O exemplo de Francisco

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A limpeza que o Papa Francisco começa a fazer no Banco do Vaticano ultrapassa todas as expectativas que eram acalentadas sobre suas gestão.

Paulo Nogueira

Francisco é uma revolução em si próprio, um exército num homem só.

E deve servir de inspiração a todos os que desejam mudar alguma coisa mas ficam paralisados com medo das repercussões das mudanças.

A limpeza que ele começa a fazer no Banco do Vaticano – onde a fé se encontra com a moeda numa combinação explosiva e bem pouco transparente - ultrapassa todas as expectativas que eram acalentadas sobre sua gestão.

Quem imaginava que nisso ele não ia mexer – não, pelo menos, tão cedo – acabou de ter mais uma lição sobre os cojones de Francisco.


O caso ganhou interesse adicional no Brasil por causa do afastamento de suas funções relativas ao banco do cardeal brasileiro Odilo Scherer.

Um dos favoritos para se tornar papa no concílio que elegeu Bergoglio, Dom Odilo é, segundo Leonardo Boff, que o conhece bem, “autoritário e reacionário”. O oposto, em essência, de Francisco.

Francisco usa o arsenal completo dos transformadores e inovadores da história. Ele une a retórica à prática, em todos os momentos.

Um bispo comum teria dito: é impossível mudar a Igreja. São 2 000 anos de tradição, conservadorismo etc etc.

Bergoglio agiu, simplesmente. Desde o primeiro dia, ele agiu como se tivesse diante de si algo muito distante de uma missão impossível.

Você já deve ter ouvido gente dizer que não dá para mudar uma empresa, uma cidade, um país. Francisco mudou uma coisa muito mais complexa que tudo isso.

Por isso ele é também uma lição para todos nós. Uma lição de inconformismo e ação.

Uma das maiores expressões da sabedoria oriental diz o seguinte: toda caminhada começa no primeiro passo.

Francisco deu o primeiro passo assim que foi eleito pelos pares, e desde então não parou mais de caminhar, sempre pregando ao mesmo tempo em que marcha adiante.

Palavras valem muito. Atitudes valem muito. Quanto palavras e atitudes se combinam, são imbatíveis.

Francisco prega a simplicidade, porque é a base do combate à desigualdade que marca, assola, envergonha o mundo. E voa de classe econômica. É o pacote completo.

Francisco fez, primeiramente, um trabalho de inclusão. Incluiu os pobres – esquecidos, miseravelmente esquecidos pela Igreja.

Incluiu também os ateus, os homossexuais, os marxistas: ninguém, enfim, está distante do amor, da compaixão e da solidariedade do Deus de Francisco, e nem da Igreja que ele comanda.

Numa de suas frases mais notáveis, Brecht disse que nada deve parecer impossível.

Pois quando isso acontece nos conformamos com iniquidades, absurdos, horrores estabelecidos.

No Brasil moderno, quantas vezes não escutamos que não dá para mudar o sistema político, ou o modelo das prisões, ou as alianças para governar, ou o poder judiciário, ou as verbas publicitárias oficiais que privilegiam a Globo. Também quantas vezes não ouvimos que regular a mídia não dá, e nem tirar os carros das ruas para evitar engarrafamentos colossais?

É o triunfo da cultura da imobilidade, da aceitação.

São raros, são raríssimos os que não se curvam ao “impossível”.

Francisco é um deles. Por isso é o que é. Por isso mesmo os que não crêem, como eu, têm nele um exemplo portentoso.

Vida longa a ele.

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