sábado, 25 de fevereiro de 2017

Nem tudo está perdido: as mulheres do MTST na Paulista

RESISTÊNCIA
“Para aquelas pessoas que não têm moradia ou vivem de favor, eu digo ‘juntem-se a nós, porque a luta é digna’. É muito difícil, mas temos que lutar pelos nossos direitos”, diz Patrícia, do acampamento
por Mariana T Noviello, do O Cafezinho publicado 25/02/2017 16h16
REPRODUÇÃO/O CAFEZINHO
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D. Maria está na ocupação da Paulista pela volta dos contratos para a menor faixa de renda no Minha Casa, Minha Vida
São Paulo – Não é raro notar em movimentos e organizações que lutam por alguma causa, que as bases tendem a ser formadas por mulheres. Porém, quanto mais se sobe a hierarquia destas (e outras) organizações, mais as mulheres são substituídas por homens, que tendem a exercer o papel de porta-vozes e líderes.

Com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) acampado na Paulista, queria saber como era o dia a dia destas mulheres.
O acampamento fica bem na esquina entre a Paulista e a Augusta, próximo ao Conjunto Nacional, um dos principais marcos da cidade, em frente ao Banco do Brasil, onde fica o escritório da Secretaria da Presidência da República na cidade.
Há dez dias, o MTST e outros movimentos de moradia estão acampados ali para reivindicar a retomada dos contratos do programa Minha Casa, Minha Vida para a Faixa 1, que contempla as pessoas com menos recursos. Temer resolveu ampliar o Minha Casa, Minha Vida para incluir pessoas com rendimentos maiores e, ao mesmo tempo, cortou o número de contratos da Faixa 1, para pessoas com rendimentos de até R$1.800,00.
De acordo com Guilherme Boulos, coordenador nacional do MTST, para que os trabalhadores acampados saiam da Paulista, é preciso haver diálogo e comprovação de que realmente o programa será levado a cabo, com a liberação de recursos. Não é só prometer como, de fato, o governo já fez.
Às 10 da manhã, o local estava calmo e ainda sonolento, com algumas poucas pessoas deitadas dentro do acampamento feito com lonas de plástico preto sustentadas acima do concreto por paus de bambu. Na cozinha, no entanto, onde são recebidos alimentos e outras doações, já havia muita movimentação. Lá, as doações se acumulam. Tudo registrado em caderno, com descrição dos itens, quantidade e nome dos doadores.
Conversei com algumas militantes que estavam acampando naquele dia. Patrícia e Sílvia, ambas da ocupação ‘Povo Sem Medo’ em Embu, a mais de 30 quilômetros da Paulista, na região metropolitana de São Paulo. Encontrei-as sentadas em cadeiras de plástico na parte de fora das barracas, sob o sol ainda ameno da manhã paulistana.
Como é o dia a dia em um acampamento no coração capitalista da maior cidade do país? Como vivem? Como estão sendo recebidas pelos moradores e trabalhadores dos Jardins, um dos bairros mais abastados da cidade?
No dia anterior, eu já tinha passado pelas barracas do MTST para deixar alguma comida e conversei com Luciana, da ocupação Esperança Vermelha, localizada em Cidade Tiradentes, no extremo leste da cidade. Luciana era uma das coordenadoras da cozinha naquele dia e demonstrou estar positivamente surpresa com a solidariedade das pessoas que passavam pela Paulista. “Houve alguma manifestação contra. Especialmente daquele pessoal dos Revoltados Online”, relatou. Mas, confessou que não esperava apoio da maioria das pessoas, principalmente das pessoas de classe média que vêm trazer doações e também participar das atividades.
Alzira, uma militante do MST de Taboão da Serra, concorda com sua colega de luta. “Às vezes tem alguma pessoa ou outra que passa e manda a gente ‘ir trabalhar’, normalmente alguém de carro”, diz ela. “Mas no geral as pessoas têm apoiado”.
