ARTHUR GIANNOTTI: “Os tucanos agem de forma muito irresponsável em relação à crise”

ARTHUR GIANNOTT - PROFESSOR DE FILOSOFIA DA USP »

Para o professor de filosofia e referência entre tucanos, partido faz "tiroteio" na Câmara

O professor da USP José Arthur Giannotti. / CEBRAP
EL PAÍS - 07/08/2015 - São Paulo

“O PSDB nunca foi um partido. Sempre foi mais uma reunião de caciques que têm suas próprias posições”. A frase, dita pelo professor de filosofia da USP e uma das principais referências teóricas dos tucanos José Arthur Giannotti, ilustra o atual momento da legenda.Com o Governo em crise, o PSDB tem ficado mais a reboque do PMDB, algo que fragiliza seus próprios princípios, diz o professor. 
Pergunta. O PSDB tem várias correntes, lideradas pelo senadorAécio Neves, pelo governador Geraldo Alckmin...

Resposta. O PSDB nunca foi um partido. Sempre foi muito mais uma reunião de caciques que têm as suas posições. A ideologia não é o forte do PSDB. O que o partido está fazendo, na Câmara, é uma oposição fraca ao Governo, sem levar em conta que são seus próprios princípios que estão em jogo.
P. Essa divisão é ruim para o partido?
R. Isso não apenas enfraquece o partido, mas faz com que ele seja mais um tiroteio do que uma oposição política. Não fazem política responsável, estão apenas empenhados em derrubar a Dilma.
P. O partido, assim como o PT, votou na quarta-feira pelo aumento do gasto público em um momento de aperto econômico. Como você avalia atuação do PSDB na Câmara?
R. O PSDB está totalmente irresponsável com relações à crise. O pessoal da Câmara é mais ligado à luta política imediata. É toda a política nacional que ficou em um tiroteio no escuro. Quando temos um câncer na presidência da Câmara, que não tem nenhuma responsabilidade com o orçamento e a recuperação do país, nós temos o fim da política.
P. Alckmin, Serra e Fernando Henrique Cardoso têm assumido uma posição mais moderada do que os tucanos da Câmara...
R. Um dos motivos disso é que em São Paulo o PSDB tem exercido o poder há mais tempo do que em outros Estados. Logo os políticos são mais escolados, mais cientes dos desvios de poder do que os outros. Eles são menos aventureiros.
P. Mas mesmo assim eles não agem em bloco...
R. Entre o Serra e o Alckmin, a diferença ideológica é enorme. O Serra é muito mais à esquerda enquanto que o Alckmin, que é excelente político, é mais tradicional. Pega as figuras do PSDB de São Paulo: Fernando Henrique Cardoso, todos respeitam, mas sua linha ideológica não se reflete nos demais caciques. Não pense o PSDB enquanto unidade.
P. É possível falar em racha no PSDB?
R. Não creio que haja um racha. O sistema político inteiro está rachado. É preciso entender a natureza da crise para ver o que significa essa atual anomia [quando o indivíduo não se sente representado na sociedade]. É preciso levar em consideração que a crise advém de um tipo de corrupção que foi instalado, que é diferente daquela que existe no PSDB, no PMDB, etc. A máquina do PT, ela própria passou a depender dos 'pixulecos', desse recolhimento de propinas, e não só a máquina, mas sua governabilidade também. A compra de apoio dependia disso.

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