Base de Temer encolhe e seu destino está nas mãos de Rodrigo Maia

XADREZ POLÍTICO
Presidente da Câmara estaria sendo incentivado por atores políticos importantes, de dentro e de fora do governo, a comandar a transição do país. "Já há um clima de conspiração dentro do próprio governo", diz o cientista político Ricardo Caldas

por Eduardo Maretti, da RBA publicado 23/09/2017

WILSON DIAS/AGÊNCIA BRASIL
Rodrigo Maia
Presidente da Câmara, Rodrigo Maia “é a chave do processo” político e não tem escondido seu desagrado com Michel Temer
Após a decisão do Supremo Tribunal Federal, que na quinta-feira (21), por 10 a 1, decidiu enviar à Câmara dos Deputados a nova denúncia do agora ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra Michel Temer, a principal questão desse final de 2017 é se o plenário da Câmara vai autorizar a abertura do processo contra o presidente. Temer corre riscos de cair? Sua base se mantém estável, aumentou ou diminuiu?

Há hoje em Brasília duas correntes sobre o destino da segunda denúncia de Janot na Câmara. Segundo o cientista político Ricardo Caldas, professor da Universidade de Brasília (UnB), a corrente majoritária acredita que a votação será mais fácil para Temer do que a anterior. Em 2 de agosto, os deputados rejeitaram a denúncia por 263 votos a 227. Para essa corrente, os questionamentos sobre a credibilidade das deleções envolvendo a JBS tornaram a denúncia mais frágil.
“Pessoalmente, estou na corrente minoritária. Não aposto em questão de provas. A questão é política. A base de Temer está encolhendo e ele está em rota de colisão com Rodrigo Maia”, avalia Caldas. Para ele, o presidente da Câmara é “a pessoa mais importante nesse momento a acompanhar e é a chave do processo”.
Nos bastidores, Rodrigo Maia (DEM-RJ) estaria sendo incentivado por atores políticos importantes e influentes, de dentro e de fora do governo, no sentido de que ele mesmo deveria ser o presidente e, portanto, estar no comando da atual transição do país. “Nessa segunda visão, à qual eu me filio, a gente já tem um clima de conspiração dentro do próprio governo. Se essa visão minoritária prevalecer, Maia vai começar a minar o presidente Temer. A primeira percepção disso se daria na votação em que se decide a questão”, avalia Caldas.
De acordo com o professor, dependendo de como a relatoria e a votação se organizarem, e como o DEM vai se posicionar, a ameaça a Temer é muito maior do que ele mesmo supõe.
Esta semana, houve um notório recrudescimento na agressividade de Rodrigo Maia em direção ao Palácio do Planalto. O motivo, mais uma vez, foi a disputa por parlamentares que devem desembarcar do PSB e que Temer tem se esforçado para levar ao PMDB sem nenhuma discrição. 
Como resposta, o presidente da Câmara não mediu palavras. “Se é assim que eles querem tratar um aliado, eu não sei o que é adversário. Quero que isso fique registrado, para que depois, quando a bancada do Democratas, em alguma votação, tenha uma posição divergente da que o governo espera, que ele entenda que há uma revolta grande na nossa bancada”, disparou Maia. Ele avisou: “Não virou rebelião ainda, mas é uma revolta muito grande”.
“A gente tem que ver se a briga dele com Temer é verdadeira ou é teatro. Mas essa é a única briga que importa nesse momento em Brasília”, diz o professor da UnB. “Cabe a Maia não só liderar o partido, porque ele virou de fato o líder do DEM, mas também aceitar ou não um possível pedido de impeachment contra Temer. Os pedidos estão todos na mão dele, e ele aceita quando quiser. É um xadrez, e qualquer pessoa que disser que a votação está garantida para um lado ou outro está mentindo.”

PSDB

Mas, fora Maia, principal peça no tabuleiro hoje, há ainda outros fatores que podem ser decisivos. Um deles é o PSDB, totalmente dividido: os caciques a favor de manter o apoio a Temer e a base “em plena rebelião na Câmara”, segundo Caldas. Entre os deputados tucanos, a tendência é contra Temer. “Se juntar essa ala do PSDB, mais o DEM, vai ficar difícil o PMDB sozinho sustentar o presidente”, diz o analista.
Para ele, a divisão do PSDB não é um teatro em que as duas posições se sustentam estrategicamente. “Os grupos no PSDB estão muito divididos e os interesses muito à flor da pele.” Os grupos mais antigos, como do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que quer ser presidente, estão pensando em 2018 e não têm interesse em brigar com o PMDB, do qual vão precisar como aliado.
Mas líderes mais jovens, como o prefeito de São Paulo, João Doria, e deputados que o acompanham, pensam que é momento de “uma faxina”. “Para esses, o apoio a Temer está prejudicando inclusive o Alckmin, porque já surgiram denúncias contra o governador e vão surgir outras.” Mas Alckmin está tentando segurar essa ala por sua candidatura à presidência, enquanto o senador José Serra (SP) se mantém pela manutenção da aliança e o senador Tasso Jereissati (CE) é independente e contra, mas é questionado por suas posições baseadas na opinião pessoal. “Isso provoca ressentimentos tanto no pessoal do Aécio, que perdeu espaço, quanto do Alckmin, que não se sente representado”, observa Caldas.
A oposição precisa de 342 votos, número que sabe não possuir. “Ela só teria esses votos se se aliasse com o racha da base governista. Leia-se: PSDB, DEM e até mesmo PMDB, no caso, alguns grupinhos insatisfeitos com a condução do partido, como o deputado Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), e outros menos influentes, minoritários no partido”, aponta o cientista político.

De olho em 2018

Para terminar as variáveis, há ainda os interesses eleitorais dos deputados, que estão de olho em 2018 e podem se arriscar a um suicídio político com o apoio a Temer, cuja popularidade é literalmente próxima de zero. “Uma coisa é votar uma vez a favor de Temer, outra é votar o tempo todo. A segunda denúncia não vai ser um passeio como Temer está pensando. Talvez ele não caia, mas o número de votos dele certamente vai cair”, diz Caldas.
Os problemas de Temer não terminariam mesmo se vencer a votação da segunda denúncia. Depois, Rodrigo Maia pode resolver aceitar um pedido de impeachment. 
A seu favor, Temer conta com a proximidade do final do ano e da falta de grandes mobilizações populares que seriam decisivas para derrubá-lo. “É difícil começar um movimento social no Brasil de novembro para dezembro, época do Natal”, lembra o professor da UnB.

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