É uma fácil conclusão as pessoas pensarem que militantes de movimentos de moradia nos grandes centros urbanos não trabalham, principalmente durante uma ação de alta visibilidade como o acampamento do MTST na Paulista. É uma ipressão errada de quem não percebe o compromisso e a organização que permite aos militantes se revezarem no acampamento, mantendo pressão sobre o governo e olho na mídia, enquanto tocam suas vidas, permitindo-os trabalhar e cuidar da família a quilômetros de lá.
“Não tem ninguém aqui que não trabalha. As pessoas se revezam, vão trabalhar, voltam”, explica Patrícia. “Há pessoas que passam a noite aqui apertados e já às quatro horas da manhã saem para trabalhar. Outros passam quando podem, na hora do almoço, no final do dia para dar uma força”.
Sílvia, que também revezava na coordenação naquele dia, fala da rotina difícil de militar e tomar conta dos filhos: “Eu venho aqui e fico um dia e meio ou dois, depois volto. Tenho dois filhos de 14 e de 15 anos. Tenho que voltar para casa, ganhar minha vida, ver como eles estão”, revela.
Outra confusão comum é identificar os militantes dos movimentos com os moradores de rua, onipresentes no centro paulistano, mas que geralmente não participam de movimentos sociais. No entanto, a solidariedade existe. Em geral, os participantes dos movimentos não rechaçam os necessitados e talvez um dos resultados inesperados do acampamento na Paulista seja a inclusão desta população na histórica luta por moradia que o MTST e seus precursores vêm travando há décadas.
Alguns moradores já demonstraram interesse pelo movimento. “Eles vêm comer e participar”, explicam Patrícia e D. Maria. "Em cinco dias dois já perguntaram como poderiam aderir ao movimento e participar das ocupações", disse Luciana.
A luta não é fácil por causa do preconceito e da falta de compreensão do direito à moradia. Patrícia conta como ela se envolveu com o MTST. Disse que já conhecia algumas pessoas que tinham conseguido moradia por meio do movimento. Participa há apenas quatro meses no movimento. A principio, teve medo de aderir, mas a necessidade de lutar por uma moradia digna falou mais alto. Segundo a militante, uma das razões que fizeram ela se juntar ao MTST foi a seriedade e a organização, já que alguns poucos movimentos cobram uma contribuição em dinheiro. “Aqui ninguém tem que pagar nada, a gente contribui com a nossa participação. Com o que ganho, sozinha, eu nunca na vida conseguiria ter minha própria casa. O aluguel é caro para receber quase nada, e o movimento é uma maneira de conseguir ter meu próprio lugar”, lembra.
A decisão de participar da ação na Paulista também não foi fácil. “É difícil estar aqui na Avenida, quem gosta de dormir na rua assim? Mas a luta é individual, é de cada um, ninguém pode fazer por mim”, completa.
Apesar do MTST liderar esta ação, existem outros movimentos agindo coordenadamente no coração financeiro do país. Alzira é do MST de Taboão da Serra. “Em Taboão, além do MTST, tem o MST Taboão e o MST Rural”, diz.
A organização é chave para a luta que promete ser longa, dada a truculência do governo Temer com os mais pobres. As pessoas se dividem em várias equipes, exercendo todas as atividades necessárias para o dia a dia, como cozinhar e manter o local limpo. As mulheres com quem conversei consideram estas atividades essenciais, não só para manter o espaço habitável, mas também para a boa relação com os usuários da Paulista e o pessoal que trabalha por ali, inclusive com os políciais, que são vistos por algumas como trabalhadores também.
“Um corredor é mantido para as pessoas passarem, e também asseguramos que não haja invasão dos prédios, ou desrespeito”, diz Patrícia. “A relação com a polícia, no começo foi difícil, eles achavam isso tudo vandalismo, mas depois viram que nós éramos ordeiros, nós mantemos uma relação de respeito. Afinal, eles também devem ter alguns parentes que estão em ocupações como nós”.
