Síria e Iraque: Entre ‘neoanalistas’ e a mídia-empresa enviesada

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23/11/2016, Elijah J. Magnier (recomendado em Moon of Alabama)


As guerras na Síria e no Iraque celebraram o desgraçado fim da “imprensa livre e independente” e a ascensão dos “neoanalistas”. Vivem em terras distantes, sem conhecimento direto da guerra, recolhendo ‘informações’ e analisando o colorido saco sem fundo das redes sociais.

Cometem a temeridade, até, de crer que poderiam ditar ao governo dos EUA o que fazer, que medidas tomar, quem apoiar e, como se fossem mestres diplomados da “arte da guerra”, chegam até a ‘exigir’ guerra nuclear contra a Rússia.
Chega a surpreender a sofreguidão com que veículos e empresas de mídia tidas por sérias correm a abraçar opiniões desses “neoanalistas”, de fato só porque o que esses amadores dizem coincide exatamente com o que a mídia-empresa comercial deseja ouvir. Assim se vê, por exemplo, um “especialista em Líbano do Hezbollah” ou “especialista no grupo xiita” no Iraque, só porque o sujeito sabe contar (reúne e analisa as bandeiras e grupos xiitas que vê em Facebook e Twitter). Mas jamais viu um comandante ou líder dos grupos que são a razão de ser de seu campo de expertise nos dois países.
Há também muitos ditos “especialistas em Síria” que jamais sequer puseram os pés numa rua de Damasco, Homs, Hama, Aleppo ou qualquer cidade síria nem em tempos de paz. Claro, Twitter e Facebook são fontes suficientes (além de únicas) de informação, dado que não conhecem fontes alternativas. É realmente interessante ver esse pessoal gerando artigos e com fácil acesso às páginas de publicações respeitáveis.
Problema, só, que as ideias do governo dos EUA e as ideias desses “neoanalistas” – estão sempre em conflito com a ética, os valores e os princípios da ética profissional, por mais que todas tenham a ver com combater o terrorismo. Jornalistas e analistas estão inacreditavelmente apoiando “Qaidat al-Jihad” na Síria, e encontram espaço até para noticiar material distribuído pelo ‘Estado Islâmico’ em luta contra o Exército Iraquiano e as chamadas “Unidades de Mobilização Popular” [ing. “Popular Mobilisation Units”, PMU; ár. al-hashd al-Sha’bi] no Iraque, sempre ditas “sectárias”.
Síria:
Na Síria, chechenos, marroquinos, tunisianos, chineses, turcos, sauditas, quataris, egípcios, libaneses e palestinos (para listar só esses, e há muitos mais) são chamados de “oposição síria moderada armada”.
Mas não acontece só na mídia-empresa comercial. São diplomatas norte-americanos, britânicos e franceses, todos partícipes dessa comédia de mau gosto, chamando qualquer combatente estrangeiro de “oposição síria”, desde que o indigitado combata contra a Rússia.
O ocidente promove valores de boa qualidade, interessantes, mas não os implementa nem ensina nessa guerra suja, onde tudo é permitido.
Outro quebra-cabeças é Aleppo ocidental e seus hospitais: o número de hospitais destruídos em Aleppo ocidental já merece ser incluído no livro Guinness de recordes. Segundo o Departamento de Estado dos EUA e a mídia-empresa ocidental, mais de 90 hospitais foram completamente arrasados no setor ocidental de Aleppo nos últimos meses, à razão de quase um hospital destruído por dia. E todos os dias ouve-se que “o último hospital foi totalmente arrasado”. O único problema é que o Ministério de Saúde da Síria distribuiu estatísticas nacionais, segundo as quais “em todo o território sírio há apenas 88 hospitais”.
Se alguém se atreve a desmentir essa teoria & propaganda do “último hospital ainda em funcionamento que foi destruído”, já enfrenta a acusação imediata, sempre pronta: você deve ser “assadista” (referência ao presidente Bashar al-Assad). E “neoanalistas” e em algumas ocasiões até jornalistas, juntam-se na mesma acusação, à falta de argumento apresentável.
Dois professores, Joshua Landis (que viveu mais de 12 anos no Oriente Médio e é uma das vozes mais respeitadas sobre a Síria) e Max Abrahms (renomado teórico estudioso do terrorismo), para só listar esses, são acusados de serem “assadistas”, no instante em que discordam dos ‘analistas de sofá’, que vivem de fingir que estudam Síria, ou de jornalistas na luta para atraírem atenções atenção para eles mesmos. Na verdade, essa acusação é meio fácil para interromper a conversa: quando somem os argumentos à disposição desses ‘pensadores’ de mente rasa, que não hesitam em promover a ideia de que a Síria deveria ser governada por terroristas.
