“O ex-presidente está lutando para preservar sua história”, diz Clara Ant, diretora do Instituto Lula. Por Pedro Zambarda

Clara Ant
Clara Ant

Filha de judeus que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial e nascida em La Paz, na Bolívia, Clara Ant (68) é a atual diretora do Instituto Lula.
Militante histórica do PT, ex-deputada estadual, fundadora da CUT e arquiteta pela FAU-USP, Clara foi uma das vítimas de uma busca e apreensão em sua residência durante a condução coercitiva do ex-presidente no dia 4 de março. Ela também está acompanhando as recentes acusações contra o ex-presidente na Operação Lava Jato.
O DCM conversou com Clara sobre impeachment, sua história e como Lula está lidando com as investigações.

DCM: No processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, a senhora vê as mulheres com um papel importante contra o golpe?
Clara Ant: Penso que as mulheres tiveram um papel fundamental, principalmente no ano passado, para evidenciar o papel nefasto do senhor Eduardo Cunha. Há um recorte de lutas femininas no século 20 de controle do próprio corpo, enquanto este senhor e o governo Temer simplesmente removem isso. É uma ofensa e um ataque muito grande.
Por isso existem mobilizações muito fortes e muito espontâneas neste processo de impeachment contra o Cunha desde o começo. Foi um grito de mulheres que tiveram suas liberdades ceifadas. Essas manifestações serviram para mostrar quem é Eduardo Cunha e desde então ele não conseguiu se recuperar politicamente. Esperamos que ele não se recupere nunca.
Isso foi o que aconteceu no ano passado. Agora há um esforço conjunto de mulheres e dos jovens para defender o mandato da Dilma, além de setores mais beneficiados nos últimos anos. Essas pessoas mostram como políticos como o Eduardo Cunha e o governador Geraldo Alckmin machucam a sociedade ao retirar seus direitos sociais. O volta Dilma, ou o fica Dilma, carrega uma simbologia que significa: fora Cunha e todos os políticos da sua estirpe.
DCM: Qual é a sua história com o Lula e o PT? 
CA: Sou filha de judeus poloneses sobreviventes da Segunda Guerra e cheguei ao Brasil quando tinha 10 anos. E quando vejo a angústia dos refugiados na Europa hoje, lembro muito da perseguição que a minha família enfrentou.
Meu pai gostava muito de falar de política, embora não fosse militante, vendo o Repórter Esso. Aqui eu conheci um grupo de meninos que se diziam socialistas e eu perguntei qual era a diferença disso para o comunismo. “Eles também defendem a liberdade”. E foi assim que fui me tornando de esquerda.
Quando aconteceu o golpe de 64, eu já o entendi como golpe. Por isso é assustador ver o que está acontecendo com o mandato da Dilma hoje. E eu passei a participar de tudo o que era contra os militares. Estudei Marx, além do livro “Dependência e Desenvolvimento da América Latina” do Fernando Henrique Cardoso. Participei das Setembradas de 1966, dos movimentos estudantis e conheci o José Dirceu discursando no Largo do Paissandu.
Em 74, no curso de arquitetura na FAU-USP, eu fiz parte da Organização Socialista Internacionalista (OSI), que era trotskista e tinha o movimento dos estudantes do Liberdade e Luta (Libelu). Ao me formar, entrei na direção do sindicato dos arquitetos, fiz parte das articulações intersindicais e conheci o Lula durante a greve de 1977.
Participei da fundação, junto com diversos companheiros, o PT e a CUT a partir de 80. Na formação da Central Única dos Trabalhadores, só tínhamos eu e outra dirigente como mulheres em posições de liderança. E fui deputada estadual até 1991. Depois fui assessora do Lula e fui tesoureira de campanha em 98.
DCM: Como surgiu o Instituto Lula?
CA: Em 1989, Lula chegou ao segundo turno contra o Collor, perdeu e a frente política que o apoiou, por incrível que pareça, tinha o Mário Covas, o Roberto Freire e muita gente que hoje discursa contra o PT. Com Fernando Collor na presidência, Lula propôs uma articulação na mesma época, inspirada no “shadow cabinet” do Reino Unido, que eu achava um pouco inadequada pois fazia mais sentido num regime parlamentarista.
Esse grupo foi o embrião do Instituto. Eu acompanhei isso a distância, como deputada estadual. Lembro até do Cristovam Buarque, que hoje vota pelo impeachment da Dilma, como ministro paralelo da Educação.
Depois do trabalho do Josué de Castro, expoente mundial no combate à fome, o Instituto foi o primeiro a propor uma iniciativa relevante na mesma área. Este foi o Programa Nacional de Segurança Alimentar coordenado por José Gomes da Silva, que foi presidente do Incra durante o governo Sarney, e pai do José Graziano, diretor-geral FAO.
Após o impeachment de Collor, Lula levou este projeto ao então presidente Itamar Franco. O governo Itamar formou dois comitês: o de Combate à Fome, que foi liderado por Betinho, e o Conselho Nacional de Segurança Alimentar. Posteriormente essas iniciativas trouxeram 9o Fome Zero do primeiro governo do PT.
As reuniões aconteceram nesta casa onde está o Instituto Lula hoje, que foi apontada em reportagens como se tivesse sido comprada por milhões de reais há pouco tempo. Na verdade nós sempre nos reunimos aqui. Começou com o nome Instituto de Pesquisa e Estudos de Cidadania (Ipec), mais conhecido como Instituto Cidadania.
A origem do Instituto vem da vontade do próprio Lula de criar projetos para o país. Era uma usina de estudos nos anos 90, durante as duas tentativas de chegar à presidência. A entidade abriu portas para intelectuais, acadêmicos e políticos dentro e fora do PT, democratas e progressistas em geral.
