Pepe Escobar: “Pegue a conexão do Transiberiano”


17/10/2014, [*] Pepe EscobarAsia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
                          POSTADO POR CASTOR FILHO
Nasce o século EURASIANO (1)
Um espectro assombra as elites do Império do Caos: a nova parceria estratégica Rússia-China. E ela tem-se manifestado sob miríade de formas – negócios de energia, negócios de investimentos, aliança política mais próxima dentro do G-20, dos BRICS e da Organização de Cooperação de Xangai, no esforço concentrado para deixar para trás o petrodólar. Já descrevi esse longo processo como essencial ao nascimento do século eurasiano.

De um ponto de vista de Washington/Wall Street, era tão mais fácil naqueles idos, há muito tempo, bons tempos de mundo unipolar, com “fim da história”! A China ainda tateava pelas beiradas do rio da acumulação capitalista, e a Rússia estava caída, se não fora do jogo. Permitam-me pois um flashback até os primeiros anos da década dos 1990s.

Eu estava já há meses na estrada, pela Ásia, de todos os cantos do sudeste da Ásia até Índia, Nepal, os Himalaias e o litoral, no leste da China. Até que finalmente cheguei a Pequim – esperando, no amargo inverno do início de 1992, tomar o trem Transiberiano para Moscou. Eu mal ouvira falar do colapso da União Soviética – que absolutamente não era item de noticiário nos Himalaias. Também tive a sorte de estar no sul da China, apenas alguns dias depois que Deng Xiaoping fez seu famoso tour – cuja consequência chave foi catapultar o dragão para os mais inebriantes píncaros do desenvolvimento. Uma rápida passada de olhos por aqueles tempos alucinantes pode ter o mérito de iluminar nosso presente.

All aboard the night train/Todos a bordo do trem noturno (vídeo a seguir)


São 8h32 na Estação Ferroviária de Pequim e o Trem Transmandchuriano 19 para Moscou está de saída. 9 graus Celsius negativos. Um bando de romenas enlouquecidas tenta meter mais de 20 sacos enormes vagamente verdes, estufados de coisas Made-in-China, para dentro dos vagões. O controlador russo ruge um "Nyet". As dondocas romenas mergulham em histeria transilvânica. Até que um maço de George Washingtons troca de mãos no último apito, bem em tempo de soldados do Exército de Libertação Popular e policiais femininas com a inevitável faixa vermelha no braço e os dizeres “Servir ao Povo” constatarem impassíveis o feliz desfecho.

Uma cacofonia de russos, poloneses, romenos, checos e mongóis entupira os corredores do trem com dúzias de sacos, pacotes, sacolas. 300 kg de sapatos. 500 kg de casacos. 200 kg de camisetas. Milhares de potes de cremes de beleza que fariam furor de Bucareste até Cracóvia. “Cama” no trem é uma concavidade sobre algum dos pacotes. Assunto para seis dias, cruzando os 9 mil nevados quilômetros da ex-URSS, hoje Rússia, de leste a oeste.

Nasce o século EURASIANO (2)
Na cabine do condutor, mais sacos – cujos conteúdos serão vendidos pelas ruas de Moscou. Com tantos George Washingtons à vista, o sucesso do bazar delas está garantido – e como não, com tantas paradas no caminho e mercado “livre” absolutamente não regulado em cada plataforma? Toda a Europa Oriental está cheia de mercadorias e louca para fazer dinheiro rápido.

No trecho chinês da jornada nada acontece, diferente dos anos 1930s, quando o Japão ocupou a Mandchúria, instalou o fantoche Pu Yi no trono e estava pronto para tomar toda a Ásia. A ação do Terminator começa em Zabaikalsk, na fronteira russo-chinesa – depois que se cruza um imenso Arco do Triunfo em cimento, adornado pelo símbolo leninista então ainda não destruído da foice e martelo. A alfândega – dos dois lados – está absolutamente deserta.

