domingo, 11 de junho de 2017

Pâmela Araújo Pinto: Como a mídia regional sustenta a oligarquia

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Fotos Públicas: Fabio Rodrigues Pozzebom (Agência Brasil), Marcelo Camargo (Agência Brasil), Lula Marques (AGPT) e Marcos Corrêa (PR)

A base política que sustenta o governo Temer no Congresso tem forte presença em importantes mercados de mídia, constatou a pesquisadora Pâmela Araújo Pinto, que investigou o assunto nas regiões Norte e Sul do país.
Ela analisou o mercado em 392 veículos de 29 cidades do Norte e 824 veículos de 58 municípios do Sul
Identificou 90 políticos donos de meios de comunicação nas duas regiões.

A concentração da mídia no Brasil já é um dado denunciado mundialmente, assim como a associação do maior conglomerado, o Grupo Globo, com as oligarquias locais — construída especialmente durante a ditadura militar.
Porém, há carência de estudos regionais.
Na conjuntura atual, chama a atenção o papel essencial de alguns políticos donos de veículos regionais na sustentação do governo Temer: o presidente do PMDB, Romero Jucá, o ministro da Saúde Ricardo Barros e o senador Jader Barbalho, por exemplo.
O apresentador Ratinho, do SBT, fez recentemente uma entrevista em que declarou apoio aberto a Temer. Ele controla o Grupo Massa, do Paraná, que assim como toda a grande mídia tem recebido — direta ou indiretamente, via rede nacional — investimentos maciços do governo federal para promover as reformas trabalhista e da Previdência.
Fica constatada, assim, uma imensa troca de favores bancada com dinheiro público, ao mesmo tempo em que o Planalto justifica as reformas que retiram direitos dos trabalhadores pela carência de recursos.
Pâmela é professora substituta da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ) e concedeu entrevista por escrito ao Viomundo:
Viomundo: Por que decidiu fazer a pesquisa?
Sou maranhense e sei o quanto o controle da mídia por políticos limita o desenvolvimento de um lugar (cidade ou estado). Lá as quatro afiliadas às principais redes de TVs são de políticos. A Globo até este ano pertenceu à família Sarney — foi vendida; a afiliada ao SBT, TV Difusora, está com a família do senador Edson Lobão; a TV Cidade, afiliada à Record, pertence à família do senador Roberto Rocha; a Band local está afiliada à família do político e ex-deputado estadual Manoel Ribeiro. Infelizmente, esse cenário é comum em outras partes do Brasil. Foi o que descobri com a pesquisa.
Viomundo: Qual o objetivo do estudo?
No doutorado, decidi estudar o maior (depois do Sudeste) e o menor mercado de mídia regional do Brasil, por isso escolhi as regiões Sul e Norte, respectivamente. Meu objetivo era entender como as empresas se organizavam, o seu impacto nesses espaços e descobrir se havia semelhança, pois as diferenças eu já imaginava que eram certas — por questões socioeconômicas. Eu também já morei no Amazonas e sabia como a questão da mídia, do acesso era mais complexa.
Também procurei entender o impacto do controle da mídia nas duas regiões por políticos, pois mesmo na academia ainda se pensa que esse controle é algo apenas de regiões mais pobres, como o Nordeste.
Busquei os grupos de mídia de capitais das duas áreas e cidades de médio e pequeno porte. Localizei grupos afiliados às grandes redes de TV (Globo, SBT, Record, Band e Rede TV) , afiliados às redes de rádio (CBN, Jovem Pan, Transamérica) e também grupos menores e independentes desses elos com mídias nacionais.
Como regra, no Norte e no Sul, encontrei uma mídia regional muito concentrada, ou seja, pertencente a poucos grupos, e com fortes vínculos com redes de mídia de cobertura nacional.
O vínculo desses grupos locais com as grandes empresas nacionais acaba fortalecendo conglomerados regionais. Essas empresas são as mais atrativas para as empresas locais fazerem anúncios, o que enfraquece iniciativas alternativas de mídia.
Viomundo: Quais os principais exemplos você encontrou de famílias que controlam a mídia local e/ou regional?
A propriedade de mídia por políticos ocorreu com bastante intensidade nas cidades que pesquisei no Norte e no Sul. Isso desmonta alguns preconceitos, pois localizei mais políticos no Sul, a região mais desenvolvida socioeconomicamente.
Identifiquei 34 políticos ligados a 26 grupos de mídia nos sete estados do Norte. No Sul localizei 56 políticos ligados a 41 grupos, nos três estados.
Os políticos usam suas empresas de mídia para se manter nos cargos, pois ampliam sua visibilidade continuamente. Eles transferem essa influência hereditariamente, pois também elegem parentes próximos.
No Norte os casos dos senadores Jader Barbalho e Romero Jucá são emblemáticos. Jader tem um conglomerado forte no Pará, com jornais, TVs afiliadas à rede Bandeirantes, rádios e portais que formam a Rede Brasil Amazônica de Comunicação (RBA).
Jader ocupa cargos públicos desde a década de 60 e também apoiou a carreira da ex-mulher, Elcione Barbalho. Ela vem sendo eleita deputada federal pelo Pará há cinco legislaturas. O filho do casal, Helder Barbalho, também é político e atual ministro da Integração Nacional.
Romero Jucá é senador por Roraima desde 1995 e tem ocupado cargos estratégicos, como ministérios e a liderança no Senado — de Lula a Temer!
A família Jucá controla afiliadas às redes Band e Record, com cerca de 14 concessões de radiodifusão no estado. Ele apoiou as eleições de Teresa Jucá, ex-mulher, para o posto de deputada federal e para prefeita da capital — por seis mandatos. O filho do casal, Rodrigo, foi deputado estadual.
