Pasolini renasce em Paris



Cineasta iconoclasta, Pier Paolo Pasolini (1922-1975) foi um dos maiores artistas do século 20. Mas o poeta, escritor e intelectual marxista engajado era detestado pela sociedade burguesa que criticava. Seu assassinato, em 1° de novembro de 1975, na praia de Ostia, perto de Roma, permanece até hoje um mistério. Os inimigos do poeta preferiram acatar (ou fabricar?) a tese de crime sexual, atribuindo ao homossexualismo de Pasolini a responsabilidade por seu assassinato.

Por Leneide Duarte-Plon*

Inúmeros documentários e livros tentaram demonstrar que o crime, nunca esclarecido, foi o resultado de um complô mafioso ou político para calar o incômodo crítico da política italiana, sobretudo na coluna “Escritos corsários”, publicada no Corriere della Sera, nos dois últimos anos de vida. A Democracia Cristã, severamente criticada por Pasolini por alimentar o clima de tensão da Itália dos “anos de chumbo”, viu, três anos depois, seu líder, Aldo Moro, ser sequestrado e morto pelas Brigadas Vermelhas.


Como um profeta, Pasolini previu o terror no qual o país iria mergulhar. Mas, como acontecia com os profetas do Antigo Testamento, sua lucidez incomodava. No enterro, seu grande amigo, o escritor Alberto Moravia, sugeriu um crime político: “Uma sociedade que mata seus poetas é uma sociedade doente”.

Cristianismo e o marxismo

As novas gerações de cinéfilos podem ver toda a obra do cineasta na retrospectiva organizada pela Cinemateca Francesa, que montou a exposição “Pasolini-Roma”, em colaboração com o Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona, o Palazzo delle Esposizioni de Roma e o Martin-Gropius-Bau, de Berlim. Depois de passar por Barcelona, a mostra foi inaugurada em Paris em 17 de outubro. O ciclo Pasolini e a exposição ocupam a cinemateca até 26 de janeiro de 2014, quando seguem para Roma e depois, Berlim.

Por meio de fotos, documentos e vídeos a exposição propõe um percurso cronológico a partir da chegada de Pasolini a Roma, em 1950, e explora os lugares onde ele morou e trabalhou. Todo o universo do cineasta está presente nas diversas salas de exposição: seus amigos cineastas e intelectuais (Elsa Morante, Alberto Moravia, Federico Fellini, Bernardo Bertolucci), a poesia, a política, o sexo, a amizade e o cinema. Numa das últimas, são reconstituídos, por intermédio da imprensa, os mais de 20 processos movidos contra o cineasta, considerado o artista mais escandaloso da Itália do pós-guerra.

Pasolini foi um artista multimídia, numa época em que a palavra sequer existia. Poeta com uma obra considerável, erudito leitor de Dante e dos clássicos gregos, escreveu peças de teatro, crônicas para jornais, dirigiu obras-primas do cinema italiano, com roteiros originais ou baseados em clássicos do teatro grego como Medeia e Édipo Rei. Mas antes de dirigir seus próprios filmes fez roteiros para Mauro Bolognini (O belo Antonio), Bernardo Bertolucci (La commare secca) e Franco Rossi (Morte di un amico), entre outros. Para Fellini, fez diálogos de Noites de Cabíria, mas seu nome não aparece nos créditos. Codirigiu com Fellini algumas cenas de A doce vida.

Hoje, Pasolini é um clássico do cinema italiano.

Ele só não fez televisão, mídia que criticou com grande virulência. Para ele, a televisão realiza a síntese perfeita entre consumismo e alienação. “Não concebo nada de mais feroz que a banalíssima televisão”, disse ele numa entrevista ... à televisão. Para Pasolini, essa mídia era responsável pelo ”genocídio cultural” da Itália e das classes operárias, uniformizando culturalmente, impondo “valores consumistas pequeno-burgueses”.

O ecletismo de Pasolini levou-o a visitar no cinema clássicos de diversas culturas: filmou As mil e uma noites, Édipo Rei e Medeia, mas também se interessou pelo escritor e poeta inglês do século 14, Geoffrey Chaucer, de quem adaptou Os contos de Canterbury. Do poeta italiano Bocaccio, também do século 14, adaptou para o cinema O Decameron.

O leitor de Antonio Gramsci, poeta e teórico do marxismo morto nas prisões do fascismo, a quem dedicou seu livro de poemas As cinzas de Gamsci, também fez incursões pelo Novo Testamento. O Jesus de seu filme O Evangelho segundo Mateus, de 1964, é um líder revolucionário, um perfeito precursor do Jesus Cristo libertador dos teólogos da libertação. Sem acrescentar uma vírgula ao texto original de Mateus, Pasolini reconciliou nessa obra-prima o cristianismo e o marxismo e fez um dos mais belos filmes do cinema italiano. É, sem dúvida, a mais despojada e fiel adaptação do Evangelho.

O último dia

No seu último filme, Salo ou os cento e vinte dias de Sodoma, o sexo não é um instrumento de libertação como na trilogia que o precede (Decameron, Contos de Canterbury e As mil e uma noites). Ele é servidão. Ambientado na república fascista de Salo, o filme mistura pornografia e tortura na reconstituição da obra do Marquês de Sade. O caráter escatológico do filme contribuiu para aumentar o ódio dos cristãos integristas por Pasolini, que sempre abordou a religião com uma visão pessoal e libertária e nunca dissimulou sua homossexualidade.

Uma amiga do cineasta, a atriz Adriana Asti, observou que “tudo o que ele temia aconteceu: a globalização, o reinado da televisão, o consumismo”. Seu último livro, Petróleo, descreve, profeticamente, atentados terroristas a estações de trem. Cinco anos depois de sua morte, o primeiro atentado terrorista neofascista, na estação de Bolonha, matou 85 pessoas.

Um dos diretores italianos mais marcados por Pasolini, Marco Tullio Giordana, realizou, em 1995, um admirável filme sobre a morte do cineasta, chamado Pasolini, un delitto italiano. O filme mostra a complexidade do processo, que nunca chegou aos verdadeiros assassinos, contentando-se com a prisão de um jovem de 17 anos que confessou o crime e, anos depois, declarou haver mentido sob pressão dos verdadeiros autores do assassinato.

O mais festejado filme de Giordana, que conta a história dos últimos 40 anos do século 20 na Itália, chama-se La meglio gioventù, o nome do primeiro livro de poemas de Pasolini. Não é uma coincidência, mas uma homenagem de um fã incondicional.

Outro fã, o cineasta Abel Ferrera, que pensa como muitos que Pasolini foi o “último grande intelectual italiano”, está preparando um filme com o ator Willem Dafoe sobre o último dia de vida do poeta e cineasta.

Leneide Duarte-Plon é jornalista, em Paris

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