Choveu pouco em São Paulo. Sim, mas o problema é maior e a Folha não quer ver

Autor: Fernando Brito
cantafolha
A Folha publica agora à noite um levantamento que, além dos erros aritméticos ( o gráfico diz que choveu 60% abaixo da média e é só fazer a conta para ver que a chuva foi 42,4% abaixo da média) que  pode acrescentar dramaticidade, deixa de lado a questão mais importante.
A de que o grave foi, claro que por causa da falta de chuvas, mas não só, a queda na vazão dos rios que abastecem o Sistema Cantareira.
A vazão afluente média dos rios que o abastecem é, nos últimos 50 anos, de 46,3 metros cúbicos por segundo.

Mas de janeiro a julho deste ano foi de meros 9,7 m³/s, ou apenas 20,9% do normal.
Em julho, reduziu-se a meros 4,17 m³/s,  ou 16,4% da média para o mês.
É evidente que a proporção em que a chuva se reduziu foi muito menor do que aquela em que baixou a vazão dos rios.
Parte disso, tecnicamente, se explica pelo déficit de absorção de água pelo solo e pelo rebaixamento do lençol que os forma.
Parte, mas não tudo.
A falta de proteção dos mananciais, o aumento do uso da água rio acima e outros fatores menores levaram à redução do volume de água e colocam o Cantareira numa situação de risco que – embora possa ser mitigada por chuvas fortes – tende a se tornar permanente.
E se o governo paulista continuar na política irresponsável que está seguindo, vai continuar por 2015 e 2016, inibindo o desenvolvimento da região metropolitana e, pior, sujeito a criar uma absoluta falta de água para milhões de paulistanos e moradores da periferia se o período de estiagem do final de 2013 e do início de 2014 se repetir.
Porque as poucas reservas que havia, agora, não existirão. E a providencial água do fundo das represas terá sido sugada.
Não se deixa, aqui, de enxergar a falta de chuvas.
Mas também não se deixa de ver que, além dela, há o retrato do fracasso de um modelo de exploração dos recursos hídricos que se preocupa em tirar cada vez mais água dos rios mas não com os rios de que tira água.
Quando a água falta, compram-se umas bombas, instalam-se mais um “mangueirões” e pronto.
O negócio é ter água – turva e nem sempre – na torneira até a eleição.
São Paulo caminha para uma catástrofe, em outubro, em novembro, em dezembro ou no ano que vem, sob o silêncio de sua elite, sobretudo a jornalística que recusa, há mais de seis meses, o retrato do desastre, por achá-lo “alarmismo” ideológico ou partidário.
E há seis meses a água, baixa, baixa, baixa em ritmo assustador.
Culpar a falta de chuva é fácil.
As elites nordestinas fizeram sempre assim com a seca.
Era de se esperar que a paulistana, com todo o seu verniz de ilustração, fizesse diferente.
Mas não faz.
Nem regra de três faz direito.

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