“A PEC 241 é um crime de lesa-pátria” Jean Wyllys fala sobre a votação da PEC 241. Por Nathali Macedo

Postado em 12 Oct 2016
Nathali e Jean WyllysNathali e Jean Wyllys
Foi um dez de outubro caótico no Congresso Nacional: parlamentares e servidores circulavam, agitados pela votação da PEC 241, e estudantes aglomeravam-se em frente ao Plenário manifestando-se, incansáveis, contra a aprovação da agora chamada PEC do Fim do Mundo.
Cheguei ao gabinete do Deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) para falarmos sobre a votação, mas ele não estava. Estava trabalhando no Plenário.
Senti-me em casa: havia folhetos explicativos sobre a atuação de Jean em prol da legalização do aborto, regulamentação da prostituição, combate ao bullying escolar e à violência obstétrica – tudo, enfim, em que eu e uma parte da esquerda acreditamos. Como se não bastasse, atendia-se ao telefone com um “primeiramente Fora Temer.”

Jean foi um dos 111 deputados empenhados em impedir que fosse aprovada no Congresso Nacional a PEC 241, que congela gastos na educação e saúde pelos próximos vinte anos. Ele nos falou com exclusividade sobre a votação:
DCM O que significa a PEC 241 para o futuro do país?
Eu acho a PEC 241 um crime de lesa-pátria. Propor que a crise econômica que afeta o mundo inteiro seja solucionada às custas dos direitos sociais dos pobres é lesa-pátria.
O curioso é que os proponentes do governo Michel Temer e sua base aliada não falam em nenhum momento em como os ricos podem colaborar. Eles nunca falam em taxação das grandes fortunas, eles não falam num programa eficaz de combate à sonegação. A Operação Zelotes que era uma operação que incidia sobre esse tipo de crime, que é o crime de sonegação, não foi pra lugar nenhum. Na hora de solucionar a crise, eles nunca falam em como os ricos podem ajudar. A estratégia é a mesma de sempre: manter os privilégios dos mais ricos e repassar o custo para os mais pobres. Como se repassa esse custo? Congelando por vinte anos os investimentos em políticas públicas e sociais e, ao mesmo tempo, sinalizando mudanças na Previdência e na Jornada de Trabalho. Então é ampliar a jornada de trabalho, aumentar a idade da aposentadoria… Com isso as pessoas trabalham mais, não gozam de sua aposentadoria, porque se aposentam quase na idade de morrer, e ao mesmo tempo tem afetado seu acesso aos serviços públicos de saúde, educação, moradia e segurança pública.
DCM Como você avalia a aprovação da PEC 241 na Câmara?
Bem, ele deu um jantar… Aliás, curioso, não há nenhuma nota hoje na imprensa. Se fosse no governo Dilma, haveria, na GloboNews, análise do cardápio e o preço dos vinhos. Vinhos argentinos! Sequer os vinhos brasileiros eles prestigiaram nesse jantar, pra você ver como é essa gente. Ele deu um jantar e saiu de lá dizendo que tem trezentos deputados a favor da PEC, ou seja, uma maioria. A gente não tinha tanta certeza assim, porque a ala do governo Temer que estava menos convicta sobre a PEC era a Bancada da Bala.
DCM Quem é a Bancada da Bala?
A Bancada da Bala é aquela composta por funcionários da segurança pública, ou seja, deputados ligados às Forças Armadas, ou à Polícia Militar, ou à Polícia Civil, e/ou deputados financiados pela indústria armamentista. São capitães – como Capitão Augusto, Delegado Moreira e por aí vai. Então, como eles são servidores públicos, e não têm garantia de que vão permanecer deputados nos próximos vinte anos, eles estão então preocupados com essa PEC 241. Além disso, outros deputados foram pressionados por suas bases em seus estados. Então, a população estava atenta e eles estavam inseguros – por questões eleitorais, não por convicção. Apenas por saberem que nas próximas eleições, em 2018, podem não ser eleitos.
DCM Quem, por exemplo? Você pode falar?
Alguns do PMDB, por exemplo. Não vou citar nomes, mas alguns do PMDB, notadamente, que são do partido dele e que são sustentados por interesses paroquiais, que são aquelas pessoas que não têm voto de opinião, têm um curral eleitoral.
DCM Como vocês, deputados de esquerda, trabalharam para tentar impedir a Aprovação da PEC 241?
Nós colocamos um kit-obstrução, não só o pedido de votações nominais sempre – porque a votação nominal implica em o Deputado estar ali presente, e muitos deles não gostam de ir para o Plenário da Câmara…
DCM Por quê?
