A vida sempre ganha, ainda quando se perde


Autor: Fernando Brito
drummond
Ontem, durante uma longa hora de conversa, dediquei-me amenizar o sofrimento  e as ideias de meu filho mais novo.
Amuado, triste, raivoso com os 7 a 1 da Alemanha, não queria nem conversa sobre o assunto.
Dizia que queria destruir os alemães e tudo que fosse alemão.
- Até o cachorro-quente?
- O cachorro quente não é da Alemanha, é dos Estados Unidos.
- Mas a salsicha é da Alemanha…
- Então não como mais cachorro-quente!
- Nem hambúrguer?

E ele, com expressão de espanto e susto, já imaginando a renúncia  ao McDonald’s, mais dolorosa que a do futebol que ele ainda não sabe saborear:
- Hambúrguer não é da Alemanha, esse eu sei que é dos Estados Unidos!
- Não, você lembra daquele navio que nós vimos – e vimos mesmo, um cheio de conteineres entrando na Baía da Guanabara – e você leu Hamburg (Hamburg Sud) escrito nele e me perguntou que se era hambúrguer e eu não te expliquei que era o nome de uma cidade da Alemanha onde tinha sido inventado o hambúrguer? (meio mentira minha, aliás, porque parece que eram os tártaros que esmigalhavam a carne para comê-la)
- É…
Bom, o medo de perder o hambúrguer abriu espaço para a conversa fluir e ele admitir conversar sobre derrotas e vitórias.
E eu lhe perguntei, então, se não havia meninos como ele na Bósnia, tão tristes quanto ele estava agora quando o Brasil sapecou os 3 a 1 do primeiro jogo.
E na África, aqueles meninos-camarõezinhos, pretinhos, já tristes porque seu time ia embora, não sofreram com os quatro gols brasileiros que nós comemoramos.
Os guris do Chile não foram às lágrimas com aquela bola na trave dos minutos finais e, depois, com os pênaltis?
E os garotos da Colômbia, do México, da Austrália, da Espanha, de todos os 28 países que perderam, antes de nós, o direito de sonhar com a taça?
Se o argumento é meio sofrível, ao menos teve a virtude de fazer, de cabeça, 32 menos 4, o que é menos maçante do que aquele chato “arme e efetue” da escola.
Pedro foi amolecendo sua tristeza e revolta, porque percebia, com certa vergonha, o que muita gente grande não consegue compreender: que somos todos seres humanos,essencialmente iguais,  e só por isso temos o privilégio de usar a palavra humanidade, embora tanto dela nos esqueçamos.
Entender que  a dor não é brasileira, não é bósnia, não é costarriquenha ou “belgicana”. E nem branca, preta, nem mulata ou amarela.
É dor, e passa, e cura, e sara.
E estamos prontos para novas alegrias e outras dores, porque é nisso, afinal, que se resume a vida.
Se é que a vida se resume, pois é tão grande e larga que talvez nada a possa conter ou definir, menos ainda a risca de cal de um campo de futebol ou uma bola que suicida seu instante de pássaro em uma rede.
Pedro vai hoje torcer comigo pelos argentinos.
Mas não por vingança dos alemães.
É porque com os garotos da mesma rua  é mais fácil e melhor brincar, jogar, ganhar, perder, brigar e fazer as pazes.
E viver, como nos lembrava de viver o Carlos Drummond de Andrade, depois do massacre que sofremos – mais doído do que este, ainda que com apenas um gol decisivo, porque mais injusto – na bela crônica, que recolho de um post antigo do Blog de Fred Soares, do Sportv:
Perder, Ganhar, Viver
Carlos Drummond de Andrade  (JB, 7/7/1982)
Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmuIas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas…
Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.
Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.
Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.
E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?

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