláudio Bertolli, antropólogo também da Unesp, o que ocorre com Telma é resultado de uma sociedade cujas instituições já não são confiáveis. Com a Igreja, o Estado, os partidos políticos e outras instituições tradicionais em descrédito, em quem acreditar? Naquela que criou a sensação de que diz a verdade e dialoga com a população: a mídia. “Ela própria sempre se empenhou em se apresentar como portadora de uma verdade. Nós nos acostumamos a reconhecer uma autoridade legal por parte dela”, diz.
Segundo o professor, os meios de comunicação adestraram a sociedade de que não estão vinculados a sistemas de poder. Mas a prática é diferente do discurso. “O que vemos são representações espúrias e interesseiras da realidade”, critica. Isso é parte, explica Bertolli, de uma relação histórica das elites com a sociedade brasileira. Uma relação de desinformação. “É uma sociedade dócil. Ela foi disciplinada de uma maneira muito mais sofisticada, especialmente a partir de Getúlio Vargas a aceitar as coisas”, contextualiza.
Para ele, o sentido está retratado na música “Bem Brasil”, do grupo Premê: “aqui não tem terremoto, aqui tem revolução”. O resultado, complementa, é uma sociedade muito mais acrítica do que outros países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. “Somos uma sociedade pouco letrada, analfabetos funcionais. Nós preferimos a televisão porque é o canal mais fácil”.
Na avaliação de Bertolli, espaços que deveriam educar não o fazem. “São escolas, a própria intelectualidade, vestibulares e concursos públicos que usam textos da mídia não como fonte de informação, mas como fonte de verdade”, afirma.
Futuro
Num país onde 97% das casas têm televisão, nem a internet é páreo. Mas o domínio da mídia não parece ser tão sólido e eterno. A pesquisa do Instituto Reuters mostra que, apesar da alta confiança de brasileiros na mídia, a cobertura do impeachment de Dilma Rousseff aumentou a percepção de que as notícias midiáticas são influenciadas pelo dinheiro e pela política. No ano passado, 36% acreditavam que ela era livre desses fatores. Neste ano, são 30%.
Esse número deve diminuir, segundo Angela Grossi. Para ela, o que também deve diminuir no Brasil é aquilo que dá certo na Finlândia, a comunicação pública. “Desde que Michel Temer entrou, desarticulou totalmente a TV Brasil. E acredito que só vai ficar cada dia pior, se não chegar à extinção”.
O cenário é desalentador na visão de Bertolli: “quanto mais nos desiludimos com as pretensas verdades, mais nos iludimos com os centros geradores de verdades”.
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