Belluzzo: Governo precisa puxar aceleração da economia

Destravar o investimento em infraestrutura e reativar o setor de petróleo e gás: estas são as duas medida para ajudar o Brasil a enfrentar a crise.

Joana Rozowykwiat - Portal vermelho
Pedro França/Agência Senado
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“Não teve nenhuma iniciativa do governo de dizer: vamos combinar, você prende quem você quer prender [na Operação Lava Jato], mas vamos soltar as empresas para elas funcionarem. Porque isso que está acontecendo… Esses promotores de Curitiba são completamente insensatos, um bando de loucos, gente que não sabe nada”, condenou.
 
Belluzzo referia-se aos impactos que os desdobramentos da Lava Jato estão tendo na atividade econômica brasileira. Ao atingir a estratégica cadeia de óleo e gás e as maiores empreiteiras do país, a operação desencadeou uma espécie de efeito dominó, imobilizando obras e projetos. Um estudo do Ministério da Fazenda, divulgado em outubro, indicou que apenas a redução de investimentos na Petrobras poderia provocar uma contração acima de 2 pontos percentuais do PIB este ano.

 
“E não é só a Petrobras, são as empresas chamadas de empreiteiras – que na verdade são conglomerados empresariais -, que têm fornecedores, e há os fornecedores desses fornecedores e por aí vai. Então é todo um circuito que você foi e cortou”, disse Belluzzo.
 
O diretor de Estudos e Políticas Sociais do Ipea, André Calixtre, também já havia chamado a atenção para as repercussões da operação. “Não podemos ignorar o fato de as empresas investigadas não poderem mais operar negócios, terem acesso ao crédito e às licitações. A verdade é que a cadeia de petróleo e gás sofreu um imenso impacto”, afirmou, lembrando também seu reflexo sobre a construção civil.
 
De acordo com Belluzzo, nesse cenário, o governo precisa sair do imobilismo para evitar um aprofundamento dos problemas. “A gente precisa ter coragem de fazer as coisas. Se você ficar acoelhado, não faz nada. Você tem esses projetos de concessão de infraestrutura, mais o setor de óleo e gás. Precisa então resolver o problema da Petrobras, porque esse é um dos centros do afundamento da economia, está paralisando tudo. Tem que reativar isso, botar isso aí para funcionar”, opinou.
 
O economista avaliou que esta seria uma forma de puxar a aceleração da economia e, caso isso não aconteça, há chances de a crise contaminar outras áreas. “Você corre o risco de ter uma crise bancária, porque as empresas estão assim: ninguém paga ninguém. Eles não pagam nem os juros da dívida. Sabe quanto tem no ativo dos bancos brasileiros? Praticamente R$1 trilhão, que é desse sistema [afetado pela Lava Jato]. E, se o banco não paga, o que acontece? O banco é obrigado a registrar como empréstimos que precisam de provisão e, como resultado, as agências de risco vão e rebaixam [as notas de crédito]”, declarou.
 
No embalo das 23 empreiteiras que estão sendo investigadas pela Polícia Federal, outras 51 mil empresas – responsáveis por 500 mil empregos – tiveram seus negócios prejudicados. Segundo informação do próprio presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, 32 empresas foram bloqueadas cautelarmente no trabalho com a companhia devido às investigações.
 
O “cavalo de pau” na política econômica
 
Belluzzo lembrou que o Brasil reagiu bem ao momento mais agudo da crise internacional, desencadeada em 2008, conseguindo rapidamente recuperar sua taxa de crescimento. Mas, quando os fatores favoráveis à economia brasileira começaram a se dissipar, o governo demorou a definir projetos de concessão e a promover os programas de infraestrutura, avaliou.
 
“O PIB caiu um pouco em 2009, mas em 2010 já cresceu, então reagiu muito bem. Só que terminou aquele frenesi do ciclo de consumo americano e de commodities chinês. Então rapidamente os efeitos positivos se dissiparam e o Brasil foi incapaz de dar uma resposta mais compatível. Demorou a definir projetos de infraestrutura e tal e a economia foi desacelerando. Não foi desacelerando tanto quanto as pessoas pensam, mas foi desacelerando e, em 2014, ela estava mal”, analisou.
 
