sábado, 6 de maio de 2017

Constrangido com perguntas da Lava Jato, Temer admite que havia caixa dois

Em entrevista à Rede TV, o presidente manifestou respostas sarcásticas, ironias e estava nitidamente desconfortável
 
 
Jornal GGN - Nitidamente constrangido com as perguntas sobre a Operação Lava Jato e as acusações da Odebrecht que o colocam em risco no processo que poderia encurtar seu mandato no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Michel Temer tentou fugir das respostas sobre o uso de caixa dois, admitiu que atuou na arrecadação de recursos para a campanha presidencial de 2014 com um "valor insignificante" e teve uma das perguntas cortadas por Reinaldo Azevedo, da Revista Veja.
 
A jornalista Amanda Klein questionou: "Presidente, antes de o senhor assumir, o grande foco de corrupção da Lava Jato era o PT. Agora, pelas últimas revelações com as delações da Odebrecht vê-se que a corrupção era generalizada, e atingiu principalmente, também, o seu partido, o PMDB em cheio, com oito ministros investigados, atingiu o PSDB, também outro grande aliado sócio do governo. A corrupção era de fato maior no PT, estão todos no mesmo balaio, era generalizada, como que o senhor vê do ponto de vista político, porque é óbvio que do ponto de vista legal e jurídico isso está em andamento".
 
Desconfortável, Temer respondeu: "Olha, eu não sei dizer a você. O que ocorria muito lá [nas empreiteiras] é a história do caixa dois. A pessoa contribuía ou oficialmente, portanto entrava nas contas do partido, ou contribuía por fora, o que é uma coisa diferente também da chamada 'propina' - eu to dizendo isso porque os comentários todos levaram a essa distinção, né. O sujeito, digamos, é contratado pelo político para fazer um favor que rende o benefício que ele põe no bolso. E outra hipótese é do dinheiro que entrou por via indireta e foi aplicado na campanha. Como fazer essa distinção? Eu confesso que não sei", disse Temer, tentando se proteger, após indicar que não vê criminalidade em caixa dois.
 
Assista ao trecho:
 
Então, a jornalista Mariana Godoy, também entre os entrevistadores, perguntou: "Caixa dois é crime?". "Olha, acontece o seguinte, no presente momento, o que muitas vezes ocorre é que o Ministério Público vai buscar tipo outras espécies [de crimes para punir o caixa dois], como lavagem de dinheiro, improbidade, etc. Não há a expressão 'caixa dois' como crime".
 
Amanda Klein foi ainda mais direta: "Presidente, o João Santana falava que o caixa dois era regra em todas as campanhas, ele não conhece partido ou campanha que não usasse o caixa dois. O senhor foi presidente do PMDB, cinco vezes deputado federal, presidente da Câmara dos Deputados, o senhor concorda com essa afirmação do João Santana?".
 
Você sabe que no caso do partido eu fui presidente muitas vezes também, mas as contribuições vinham oficial. Eram registradas evidentemente, depois prestadas contas", afirmou, negando irregularidades. "Mas em todos esses anos de experiência política, nunca lhe foi oferecido, o senhor nunca teve contato com caixa dois, com propina, porque isso parecia ser parte normal da vida partidária". "Nunca", sussurrou Temer, em riso incomodado. 
 
Interrompendo a possibilidade mais respostas de Temer sobre o questionamento, Reinaldo Azevedo, também presente, cortou o constrangimento do mandatário: "presidente, eu, então, eu conheço, eu conheço a resposta, mas é importante que o senhor se disponha aqui. Um empreiteiro lá disse que fez uma reunião no seu escritório político, da qual o senhor teria participado, em que se discutiu ali uma doação irregular, fruto de uma porcentagem sobre um contrato que a empresa manteria com a Petrobras. Essa reunião, eu tenho certeza, essa reunião, com essas características, o senhor vai dizer que não aconteceu", perguntou e auto-respondeu o jornalista.
 
"Mas aconteceu alguma reunião que deu pretexto para ter essa versão?", continuou Azevedo. "Eu vou dizer a você, aconteceu essa reunião. Eu declarei publicamente que aconteceu essa reunião em 2010", disse Temer, descrevendo a sua versão dos fatos de que "o cidadão", no caso o diretor da Odebrecht, queria apenas "apertas as mãos" do então candidato a vice, para a empreiteira colaborar com doações à campanha.
 
E a jornalista Klein cutucou: "Eduardo Cunha falou que foi o senhor que agendou". "Lamento dizer", respondeu Temer em tom de ironia, "que ele [ex-deputado Eduardo Cunha] se equivocou mentirosamente".
 
Sobre o receio do Planalto em uma possível delação premiada do deputado, o mandatário negou que haja a preocupação. "Eu quero que ele seja muito feliz, que ele se defenda o quanto possa, desejo muita felicidade a ele", reiteirou o sarcasmo.
 
Assista à íntegra da entrevista concedida pelo presidente à Rede TV:
 
 
 
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