O trem muda as configurações para adaptar-se aos novos trilhos. Mas todos os olhos estão postos no vagão-restaurante; saem os chineses, que só ofereciam porco com molho de soja; entram os russos, cheios de goulash, sopas, salames, peixe congelado, caviar negro, champanha da Crimeia, café, ovos, até queijo – tudo do mercado negro, pago com dólares norte-americanos.

Nasce o século EURASIANO (3)
Com a fronteira já deixada para trás, é tempo de bazaar a go-go. Todos enlouquecem no mesmo momento, porque instantaneamente saímos do horário de Pequim e entramos no horário de Moscou. O sol nasce à 1h da madrugada. O mercado negro faz US$ 1 = 110 rublos, o rublo em queda livre, enquanto vamos rasgando o sublime infinito deserto branco nevado da tundra siberiana, onde cada espetacular raiar do sol, sob uma névoa no ar ártico é uma epifania celebrada com mais e mais champanha da Crimeia.

Ocasionalmente se veem renas e até huskies. A taiga – disputada por Japão, Coreia e EUA – está envolta em neve. Por ali jazem os fantasmas dos 20 milhões de cadáveres dos gulags de Stálin, caçadores do raro tigres Amu (restam menos de 200) e o sinistro complexo Norilsk; 2 milhões de toneladas/ano de ácido sulfúrico e metais pesados lançados à atmosfera – causa daquela névoa ártica.

O trem para por 15 até 20 minutos, alcançando o máximo em Novosibirsk e Perm, onde antigamente houve um famoso gulag. Em cada parada, hordas de russos em modo Genghis Khan com pequenos sacos plásticos. O melhor negócio no Transiberiano são anoraks e jaquetas de couro. Jao, de Pequim, vende 50 em três dias, por até US$ 50 cada; ela pagou US$ 20 por cada um, nos hutongs de Pequim. Os russos compram tudo o que haja a vista e vendem rublos – que já chegam agora a 160 por dólar dos EUA – além de vodka, cerveja, salame, champanhe e garrafas de Pepsi local por US$ 1.

Todo o leste europeu embarcou no Trem 19. Romenos pós-Ceausescu são os mais exuberantes, de lutadores de boxe a cafetões e um gângster aprendiz em roupa de ginástica, vangloriando-se das duas horas que passou com uma boneca russa por US$ 10 (o preço corrente é US$ 20). Há um contingente de albaneses, jovens estudantes poloneses, nômades mongóis contando fervorosamente os lucros, babushkas semimortas de tédio e até um muito falante dandy chinês.

Os vagões russos, antes elegantes, são só confusão: ar pesado, denso de fumaça de cigarros, cheiro de suor, banheiros cheios de sacos e sacolas, e “Kapitan”, o único garçom, tentando ganhar algum rápido, vendendo parafernália soviética. Para mim, o cenário ideal pra devorar as quase mil páginas de Harlot's Ghost [O fantasma da prostituta], de Norman Mailer, uma história da CIA.

Ele só tem um péssimo PAR DE SETES

Ponha a culpa na glasnost

O Trem 19 não é só um bazar, mas também uma ágora multinacional. Jovens russos elaboram sobre como a quase genial perversidade do sistema soviético levou-o a empurrar até o limite todos os problemas das modernas sociedades industriais – sem oferecer quase nenhum dos seus benefícios. Europeus ocidentais dizem que não foi a Guerra Fria que pôs fim ao “socialismo real”; foi a invasão da economia capitalista combinada com a ineficiência e a “estupidez” (copyright by um ginasiano polonês) da economia socialista.

Russos dizem que a glasnost pôs fim à autoridade e a perestroika pôs fim à economia – e nada há que substitua qualquer delas. Resultado final: graduados em física vendendo latas de caviar num trem em movimento, para sobreviver. Todos elogiam Gorbachev, mas, essencialmente, o condenam a rápida nota histórica de pé de página. No trem, ouvi argumentos que reencontraria reproduzidos, anos depois, em incontáveis “ensaios” de acadêmicos norte-americanos.

