segunda-feira, 10 de abril de 2017

ENTRE LOUCURA DE TRUMP E A ESTRATÉGIA DE KISSINGER

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por José Carlos de Assis - 10/04/2017

Se Donald Trump é o louco que pensam, ele não é mais louco que Richard Nixon e Henry Kissinger. É possível que seja um idiota, mas isso também está para ser provado. O bombardeio de uma base na Síria, se tomarmos o precedente do fim da Guerra do Vietnã, pode ser um expediente estratégico para buscar a paz, e não o começo de uma nova guerra. De fato, se for seguida a pauta vietnamita estamos mais próximos da paz do que da guerra.

Como há muito tempo a Guerra do Vietnã acabou, resultando na vitória inquestionável dos vietnamitas, é bom recordar alguns detalhes para os mais jovens. Os últimos anos da guerra, de 1968 a 1973, foram consumidos por negociações secretas em Paris, conduzidas, do lado americano, por Henry Kissinger, e do lado norte-vietnamita, por Le Duc Tho. Como não estávamos na República de Curitiba, nada dessas negociações vazou, até sua conclusão.

Com os entendimentos ainda em andamento, os Estados Unidos, de surpresa, desfecharam um devastador bombardeio aéreo contra Hanói, a despeito da forte oposição à guerra, sobretudo nas universidades, em sua retaguarda doméstica. Havia um acordo tácito com russos e chineses segundo o qual os americanos não fariam bombardeios acima do paralelo 17, isto é, sobre território do Vietnã do Norte. Esse acordo foi rompido.

Até assinatura do tratado de paz esse bombardeio, cujas consequências devastadoras apareceram no filme “Corações e Mentes”, não seria entendido por ninguém, e gerou fúria sobretudo nos jovens contrários à guerra. Do ponto de vista estratégico em termos estritamente bélicos era inútil. Como os americanos sabiam – do contrário não entrariam em negociações de paz -, a guerra estava perdida. Por que, então, o grande bombardeio?

A resposta veio em janeiro de 1973 quando, sob o governo Nixon, a paz foi assinada. Entendeu-se então a razão do bombardeio. Era uma espécie de demonstração de força pela maior superpotência da terra para se apresentar com um mínimo de honra perante a própria opinião pública depois da derrota. Os Estados Unidos, com esse ato, queriam provar que ainda eram os mais fortes, mascarando o fato imediato da perda irrecorrível da guerra.

Não é impossível que Trump esteja repetindo, em parte como farsa, esse roteiro. É bom lembrar que não temos um presidente cercado por falcões, mas uma sociedade em grande parte constituída por falcões, fundamentalmente belicista. O Congresso é majoritariamente pela guerra, não importam suas consequências. É talvez, pois, uma manobra de Trump para fazer a paz, sobretudo com os russos, ao oferecer algumas concessões na retaguarda belicista.

O bombardeio à base aérea na Síria foi quase simbólico. Vidas valem muito individualmente, mas, numa situação virtual de guerra, seis baixas em comparação ao ataque de 59 mísseis são poucas. Os aviões destruídos, Mig 23, eram obsoletos. Os estragos na base foram limitados. Houvesse intenção de um bombardeio de destruição em massa e as consequências, supõe-se, seriam muito mais significativas.

Acima disso tudo, convém lembrar que, no fim da campanha presidencial, Trump conversou longamente com Henry Kissinger, o artífice da paz do Vietnã que se beneficiou politicamente do bombardeio de Hanói. Não me admiraria se dessa conversa resultasse a inspiração para o ataque simbólico à Síria para “amolecer” o ânimo dos russos, chineses e iranianos na sua disposição de trazer o presidente Assad para algum tipo de compromisso.

Uma forma alternativa de analisar essa situação é tentar explicar a motivação de Trump para dar a ordem de ataque. Uma vez descartada a falsa hipótese de vingança pelo ataque por armas químicas por parte da Síria contra o seu próprio povo, a explicação para o bombardeio fica no ar. Não há sentido estratégico nela, do ponto de vista militar. Resta uma provocação gratuita aos russos, pelo que Trump seria apenas um idiota perigoso.

Sites ligados ao governo de Putin tem insinuado que o ataque teve objetivos sobretudo internos, a saber, o de pacificar os falcões americanos quando à determinação presidencial de usar a força na Síria. Isso difere muito pouco da estratégia de Obama. Daqui a quatro dias, podemos aferir melhor o rumo desse processo quando se reunirem os ministros do Exterior dos Estados Unidos e da Rússia. Para a paz mundial, é melhor que eu esteja certo. Como dizem os italianos, si non é vero é bene trovato!
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