A Folha pensa? Pobre jornalismo!

Por Altamiro Borges

Para quem ainda imaginava que a Folha de S.Paulo faz jornalismo, o especial do jornal desta quarta-feira (19) confirma que ela faz política. “O que a Folha pensa” é o título do longo e laudatório artigo. Nele o diário da famiglia Frias – que apoiou o golpe militar, aliou-se ao setor linha dura da ditadura, cedeu seus veículos para os órgãos de repressão e tornou-se um dos principais veículos dos dogmas neoliberais, entre outros crimes que comprovam que o jornal é um verdadeiro partido da direita nativa – apresenta a sua plataforma para a atualidade. A linha editorial da Folha revela bem os limites estreitos do seu jornalismo – e coitado do jornalista que não reze de seus dogmas.

O artigo apresenta os “principais pontos de vista defendidos pela Folha”, que completou 93 anos de existência nesta quarta-feira. O jornal ainda tenta se travestir de eclético e pluralista para enganar os mais ingênuos, mas a sua visão elitista e autoritária fica patente. No terreno econômico, por exemplo, a Folha endeusa a “livre-iniciativa” e a “economia de mercado”. Já no campo da política, as suas propostas são de uma democracia liberal ainda mais restritiva, com voto distrital, cláusula de barreira, voto facultativo e outros contrabandos para afastar a participação popular. Apenas na área do comportamento é que a Folha apresenta algumas ideias progressistas em defesa das liberdades individuais.

O jornal confessa que “tais princípios gerais funcionam como pedra de toque para os editoriais que a Folha publica diariamente. Cabe à editoria de Opinião, a cada novo assunto, elaborar argumentos coerentes com tais diretrizes, tentando traduzi-las para um público amplo. Exceto quando há mudança expressa de posição, o próprio histórico dos editoriais serve de baliza. Opiniões já publicadas funcionam como ‘jurisprudência’ do jornal. O fato de a Folha declarar sua opinião por meio dos editoriais não impede que os colunistas (de colaboração periódica) e os articulistas (esporádica) manifestem posição diferente”. Exatamente por isto, a Folha escalou um time de notórios reacionários, com raríssimas exceções.

Mesmo declamando que “o pluralismo é uma das marcas da Folha”, o artigo fixa seus “principais pontos de vista” sobre vários temas. Em todos, o jornal não esconde seu viés oposicionista, sempre destilando veneno contra os governos Lula e Dilma. No item Copa do Mundo, por exemplo, ele faz questão de realçar os gastos excessivos e o péssimo legado. Já sobre o Bolsa Família, o jornal diz que “o Brasil ainda precisa de programas de transferência direta de renda, mas eles devem exigir contrapartida do beneficiário... O programa peca pelas poucas portas de saída, ou seja, oportunidades criadas para que os beneficiários deixem de precisar da bolsa”.

A visão ultraliberal da Folha fica mais evidente no debate sobre a economia. O jornal defende “reduzir o gasto público”; “perseguir inflação baixa e reduzir a meta oficial no médio prazo”; “reduzir e reformar progressivamente a carga tributária”; “reformar a Previdência, o que implica, entre outras medidas, aumentar a idade da aposentadoria”; “conceder mais serviços públicos à iniciativa privada”; entre outros pontos. Um típico programa neoliberal, bem ao gosto de FHC – que quase levou o Brasil à falência no seu triste reinado – e da oligarquia financeira que afundou os EUA e a Europa numa das piores crises da história do sistema capitalista mundial.

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