Todos os que pilotam o Transiberiano exibem uma solidariedade que não se vê na ONU; fazem câmbio de moedas, trocam endereços, emprestam dinheiro e as indispensáveis máquinas de calcular, ajudam a carregar e a descarregar a matula, aceitam acomodar pacotes na sua cabine, oferecem suas cabines por meia hora para os que só têm o corredor para dormir, e contam piadas sobre as pequeninas notas de Yuan do Banco da China. Todos são ardentes defensores dessa forma de democracia direta da qual não se fala, que é sinônimo de fim da Guerra Fria.

Em pleno cassino, opera o mais improvável dos personagens, Lulu, bangladeshiano baixinho, sempre agarrado à sua mala Samsonite, mergulhado em sabe Alá que tipo de atividades misteriosas, passaporte cheio dos vistos mais suspeitos, inclusive da Arábia Saudita. Chineses e russos o tratam como se fosse um pequinês que lhes provocasse alergia. A comida no trem é previsivelmente insuportável para aquele muçulmano estrito, que nos acorda todos às 5h da manhã com suas orações. Rashid Muhammad passou seis dias literalmente a pão e água.

Skolka [ru. “Quanto custa”?]. Eis o motto do bazaar transmandchuriano, prévia de Moscou. Pink Floyd lançou o legendário Dark Side of the Moon (vídeo no fim do parágrafo) no auge da era Brejnev; os subúrbios de Moscou se parecem com o fantasmagórico lado escuro da lua.


O legado lunático de Stalin só é aliviado por um solitário quiosque que vende flores, frutas ou o doce brandy da Geórgia.

Chegamos como zumbis – com apenas poucas horas de atraso – a Yaroslavlsky Vakzal, uma das nove estações de trens de Moscou, onde um dilúvio de táxis Volga disputam a preciosa carga chinesa. Quem viaje para o Leste da Europa sem reservas, danou-se: há espera de 40 dias para comprar bilhetes para Varsóvia e Berlim.

Em Shenzhen, Guangzhou, Xangai e Pequim, testemunhei o espetacular sucesso do “socialismo de mercado” chinês pós-Tiananmen, no qual a economia era a locomotiva e a política era despachada para o fundo do fundo do último vagão. Nada mais espantoso que o contraste com Moscou, onde a política era a locomotiva.

Fico hospedado na casa de Dmitri, estudante de odontologia, distante três estações de metrô, do Kremlin, e pagando US$ 6 por dia, uma pequena fortuna; ele e a namorada subdividem precariamente o apartamento de dois quartos, um banheiro e uma família inteira, cachorro incluído, além de ocasionais hóspedes ocidentais, os quais dormem no quarto principal. A isso se chama viver como classe-média alta.

Nas belas estações do metrô, volta a funcionar o bazaar transiberiano. Vendem-se samizdats,ou políticos ou pornôs, roupas de segunda-mão, garrafas de praticamente qualquer líquido. Só quando chego à Praça Vermelha vejo a luz. Nos Himalaias e na China, meu fuso horário ainda acompanhava Gorbachev. No topo do Kremlin vê-se uma bandeira da Rússia – e também no centro da praça Dzerzhinsky, em frente à KGB. Como perfeito idiota, procuro pela estátua de Felix Dzerzhinsky, ex-comandante da polícia secreta soviética, só para ter de ouvir de um estudante, que a estátua foi derrubada há algumas semanas. Gorbachev já é marca de vodka. E não me deixam entrar no prédio da KGB.

Nasce o século EURASIANO (4)
Toda a cidade está convertida num gigantesco bazaar turco. Depois que Boris Ieltsin liberou as calçadas, todos só querem exercitar a tal privatizatsiya de cada um. Até 1990, ninguém sabia o que eram talão de cheque ou cartão de crédito, e $1 equivalia a 1 rublo. Há mercados de rua absolutamente inacreditáveis na rua Prospekt Marka e Gorki, todos silenciosamente em fila mostrando as mercadorias: uma boneca quebrada, um solitário pé de sapato, empoeiradas garrafas de champanhe, perfume, café solúvel, latas de sardinha, uma garrafa vazia de cerveja.

