"Lojas híbridas" se anunciam como tendência em Berlim

Unir forças é uma maneira criativa de viabilizar negócios, como no Enten und Katzen, em Prenzlauer Berg
Na cada vez mais badalada capital alemã, combinar dois ou mais negócios sob o mesmo teto, como autoescola e loja de vinhos, vira saída para fugir dos preços altos de aluguel e atrair públicos distintos.
A combinação é improvável – um estabelecimento que une autoescola e loja de vinhos. Mas reflete o que parece se anunciar como uma tendência em Berlim, cidade que tem, como poucas outras no mundo, uma abertura especial à experimentação.
A loja, no bairro de Friedrichshain, foi ideia do mecânico Andreas Wittwer. Ao lado da mulher, ele cuida da autoescola. Seu irmão Matthias é responsável pelos vinhos. Desde 2002, essa combinação de negócios familiares vem atraindo a curiosidade de quem passa pela Grünbergerstrasse.
Seus donos garantem, porém, que os clientes não procuram o estabelecimento para aulas de condução e para comprar vinho ao mesmo tempo. "De jeito nenhum", diz Diana, professora da autoescola. "Temos duas clientelas distintas, já que elas representam grupos etários completamente diferentes."

Os vinhos não são vendidos na autoescola, e as aulas de direção não acontecem na loja de vinhos – essa foi a condição dada para que o negócio fosse licenciado. A função de Diana é ajudar as pessoas a transitarem com segurança pelas ruas de Berlim, e não a diferenciar um Barolo de um Bordeaux.
"[Lojas combinadas] parecem estar na moda. Talvez seja uma boa maneira de atrair atenção das pessoas. Afinal, te trouxe até aqui", brinca Diana.
Ambiente como atrativo
Parece não haver regras para combinar dois ou mais negócios, mas se existisse uma seria de que tudo é melhor com álcool. No bairro de Kreuzberg, há uma loja de discos de jazz que também vende vinhos de alta qualidade. Seis ou sete ruas adiante, está a Wowsville, uma loja de discos especializada em rockabilly, surf music e punk rock, que funciona ao mesmo tempo como bar.
A Wowsville é uma loja de discos e um bar
O proprietário é Alberto, um espanhol de cerca de 40 anos que tinha uma loja de discos em Nova York e se mudou para Berlim em 2006. A ideia era abrir na capital alemã um estabelecimento nos moldes do finado CBGB, legendário clube punk em Manhattan.
O resultado foi a mistura que está em funcionamento desde 2010. A sala dos fundos é coberta com discos de vinil, muitos deles raros, enquanto o bar atrai sua clientela habitual – estrangeiros que vivem na cidade e amantes da música.
"A ideia é que as pessoas venham para uma cerveja e também possam comprar um disco", conta Alberto.
O mais novo negócio do espanhol é uma pizzaria, do outro lado da rua, no estilo das encontradas em Nova York. Os clientes podem pegar um pedaço de pizza e ir comer no bar, onde as leis berlinenses, que proíbem fumar em restaurantes, não se aplicam.
Ele garante que esse conceito de negócio duplo ou triplo não é uma galinha dos ovos de ouro. "Se eu quisesse ganhar dinheiro, arrumaria um emprego", ironiza.
Talvez não seja lucrativo, mas o Wowsville é um lugar agradável, onde se pode ouvir música e conversar. Uma das garçonetes do bar é a neozelandesa Freya, que diz que há outros negócios similares em Berlim. Uma vez, conta, conseguiu alugar um carro num comércio que, além de locadora, servia como casa de apostas e loja de conveniência.
Fator econômico
O fator econômico desempenha às vezes papel importante nas lojas combinadas. Na familiar rua Winstrasse, no bairro de Prenzlauer Berg, por exemplo, a loja de alimentos orgânicos também funciona como um café, onde os mais preocupados com a saúde e o bem-estar podem se reunir para um café, chá, cerveja ou vinho – tudo orgânico. O Enten und Katzen (Patos e gatos), como o local é chamado, é um grande sucesso na região.
Cortar os cabelos entre objetos de design é o diferencial da Hazel
O aumento dos aluguéis causado pela repentina popularidade de Berlim entre investidores estrangeiros começou a afetar até áreas despretensiosas, como a Cuvrystrasse, na parte mais oriental de Kreuzberg. Lá pode-se encontrar a Hazel, uma loja de móveis que também funciona como salão de cabeleireiro.
O estabelecimento, em funcionamento desde 2011, é o resultado da união da força de três mulheres buscando viabilizar seus negócios. "Mudei para Berlim depois de viver em Munique e Hamburgo", conta Suzy, uma das cabeleireiras. "Mas os alugueis aqui estão quase tão altos quanto lá. Somos três mães solteiras, então faz sentido unirmos forças."
O cliente, no entanto, não pode ter o cabelo cortado numa cadeira Panton ou Eames. Suzy explica que a ideia é que os fãs de móveis possam ter um corte de cabelo adequado e levar algo de design retrô para casa.
Negócios híbridos podem ser uma solução, mas também podem amenizar o que é, muitas vezes, um aspecto negativo do capitalismo: a redução de indivíduos a um único e monótono trabalho. Combinar surge como uma maneira de maximizar recursos ou expandir a base de clientes em potencial. E, ao mesmo tempo, uma forma de tornar a vida profissional mais interessante.


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