De acordo com ele, o crescimento da China – principal parceiro comercial do Brasil – começou a desacelerar e o Brasil passou a ter problemas com o balanço de pagamentos e um aumento importante no déficit de conta corrente. Para Belluzzo, “a situação fiscal começou a ficar difícil, mas não catastrófica”.
 
“E o que o governo fez? Deu um cavalo de pau na política econômica. Deu essa subida absurda dos juros, choque fiscal, e a economia entrou em recessão. E a situação internacional é o quadro dentro do qual isso aí se desenvolveu”, afirmou.
 
Questionado sobre os impactos que a crise política tem sobre a economia, o economista avaliou que isso tem atrapalhado bastante a situação. “O governo ficou imobilizado. Você não consegue nem passar a CPMF, que é a coisa mais razoável que tem. Mas eles estão bloqueando”, lamentou.
 
Avesso ao ajuste fiscal proposto pelo ministro da Fazenda Joaquim Levy, Belluzzo, criticou a política de juros altos praticada pelo Banco Central, que não ajudaria a combater uma inflação de custos. Segundo ele, falta coordenação entre as políticas do governo.
 
“Juntou tarifa de energia com tarifa de água e aí a inflação foi a 10%. E aí, como você vai pegar um choque de tarifas, que é um choque de custos, numa economia que tem inclinação à indexação de tudo… Então você tem o pior dos mundos: um choque inflacionário, com uma renitência ao longo do tempo, e o Banco Central pode ter a ideia de continuar aumentando os juros. E isso vai jogar a economia mais para baixo ainda”.
 
Para ele, a recente desvalorização do câmbio pode ajudar a dar um fôlego à indústria brasileira, apesar de a situação do comércio internacional também estar difícil. Em 2004, a participação da indústria no PIB era de 18%. Este ano, deverá ser de 9%.
 
“Com a recessão e a desvalorização do câmbio, você produziu uma redução das importações. Mas as exportações não estão crescendo, estão caindo. Só que as importações estão caindo mais. Por causa dos números da atividade, mais o encarecimento dos insumos importados. Isso pode dar um pouco de fôlego à indústria, porque começa a haver encomenda no mercado doméstico de coisas que eles compravam mais barato e agora estão ficando caras”.
 
O tripé 
 
Na entrevista, Belluzo comentou a prevalência do chamado tripé macroeconômico, que consiste em câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário. “Eu sempre dou um exemplo: por acaso um importador francês e um exportador japonês podem denominar transação em reais? Parece que não. Vão denominar ou em euro ou em dólar. Essa circunstância faz com que o câmbio flutuante num país como o Brasil seja muito arriscado. Você tem muita volatilidade, muita instabilidade do câmbio. Por que os chineses de deram bem? Porque eles controlaram o câmbio”, avaliou.
 
“O tripé é uma criação dos anos 90. Tem a ver com a política econômica da globalização neoliberal e os países que se entregaram a ela. Você tem dois tipos de países: os chineses, que aproveitaram as mudanças para fazer políticas nacionais, exercer controle sobre o que era crucial – que era comércio exterior, o câmbio e o sistema financeiro – , e os países que fizeram essa abertura que o Brasil fez”, disse.
 
Belluzzo, contudo, não vê, hoje, condições políticas para romper com a lógica do tripé marcoeconômico. “Veja, por exemplo, com essa desvalorização do câmbio, você reduziu muito as viagens ao exterior. Tinha cabimento você estar subsidiando o cara para viajar para o exterior, ao invés de viajar para Natal? Então precisa ter condições políticas. Você precisa convencer a sua base de que isso [romper com o tripé] é importante”, concluiu.



Créditos da foto: Pedro França/Agência Senado

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