POVO IGNORA EXTENSÃO DA CRISE MANIPULADA PELOS ENTREGUISTAS

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Por JOSÉ CARLOS DE ASSIS - 09/02/2017

A esmagadora maioria da população brasileira não tem a mais remota ideia da profundidade da crise em que nos encontramos. A grande mídia omite a verdadeira natureza dos problemas brasileiros e a mídia alternativa, principalmente na internet, concentra-se num noticiário fragmentado, tendo em vista suas características específicas de comunicação. Nós, analistas, temos de ter a modéstia de reconhecer que, enquanto blogueiros, dificilmente formamos opinião, pois com nossos longos artigos dificilmente fixamos a atenção do leitor.

É claro que essa limitação não nos tira do jogo. Insisto em escrever no blog da mesma forma como, no passado, escrevia em jornal impresso. Tenho certeza de que, aos poucos, vamos furar o bloqueio da grande mídia não apenas por conta de nossas virtudes mas porque, como dizia Lênin, a verdade é revolucionária. Flashes da grande crise em que nos encontramos são claramente perceptíveis em Vitória, no Espírito Santo, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul e, não demora muito, em Minas Gerais. O novo normal está sendo a explosão da crise.

O grande problema é a interpretação. Como os grandes jornais e revistas nacionais não ajudam, com raríssimas exceções a crescente gravidade da situação social é interpretada apenas como um problema social deslocado do problema econômico e governamental. As pessoas não conseguem perceber, por exemplo, a vinculação entre a crise do setor público e os fundamentos da PEC-55, que pretende congelar os investimentos e gastos públicos, inclusive os essenciais, por 20 anos. A crise é interpretada como um castigo de Deus.

Existe algo mais profundamente grave. Para milhões de brasileiros, e em especial para as elites políticas, o processo de impeachment não acabou. A sociedade continua estranhamente dividida entre os que foram favoráveis ao impeachment, ditos golpistas, e os que foram contra, os constitucionalistas. Essa clivagem é uma das formas mais deletéreas de esconder a realidade brasileira presente. Funciona como um biombo encobrindo a realidade profunda que nada tem a ver com essa política que se tornou meramente transitória.

Acredito que por cima da divisão de classes e da divisão entre pobres e ricos, o que efetivamente determina uma contradição fundamental na sociedade brasileira é a divisão entre nacionalistas e entreguistas. São estes últimos os que estão realmente controlando o poder político no Brasil. Indiferentes em formular um programa econômico de emergência para superação da crise, eles se apressam em implantar no mais curto prazo possível seu projeto de entrega total à privataria estrangeira do patrimônio nacional.

Não se trata de abstração. Em questão de meses, os entreguistas doaram o pré-sal, retalharam a Petrobrás para efeito de venda ao setor privado daqui e lá de fora, conspiraram para entregar o controle da Vale do Rio Doce ao Bradesco e à Mitsui, prepararam a doação de R$ 100 bilhões de equipamentos públicos a empresas de telecomunicações (inclusive Globo), propõem a privatização da Previdência e da Educação para ampliar o espaço para o capital estrangeiro nessas áreas, buscam o fim da CLT para aumentar os lucros privados.

Acaso a população brasileira foi informada de maneira sistemática desse plano de entrega da economia nacional ao capital estrangeiro? Entretanto, a questão do entreguismo não é apenas um problema de doação patrimonial. É uma questão de liquidação da soberania nacional. Sem soberania econômica é impossível realizar um programa de recuperação. A entrega da soberania pressupõe a alienação de políticas fiscais, monetárias e cambiais cujo controle é essencial para fazer, por exemplo, um programa keynesiano de recuperação.

Portanto, não são apenas as medidas entreguistas tópicas do Governo Temer que contam. É a sua lógica global. Por trás delas está a ideia de que o estrangeiro vai resolver nossos problemas graciosamente, como nosso parceiro e nosso associado. Esta, aliás, é a ideologia proposta por Fernando Henrique num livro ainda nos anos 70. Não há outra razão senão esta para explicar porque este Governo assiste passivamente à destruição de nossas empreiteiras, todas de capital nacional, por um judicialismo tosco. Diante disso, nossa esperança é ver a pedagogia da realidade funcionar. Aí, iremos à forra.

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