No Sul a afiliada ao SBT no Paraná, “Rede Massa”, cobre todo o estado com cinco TVs e uma rede de rádios. Desde 2008 ela é propriedade do apresentador Carlos Massa, em sociedade com Sílvio Santos.
Os veículos fazem constante propaganda do político Ratinho Junior (PSC), filho de Massa. Ele tem o programa de notícias nas rádios.
Ratinho Junior é deputado estadual, mas está afastado para exercer o cargo de secretário estadual. Foi deputado estadual de 2003 a 2007 e, em seguida, foi eleito deputado federal por dois mandatos consecutivos, entre 2007 e 2014. Pleiteou a prefeitura de Curitiba, em 2012, mas não foi eleito.
O atual ministro da Saúde, Ricardo Barros, é deputado federal pelo Paraná há cinco mandatos. Localizei emissoras de rádio em Maringá, sua base eleitoral, vinculadas à sua família. Ele é casado com a vice-governadora do Estado, Cida Borghetti, e é pai da deputada estadual Maria Victoria.
Observei um sincronismo entre a ascensão política e a posse de mídias, sobretudo de radiodifusão.
O senador mais jovem do Brasil, Gladson Cameli, eleito pelo Acre, teve o apoio do tio — ex-governador Orleir Cameli — e das mídias da família. A Juruá FM foi adquirida após a gestão de governo do tio e já operava há cinco anos na primeira campanha de Gladson a deputado federal. A TV veio em 2009, quando Gladson já era parlamentar. Nos oito anos de carreira que antecederam a ida ao Senado, o político pode contar com essas plataformas para divulgar sua atuação. Cabe destacar que ele integrou a Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação e Informática no Congresso.
Viomundo: Existe alguma cidade/região em que o domínio de uma única família seja completo? Analisou o caso do Maranhão?
No Norte a posse de mídia ocorre de modo mais escancarado. Senadores e deputados federais estão à frente (ou colocam familiares) das afiliadas de redes de TV e rádio nacionais. Nos estados de Roraima e Rondônia todos os grupos locais pertencem a políticos.
No Amapá encontrei uma concentração de mídia única, pois as Organizações José Alcolumbre eram afiliadas às redes SBT, Record e Band.
Localizar informações sobre essas emissoras foi um trabalho de jornalismo investigativo, pois elas não disponibilizam sites com informações sobre as afiladas e suas grades de programação.
O dono do grupo do Amapá apoiou a trajetória do sobrinho, o senador Davi Alcolumbre (DEM). Davi foi vereador em Macapá, entre 2001 e 2003, e deputado federal por três mandados, de 2003 a 2015. Integrou a Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação e Informática no Congresso, impactando a definição das políticas para o setor de radiodifusão.
Viomundo: Você estudou se este poder está sendo erodido pelas redes sociais?
Observei alguns jornais independentes que usam as redes sociais para divulgar seu trabalho aos leitores. Mas o acesso à rede ainda não é massivo no país, sobretudo na região Norte.
Em 2002 havia cerca de 3% de residências com acesso à rede na região. Dez anos depois esse dado passou para cerca de 30%.
A TV ainda é a principal mídia do país, chega a quase 98% das casas, enquanto a internet só é realidade para cerca de metade da população. Por isso muitos políticos ainda querem ser donos de rádios e TVs.
Viomundo: Você estudou a reprodução, pela mídia local, da produção dos grandes grupos de mídia nacional que vendem colunas de opinião e notícias através de suas agencias, criando um padrão nacional?
O forte vínculo com as empresas de referência nacional, como as redes de TV, trouxe alguns impactos nas duas regiões. Há pouco espaço para produção de conteúdo local nas emissoras regionais. E uma (l)imitação dos formatos de programas da grade nacional.
Muitos acabam colocando apenas telejornais como produtos que mostram a realidade local — é o caso das afiliadas da Globo.
No Norte há muitos (muitos!) programas policiais que imitam formatos nacionais. Eles passam durante todo o dia, sobretudo nas afiliadas da Band, Record e SBT. Quase não localizei programas que falassem das questões locais, tradições e cultura.
No Sul há mais espaço para programas que falem das tradições culturais, principalmente no Rio Grande do Sul.
Nas duas regiões as emissoras afiliadas alugam horários nas grades para igrejas e programas que vendem produtos.
Viomundo: Como os políticos locais lidam com a falta de controle sobre a mídia nacional, que tem penetração em suas bases eleitorais?
Não cheguei a fazer uma observação sobre isso nas duas regiões. Mas constato que as redes nacionais de TV são “displicentes” (ou coniventes) com esse controle da mídia local por políticos. Nas duas regiões observei vínculos diretos entre as redes de TV e rádio com grupos políticos locais, por exemplo aa própria Rede Massa, que é de propriedade do SBT e é usada para dar visibilidade ao político Ratinho Jr.
No Norte esse elo com parceiros políticos é obscuro, pois não há sites das afiliadas locais, sobretudo as ligadas ao SBT, Record, Band e Rede TV!
Não há uma cobrança mínima por transparência das redes para com as afiliadas em relação à produção local.
Não há informações sobre o uso das emissoras de radiodifusão públicas, exploradas comercialmente, e isso parece conveniente para as redes, pois não expõe os vínculos que elas tem com os parceiros locais (grupos políticos, muitas vezes).
Serviço: Brasil e as suas mídias regionais: estudos sobre as regiões Norte e Sul
Autora: Pâmela Araujo Pinto
Data: 21/06/2017 (quarta-feira)
Endereço: Espaço Multifoco (Av. Mem de Sá, 126 – Lapa)
Editora: Multifoco – Rio de Janeiro
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