A limpeza é feita três vezes ao dia, e a água mineral doada é utilizada somente para beber. Para limpeza e para lavar pratos utiliza-se água doada dos bares locais. “Os sindicatos (também) têm ajudado muito, eles doaram colchões e barracas de acampamento. Também botijões de gás para a comida. Coisa que precisamos”, explicam.
Para o banho, os acampados utilizam os banheiros do albergue municipal, que fica na Nove de Julho, uma caminhada de mais ou menos dez minutos do acampamento.
Além da cozinha e da área para dormir, há também uma área para atividades e lazer, que é aberta para todos os simpatizantes e os que não estão acampados. Há uma lojinha que vende camisetas, bonés e outras mercadorias para arrecadar recursos.
E assim, à medida que o Carnaval se aproxima, numa localização estratégica, próxima a uma das principais ruas de lazer da cidade, a Rua Augusta, a luta política abre espaço para a folia. “Alguns blocos se juntam a nós, é bem legal”, diz Patrícia, referindo-se ao fim de semana de pré-carnaval em que a Paulista teve um número de blocos passando.
Dos acampamentos aguerridos da periferia, as militantes começam a perceber que têm uma mensagem contundente, trazendo para o centro da capital paulista uma prática de buscar relações com as comunidades vizinhas às ocupações.
Patricia, da ocupação de Embu, lembra que o que fazem na Paulista não é tão diferente do dia a dia nas ocupações, com atividades, divisão de tarefas e organização em setores. Um dos setores busca um relacionamento com as comunidades locais por meio de contato e ações. Lá em Embu, explicou Patricia, o setor que cuida desta frente resolveu organizar um mutirão para limpar as ruas e pintar as guidas das calçadas. A reação foi imediata.
“Os moradores pensaram que éramos da prefeitura e perguntaram porque não estávamos de uniforme… (ao desenvolver estas atividades) a comunidade começa a conhecer… a gente também luta pelos direitos da comunidade, por exemplo, se há questões de saúde… nós reivindicamos os nossos direitos e os direitos do resto da comunidade também. Lá, deixamos uma boa impressão. As pessoas só podem nos conhecer por nossas ações, quando elas percebem que somos trabalhadores e que lutamos pela comunidade, elas começam a se interessar pelo movimento”.
Pergunto qual o recado que querem dar para as pessoas que não as conhecem.
“Para aquelas pessoas que não têm moradia ou vivem de favor, eu digo ‘juntem-se a nós, porque a luta é digna’. Há muitos trabalhadores e pais de família, é muito difícil, mas não podemos desistir da luta. Temos que lutar pelos nossos direitos”. Responde Patrícia, olhando para a Sílvia que não quiz dizer nada. “A gente tem vergonha de falar em público, é difícil, mas estamos aprendendo”, relatou.
Antes de ir embora, Patrícia convida: “Venha conhecer nossa ocupação. Nós estamos aqui, mas não deixamos as ocupações vazias. Há coisas acontecendo lá também, o tempo todo”.
Saí da Paulista contente, primeiro porque o acampamento revela o apoio que esta ação tem entre o resto da população, que vem, deixa doações, participa de eventos, e deixa a sua solidariedade. E segundo porque sinto que estas mulheres que estão ali, estão não só lutando por elas mesmo, mas nos representam também, marcando presença na frente da Secretaria da Presidência, fazendo visível o nosso descontentamento com este governo não eleito. Como diz Boulos, não é só registrar nosso desgosto pela internet, é preciso fazer mais, é preciso se juntar à luta.
Agradeço, portanto, não só às mulheres que entrevistei, mas a todos que estão se sacrificando por seu direito de moradia. Dando exemplo de que direito não se espera, se conquista, especialmente em tempos adversos.
Queria também pedir desculpas à D. Maria, acabei não registrando o que disse, mas agradeço pela entrevista e a linda foto que nos deixou.
 Participou: Alexandre Spatuzza
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