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Organizamos também o Projeto Moradia, reunindo arquitetos e urbanistas, incluindo o próprio Nabil Bonduki. Ele foi a engenharia do Minha Casa, Minha Vida da Dilma, que foi muito mais elaborado. Depois veio o Fome Zero no primeiro mandato do Lula, com o José Graziano, seguido por um Projeto de Segurança Pública que teve participação de pessoas com experiência na Polícia Militar, juristas e promotores públicos.
Instituto Cidadania tem uma história curiosa. E peço que você preste atenção nisso: em 2001, antes do Lula de ser eleito presidente, nós já tínhamos um Projeto de Reforma Política. Esse livro foi distribuído para cada um dos parlamentares e ele fez ainda um discurso diante dos deputados. “Não cabe a mim, do Executivo, criar essa reforma política. Cabe aos partidos tocarem isso”, disse o Lula.
Você já ouviu falar desse projeto?
DCM: Não. Nunca ouvi falar.
CA: Pois é. Também fizemos o Projeto Juventude com o Lula no governo, além do Desenvolvimento Local. Detalhei todas essas coisas para que se entenda o trabalho do ex-presidente e do PT na construção de políticas sociais para o país. Lula chegou para governar com um projeto claro para contemplar quem mais estava sofrendo, além de ter a democracia como um pilar de existência.
Atualmente o Instituto é criminalizado, bem como o próprio Lula. E não é divulgado que entidades deste tipo de ex-presidentes são comuns. Participei ativamente das atividades desde o fim das eleições de 1998 e vi a entidade se tornar o Instituto Lula em 2011. O ex-presidente então se comprometeu a aprofundar a reflexão sobre a integração latino-americana e a disseminação dos programas sociais brasileiros nos países da África, além da construção de um Memorial da Democracia. Diante de dificuldades de implementação, o Memorial permaneceu forma virtual.
DCM: Como está o ex-presidente com as atuais acusações na Lava Jato?
CA: Lula está triste com o que está acontecendo no país, inclusive faz o que pode para ajudar a presidenta Dilma. O governo interino em sua base parlamentar está rebaixando a autoestima do brasileiro e provocando desconforto, ferindo a democracia.
O ex-presidente encaminhou uma petição à ONU por violação dos direitos humanos. Ele está batalhando para preservar sua história. Não é justo com os brasileiros que subiram de vida que a história do trabalho de Lula seja alterada.
DCM: O que aconteceu com seus dois celulares e dois notebooks solicitados em março? A Polícia Federal devolveu? Do que você foi acusada?
CA: Eles devolveram um HD com meus dados espelhados, que eu pedi três meses depois, junto de algumas folhas com anotações. Devolveram porque eu fiz uma solicitação para a PF três meses depois, quando não tinha notícia sobre os meus pertences. E eu não sei do que fui acusada.
DCM: Como funcionam as palestras pagas do Lula, que frequentemente são questionadas na imprensa?
CA: O meu principal trabalho desde 2011 é cuidar da agenda das atividades do Instituto Lula, que envolve meu trabalho e minha equipe de três pessoas. A realização das palestras, pagas ou não, requer providencias como tradução, transporte, local e o que for necessário.
O que muitos não sabem é que, para além das palestras pagas, o ex-presidente faz muitas outras apresentações que não são cobradas. Em 2011, por exemplo, ele recebeu o título honoris causa na Science Po, em Paris. Naquela viagem, ele recebeu também um prêmio na Polônia. Em Londres, ele participou de um seminário da revista Economist e fez uma única palestra paga para investidores no Museu de Ciência Natural a convite do Santander.
Um dos trabalhos principais do Instituto Lula é justamente organizar a logística dessas atividades, o que não é fácil no caso de uma pessoa atarefada como ele é.
DCM: A grande mídia criminaliza os projetos de Lula com a África. Isso é preconceito?
CA: As pessoas não deveriam desdenhar iniciativas de combate à fome, que foi o nosso foco no continente africano, porque a população de lá precisa combater esse mal com pressa. É fácil jogar pedras contra os governos africanos, mas o Lula no governo tinha uma lógica. Ele sempre colocou nas reuniões do G20 que se os países europeus investissem na melhoria da África, isso resolveria duas coisas: o padrão de vida iria subir e eles poluiriam menos.
Não foi por acaso que o Lula ganhou o prêmio World Food Prize, sendo o primeiro governante não estudioso a receber tal reconhecimento. Ele não fez pirotecnia pra conquistar isso, mas abriu escritório do Embrapa e tomou frente de medidas efetivas. Os golpistas então atacam esses projetos porque vale tudo pra atacar o ex-presidente Lula.
DCM: O número de palestras de Lula com o Instituto caiu depois das denúncias da Lava Jato? Como está o ritmo? 
CA: Houve uma redução de atividades em 2014, que é previsível em ano eleitoral. Em 2015 a conjuntura foi dominada pela crise política. O Instituto Lula mantém as iniciativas com países na África e na America Latina, bem como o trabalho do Memorial da Democracia que está dando sequência a dois novos módulos.
Eu não saberia te dizer se houve uma diminuição drástica das palestras. Mas estamos mantendo as iniciativas funcionando. As nossas atividades acontecem.
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Pedro Zambarda de Araujo
Sobre o Autor
Escritor, jornalista e blogueiro. Autor do projeto Geração Gamer, que cobre jogos digitais feitos no Brasil. Teve passagem pelo site da revista EXAME e pelo site TechTudo.

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