Porque não têm interesse nesse debate, não se envolvem na pauta. Como a pauta da Plenária deve ser definida pelo Colégio de Líderes, eles deixam que os líderes toquem a pauta. Ficam lá no gabinete, tratando da vida deles, recebendo prefeitos… Tratando dos interesses paroquiais. Então a gente pede nominal para que ele tenha o trabalho de sair do gabinete e ir lá votar, e isso poderia prejudicar a base. A gente também apresentou uma série de requerimentos e de questões de ordem – a gente chama de questões de ordem – questionando os métodos que o governo vem pregando para aprovar essa PEC. Enquanto pudemos obstruir, obstruímos, para vencê-los pelo cansaço.
DCM Como explicar o silêncio das panelas diante disso?
Curioso, né? Eu lembro do que Caetano Veloso fala do silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina. Há um silêncio sobretudo de São Paulo diante desse abuso. E não estou falando de João Dória e de Bia Dória, o casal agora que são prefeito e primeira dama de São Paulo, que são ricos de fato, e ricos inclusive beneficiados pelo Estado, porque a Bia Dória, como artista plástica, teve projetos financiados pela Lei Rouanet.
Eu não tô nem falando deles, os ricos. Eu tô falando da classe média paulistana, que se vestiu de verde e amarelo e bateu aquelas panelas. Ela achava que seria beneficiada pelo governo que nasceria do golpe, mas agora está recebendo o preço.
Aliás, eu vi uma carta de uma professora do Paraná, se dizendo arrependida. Tarde demais para ela se arrepender, não é?
Quando avisávamos que o que estava em curso era um golpe, e que a intenção do golpe era transferir para a população os custos de uma crise econômica que não dependia do governo Dilma – era uma crise econômica mundial que afetava o governo Dilma, mas que poderia ter sido debelada de uma outra maneira, se ela não tivesse sido sabotada, se eles não tivessem aprovado aqui as pautas bomba, por exemplo.
Se essa classe média ouvisse a gente, ela não estaria passando por tudo isso. Mas eu acho que ela está silente, em parte, por vergonha e em parte por ignorância. Porque é uma classe média que se informa pela GloboNews!
Aliás, eu tendo a achar que há uma censura na GloboNews, porque não é possível que a GloboNews esteja respeitando o princípio da objetividade e dos dois lados, porque ela não ouve nenhum economista – e há muitos neste país que estão dizendo que essa PEC vai agravar a desigualdade no Brasil, vai agravar a pobreza, e vai nos levar a uma situação pré-anos 90. E eles não ouvem nenhum.
Entretanto o Jornal Globo de hoje, pra você ver aqui [e pega um dos Jornais que estão colocados sobre a mesa da Liderança do PSOL, onde lê-se, na primeira página]: “Governo diz já ter votos para aprovar o teto de gastos. Economistas alertam que, sem limitar despesas, o país não volta a crescer.” Que economistas? De que economistas eles estão falando? Parece que são todos os economistas do país, e não são!
DCM Por falar nisso, qual o lugar da mídia na aprovação dessa PEC?
Deplorável. Notadamente, os principais jornais e a GloboNews estão a favor da PEC.
Por incrível que pareça, o jornalismo da Record e da Band ainda buscam uma objetividade, ouvindo outras pessoas. Eles podem até ser a favor da PEC, mas pelo menos ampliam o leque de informações para a audiência. As Organizações Globo não têm feito isso, estão fazendo um jornalismo e péssima qualidade, principalmente a GloboNews.
Eu estava acompanhando a cobertura da GloboNews, e é irreal, Nathalí! Tinha um cara falando e quando ele começou a fazer uma crítica tímida à PEC 241 a apresentadora o interrompeu pra falar de uma nova denúncia contra Lula. Ou seja, nada mais sintomático.
DCM Os deputados que se opõem à PEC não são ouvidos por esse jornalismo que o senhor descreveu?
Não. Nunca. A Cristiana Lobo (GloboNews) passa pela gente e nos ignora. E quando ela ouve, nunca vai ao ar. Então eu só posso supor que há uma censura deliberada na GloboNews. Então é uma emissora a favor de um Governo Golpista.
DCM O senhor chegou a ser convidado para o banquete?
Não, eles não têm coragem! Eu sou daqueles que nem na porta estacionando os carros fica.
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Nathali Macedo
Sobre o Autor
Colunista, autora do livro "As Mulheres que Possuo", feminista, poetisa, aspirante a advogada e editora do portal Ingênua. Canta blues nas horas vagas.

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