Além do mais, Assad já não é o inimigo público n.1, lugar hoje ocupado pela Rússia aos olhos da mídia-empresa norte-americana. A razão não é difícil de imaginar. A Rússia quer sua fatia de um Oriente Médio que já não é feudo exclusivo dos norte-americanos. Segundo a mídia dos EUA, todos os mísseis e bombas e canhões russos só destroem hospitais e matam crianças; e os bombardeios norte-americanos acertam e matam exclusivamente e ininterruptamente “Al-Qaeda” e ISIS. Claro. A Rússia não tem os sofisticados bombardeiros norte-americanos equipados com detectores de odores que identificam cheiro de civis (para evitar) e cheiro de militante (para acertar o tiro).
E quando jihadistas e rebeldes iniciam ataque em grande escala contra forças do Exército Sírio e seus aliados, a mídia-empresa ocidental põe-se de lado, esperando o resultado. Se o regime começa uma operação militar, hospitais são imediatamente destruídos e civis mortos logo na primeira hora dos combates. Só muito raramente acontece morrem terroristas na mídia-empresa ocidental mainstream.
Para conhecer resultado de combate na Síria, basta monitorar a declaração do Departamento de Estado ou da Segurança Nacional dos EUA que exija fim imediato da violência, cessar-fogo já e reunião em Genebra. Se a situação revela-se grave para jihadistas e rebeldes, todos podem contar com visita do enviado da ONU, Staffan de Mistura, para conversas sobre tragédias da guerra e a urgente necessidade de criar um estado dentro do estado, com autogestão, jihadistas e militantes autogestionários, numa dada área… É tudo de que jihadistas e rebeldes precisam para recuperar-se, reorganizar-se e voltar fortalecidos para mais um ataque. Obviamente, nenhuma diplomacia está sendo usada para deter a guerra: só para prorrogá-la o mais possível.
Não há dúvida de que o governo do presidente Barack Obama considera “Al Qaeda” na Síria como extensão da Al-Qaeda no Khorasan, responsável pela destruição das torres gêmeas nos eventos conhecidos como 11/9, e outros ataques terroristas contra civis. Mas Obama não quer que nenhum dos lados vença o outro na Síria. Se um dos lados é fraco, ainda que seja a al-Qaida, recebe todo o apoio na ONU, graças à mídia-empresa, recebe treinamento e equipamento militares, dinheiro e informação de inteligência diretamente de países da região, para preparar novos ataques: qualquer coisa, para que Rússia, Irã e aliados tenham de continuar ativamente engajados em campo.
Sim, e essa é exatamente a razão pela qual Rússia e aliados nunca atacam o ISIS como alvo de escolha, e só ataquem quando seja absolutamente necessário. Diferentes dos jihadistas, o ISIS não tem apoio público em fóruns internacionais ou armamento militar da CIA, ou treinamento na Jordânia. Jack MurphyRanger e antes membro das Forças Especiais dos EUA, explicou como seus colegas estão treinando terroristas a pedido e com pleno conhecimento da CIA.
A regra é clara: a mídia-empresa mainstream não quer lançar luz sobre quem financia o terrorismo, de onde vêm as armas que chegam a eles, nem sobre o treinamento dado pela CIA. É triste ver o quanto veículos respeitáveis de imprensa deixam a própria credibilidade e jornalismo respeitável na lata de lixo à entrada de Bilad al-Sham (o Levante, a Síria).
Iraque:
No Iraque, é difícil compreender o que deseja a mídia-empresa ocidental mainstream. A mídia e os “novos analistas” produzem artigos infindáveis sobre como é impossível negar a partição do Iraque e dizem que os curdos seriam a única força capaz de dar combate ao ISIS. Focam mais na propaganda do ISIS para provar, segundo o ISIS, o quanto o exército iraquiano seria incapaz; e deliberadamente omitem o avanço heroico, em campo, das forças de segurança do Iraque.
Esses “novos analistas” escrevem como se fossem veteranos com vasta experiência em campo no Iraque. Por que os iraquianos atrasam a libertação dessa ou daquela cidade? Raramente são as batalhas heroicas e os sacrifícios das forças de segurança do Iraque combatentes contra o ISIS.
Lutar contra o ISIS em grandes cidades como Mosul não é tarefa fácil, com mais de 1,5 milhão de civis que permanecem em suas casas, que não quiseram abandonar para ir para local seguro. O primeiro-ministro Haidar al-Abadi deu ordens específicas para garantir a segurança dos civis em primeiro lugar, acima da segurança das Forças Especiais, segundas na lista de prioridades.
