Alibaba abre capital e mira o Brasil

O grupo chinês Alibaba faz a maior abertura de capital da história, e tem no mercado brasileiro um ponto importante de sua estratégia
Alibaba
Jack Ma capta 25 bilhões de dólares em Nova York e dobra a sua fortuna
Na Carta Capital
Os preços baixos, com frequência baixíssimos, dos produtos à venda pela internet na página do AliExpress, a versão brasileira mais conhecida do site chinês Alibaba, impressionam. Vestidos a 17 reais, relógios esportivos masculinos por 11 e um aparelho MP3 para ouvir música em formato eletrônico por 4,50 mostram um poder arrasador de competição no comércio online e na indústria. Uma opção virtual às pechinchas de ruas do comércio, com a vantagem de se evitarem trânsito e multidões.

Em quatro anos de atividade, o AliExpress conquistou a posição de sexta loja online mais visitada do País. O Brasil é um dos principais responsáveis pelo crescimento das vendas internacionais de varejo do Alibaba, ao lado da Rússia e dos Estados Unidos, segundo o prospecto apresentado pela empresa na oferta pública de ações realizada na sexta-feira 19. Foi a maior abertura de capital da história da Bolsa de Nova York, com captação de 25 bilhões de dólares. O site ultrapassou a Amazon e o seu fundador, Jack Ma, homem mais rico da China antes do lançamento, dobrou a sua fortuna. Ex-professor de inglês, Ma criou a empresa, em 1999, com 17 amigos e hoje domina 80% do comércio chinês.
O AliExpress não demorou para cair no gosto dos brasileiros, sempre queixosos dos preços no mercado interno. É a loja online com maior crescimento de acessos nos últimos 12 meses, segundo a empresa de análise de internet comScore. Outras duas gigantes mundiais, o e-Bay e a Amazon, não figuram entre os dez mais acessados no País. O número de visitantes únicos em sites do grupo Alibaba no Brasil subiu de 3 milhões, em julho de 2013, para 13 milhões, em julho deste ano. Nem a espera pela entrega do produto, muitas vezes superior a um mês, desanima os clientes. Desde o fim de 2013, o AliExpress aceita boleto bancário, um estímulo às vendas, antes possíveis apenas com cartões de crédito internacionais. Em dezembro de 2013, o grupo tinha 2 milhões de usuários cadastrados no Brasil, número 200% superior ao de 2012.
“O Brasil está no topo da lista de interesse das empresas de e-commerce pelo seu potencial de consumo”, diz Alex Bank, diretor da comScore. Segundo a e-Bit, empresa brasileira de informação de e-commerce, as vendas online atraíram 5 milhões de novos consumidores no primeiro semestre de 2014.
De acordo com a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), 50% da população está conectada à internet. É o quinto maior mercado virtual em número de usuários únicos e o terceiro em tempo gasto na rede. Para Bank, há espaço para novos competidores sem prejuízo para os já estabelecidos. “O varejo online brasileiro tem grandes empresas. Claro que a chegada do Alibaba é acompanhada de perto pelos concorrentes, mas não necessariamente representa uma ameaça.”
O faturamento do e-commerce no Brasil cresceu 26% no primeiro semestre de 2014 e chegou a 16 bilhões de reais, segundo a e-bit. A previsão é obter 11,6 milhões de novos usuários e um faturamento de 35 bilhões até dezembro. A categoria de moda e acessórios lidera as vendas, com 18% dos pedidos, seguida por cosméticos e perfumaria (16%) e eletrodomésticos (11%). Segundo Maurício Salvador, presidente da Associação Brasileira do Comércio Eletrônico, muitas redes nacionais de varejo, como a Riachuelo e a C&A, ainda estão fora. “O ingresso desses grupos e dos seus públicos cativos no e-commerce deverá impulsioná-lo.”
A e-Bit estima em 5,5 bilhões de reais os gastos dos brasileiros só em sites estrangeiros em 2013. Já a PayPal faz uma estimativa mais conservadora, de 2,6 bilhões de reais em consumo de importados no varejo digital no mesmo ano. De acordo com a pesquisa, 79% das compras online externas de 2013 foram realizadas nos EUA, 48% na China, 17% em Hong Kong e 17% no Reino Unido. Os principais itens consumidos foram hardware de computador, eletrônicos pessoais, roupas, sapatos e acessórios, saúde e produtos de beleza, e eletrodomésticos. Os dois principais motivos são a maior variedade e os preços mais baixos.
“Alguns setores, como os de vestuário e acessórios, se preocupam com o crescimento de sites como o Alibaba, pois o importado é mais barato mesmo com a tributação. Para mercadorias de maior valor, como eletrônicos, a compra online internacional é menos vantajosa, pois não há garantias de troca, o código de defesa do consumidor não se aplica a eles”, diz o diretor-executivo da e-bit, Pedro Guasti.
E-commerce
Além do AliExpress, o grupo chinês possui os sites Alibaba, de vendas no atacado; Taobao, de comércio entre consumidores; Tmall, entre pequenas empresas; Alipay, de pagamento pela internet; Alimama, de serviço de marketing para empresários; e Aliyun, de armazenamento de dados. A holding, avaliada em 230 bilhões de dólares, prepara uma investida no varejo internacional e o Brasil é uma das prioridades. O varejo externo ainda representa uma pequena parcela do faturamento da holding (9% dos 8,5 bilhões de dólares no ano fiscal encerrado em março), mas registrou um crescimento de 139% no período.
O Alibaba assinou em julho um memorando de intenções com os Correios para diminuir o tempo de entrega no Brasil e incentivar fornecedores brasileiros a vender no mercado chinês. Segundo os Correios, o volume de remessas internacionais cresceu 70% em 2014. Nos últimos quatro anos, o crescimento foi de quase 400%. Os produtos chineses correspondem à metade desse montante e o AliExpress representa uma parte significativa do fluxo.
Segundo Alberto de Mello Mattos, chefe do departamento internacional dos Correios, as ações previstas na parceria incluem desde orientar o AliExpress no endereçamento correto até o uso de tipos de remessas mais adequadas à entrega de mercadorias. Hoje, a empresa chinesa utiliza o canal postal comum. É o mais barato, mas não traz as informações necessárias à declaração aduaneira, motivo de atraso nas entregas.
Outra ação dos Correios para facilitar as remessas ao Brasil será a abertura de dois armazéns, na Ásia e em Miami. Os entrepostos deverão entrar em funcionamento no fim do primeiro semestre de 2015 e contribuirão para antecipar procedimentos burocráticos, reduzir o tempo de entrega das mercadorias e aumentar o alcance da fiscalização da tributação do comércio online, hoje realizada por amostragem. São isentas de imposto de importação de 60% do valor apenas as mercadorias abaixo de 50 dólares enviadas por pessoa física e itens como livros e medicamentos com receita médica.
E-commerce
Os armazéns servirão para a estocagem de produtos exportados por empresas brasileiras. O Alibaba deve auxiliar os exportadores a lidar com as regras do governo chinês e a encontrar parceiros. “Vamos identificar exportadores em condições de participar das plataformas do Alibaba e a partir disso faremos uma experiência piloto”, diz Mattos.
A competitividade brasileira nos negócios com a China é reconhecidamente limitada. “O Brasil não tem produtos de valor agregado para exportar por meio do comércio digital. A mercadoria brasileira mais vendida no Alibaba hoje é o açaí”, explica Salvador, presidente da Associação Brasileira do Comércio Eletrônico. Os Correios recebem por mês cerca de 2 milhões de remessas de importação. As exportações, por sua vez, não chegam a 20% desse montante.





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