As ruas estão cobertas das coisas trazidas pelos viajantes do Transiberiano, mas os supermercados estão vazios. Há pouco leite e pouca carne, mas montanhas de peixe enlatado e filas intermináveis de gente para comprar nada – os potenciais consumidores já resignados a continuar jogando xadrez.

O maior sucesso na cidade é a nova loja McDonald's na praça Pushkin – das mais cheias do mundo, vendendo refeições completas a 50 cents, por caixas que exibem, todas, sorriso de Eva Herzigova. Em frente ao MacD, um Gorbie de papel faz pose para turistas e uma multidão vende latas de caviar a $5 e champanhe a $3. Na GUM, loja de departamentos, não há muita coisa exceto uns poucos showrooms de Sony e Honda e uma nova vitrine de Dior.

O passado recente resiste: é impossível telefonar para a Europa. É impossível enviar um faxda agência dos Correios. É impossível fazer uma reserva de trem. É impossível fazer uma reserva de avião (pelo menos na loja da Aeroflot em Lubyanka; só no cavernoso Intourist Hotel).

No lúgubre piso térreo do Mockba Hotel, personagens surdos-mudos saídos diretamente de uma peça de Ionesco enchem os corredores, enquanto um mercado negro de cerveja opera sem parar em frente ao bar do hotel. Uma taça de champanhe, 50 cents. No hall do legendário Metropol – Grand Dame preferido de Trotsky em 1899 – um dry Martini custa caríssimos US$ 7,70. O Metropol é a nova Wall Street; dinamarqueses, italianos, norte-americanos e chineses discutem todos os negócios desse lado de um Bravo Novo Mundo derrubando Heinekens a US$ 5 cada.

No Dia das Forças Armadas, domingo, há uma manifestação de comunistas, reprimida com tato, com muitas velhas senhoras carregando flores e bandeiras. Correspondentemente, ospunks de Moscou com bandeiras anarquistas protestam contra as Forças Armadas. Um Volga pré-histórico leva-me a Sheremetievo como se eu estivesse correndo pelo cenário de um filme-B de Guerra Fria dos anos 1950. O Volga engasga, para, morre, corre, engasga, para outra vez, morre: metáfora da nova Rússia, e quase perdi o SU 576 da Aeroflot de volta a Paris.

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Nada nunca mais voltará a ser o que (unipolar) foi

Era assim, naqueles dias. Aquele McDonald's – símbolo da Pax Americana unipolar, “fim da história” – foi recentemente fechado. É cada vez mais e mais difícil para o Império do Caos, governar sozinho o mundo enquanto McDonald's serve búrgeres. Do outro lado da Praça Pushkin, o super da moda Cafe Pouchkine serve hoje o melhor da haute cuisine russa.

E ainda assim ambas, Rússia e China, são vistas como párias pela elite imperial unipolar. Como se todos tivéssemos ficado congelados naqueles dias do início da década dos 1990s. Rússia e China podem ter mudado muito, a ponto de já nem serem reconhecíveis, mas para o Império do Caos as prioridades são esfacelar a Rússia em mil pedaços, a começar com a Ucrânia, e “pivotear-se” para a Ásia, via um eixo militar−econômico anti−China no Pacífico Ocidental.

Entrementes, o Transiberiano em breve terá conexão com as Novas Rotas da Seda comandadas pelos chineses. Então, um dia, no início da década dos 2020s, haverá uma rede de trens de alta velocidade interligando ligando a Eurásia num flash. E nada nunca mais voltará a ser o que (unipolar) foi. Exceto o champanhe da Crimeia, que voltou a ser russo.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009. 
− Seu novo livro,  Empire of Chaos, será publicado em novembro/2014 pela Nimble Books.

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