“Neoanalistas” e jornalistas focam também no papel das Unidades de Mobilização Popular, dando a elas diferentes nomes: às vezes são “multidão xiita”, “massa sectária” e “massa de milicianos”, como se os membros dessas unidades viessem de outro planeta. Há mais de 60% de xiitas no Iraque; além deles, são sunitas, curdos seculares, assírios, ShabakSabea e outras minorias. Desses mesmos iraquianos são constituídas as unidades do Exército do Iraque, de contraterrorismo, de inteligência, forças especiais, forças de polícia federal, tribos e forças da Peshmerga, tanto quanto as Unidades Populares de Mobilização, que se tornaram parte integrante do aparelho de segurança sob a liderança do Comandante em Chefe das Forças Armadas do Iraque, o primeiro-ministro.
Esses ‘ensaios’ de ‘especialistas’ sobre o Iraque deixam de lado o fato de que o Exército dos EUA, antes e durante sua invasão contra o Iraque, cometeram as atrocidades mais abomináveis naquele país, começando pelo embargo ao Iraque, até massacrestorturaestupro e abusos de direitos humanos durante a ocupação do país.
Mas o foco na reputação das Unidades de Mobilização Popular tem outras dimensões. As Unidades de Mobilização Popular estão participando da operação em Mosul atacando o subúrbio em Talafar e fechando o caminho para a Síria. Essas Unidades de Mobilização Popular em torno de Talafar foram cuidadosamente selecionadas: 3.000 desses combatentes são da mesma cidade de Talafar, assim como outros cristãos das planícies de Nineveh que vieram para recuperar as próprias terras tomadas pelo ISIS. O Iraque não é feito exclusivamente de sunitas e xiitas.
As Unidades de Mobilização Popular atrapalharam o plano de dividir o Iraque do vice-presidente dos EUA Joe Biden, quando, em agosto de 2014, conseguiram defender e impedir a queda da cidade de Amerli (Tuzkhormato) no norte, quando o ISIS ocupou quase toda a província de Salahoddine; contiveram a queda de Samarra, quando o mesmo ISIS assumiu o controle de mais da metade da cidade; impediram outra guerra civil similar à de 2006, quando Abu Musab al-Zarqawi destruiu o santuário de Askariyeyn, dos xiitas; impediram que o ISIS entrasse em Bagdá, quando os militantes chegaram às portas da capital; libertaram a área mais difícil ao sul, de Jurf al-sakher, coração do ISIS em Tikrit e Fallujah e contribuíram para a libertação de Ramadi.
A liderança das Unidades de Mobilização Popular também convenceram os líderes iraquianos a rejeitar o plano dos militares dos EUA para atacar a cidade de Mosul, no norte, há um ano, antes da província de Anbar. Se aquele plano dos militares norte-americanos tivesse evoluído, a capital teria ficado sem defesa, com o ISIS forte em Fallujah. Bagdá teria ficado sob grave perigo, se atacada pelo ISIS, e a partição do Iraque teria sido a conclusão previsível.
E, por fim, o Iraque não conseguirá derrotar o ISIS no Iraque, a menos que os terroristas sejam derrotados na Síria. Assim sendo, depois de Mosul, a batalha se encaminhará na direção de ‘Ana, Rawa e al-Qaem na fronteira sírio-iraquiana. Há pouca dúvida de que as Unidades de Mobilização Popular avançarão na direção da fortaleza do ISIS para garantir que não retornem ao Iraque.
Desacreditar as Unidades de Mobilização Popular no Iraque implica uma campanha ‘preventiva’, de acusações de sectarismo contra as mesmas Unidades de Mobilização Popular, e fazer com que essa acusação ganhe penetração antes que suas forças entrem em luta na área de maioria sunita da Síria.
A noção de “mídia livre e não enviesada” está acabada. Foi substituída pelo desejo dos políticos: o jornalismo investigativo foi substituído pela informação ou desinformação, mas das mídias sociais.
Ficou óbvio durante a campanha presidencial nos EUA, que a “imprensa livre” só fazia distribuir ‘estatística’ que confirmavam que não havia nenhuma possibilidade real de Donald Trump ser eleito. Que as preferências dos votos eram 98% de Hillary Clinton. Só noticiário ‘desejante’, nada de fatos ou dados verificados e confiáveis – exatamente o que a mesma mídia-empresa fez praticamente todos os dias, com a guerra na Síria e Iraque.*****

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