segunda-feira, 24 de julho de 2017

Sororidade e empoderamento das mulheres embalam clipe de Mulamba

FEMINISMO
Música que leva o mesmo nome da banda curitibana passa mensagem: é preciso que as mulheres transformem a dor em força para se verem como protagonistas de suas histórias e vidas
Mulamba
O clipe é um manifesto pela união das mulheres contra a opressão de gênero, e pela quebra dos estereótipos
por Xandra Stefanel, especial para RBA publicado 23/07/2017

Agora o meu papo vai ser só com a mulherada
'Nós não é' saco de bosta pra levar tanta porrada
Todo dia, umas dez morrem, umas 15 são estupradas
Fora as que ficaram em casa e por nada são espancadas
Qual que é o teu problema?É fé pequena ou mente ruim? 
Quem foi que te ensinou a tratar 'as' mulher assim? 
Agora fica esperto porque a coisa vai mudar
Se for tirar farinha com 'as' mulher, pode apanhar!
Tão forte quanto a letra da música Mulamba é o clipe que a banda homônima acaba de lançar. O vídeo traz uma mescla de documentário e videodança em uma uma espécie de manifesto pela sororidade e pelo empoderamento das mulheres. Com roteiro e direção da cineasta Virginia de Ferrante e montagem de Ana Carolina Vedovato, o vídeo realizado de forma independente contou com uma rede de parcerias entre mulheres que dividiram suas histórias de agonia e sofrimento em uma dinâmica de grupo conduzida pela psicóloga Lari Tomass.


Os relatos foram preservados e apenas as imagens são apresentadas ao público, mas a força das expressões corporais e a conexão criada entre as mulheres estão presentes durante todo o clipe. “A ideia veio para potencializar uma canção que, além de dar nome à banda e ser nossa primeira criação em conjunto, traz um tema que precisa ser olhado com atenção por toda a sociedade: o massacre contra o feminino e tudo que ele representa. Enxergamos na banda e também na música Mulamba um poder de voz que fala sobre, por e em prol de uma parte da sociedade que é desacreditada e renegada cotidianamente”, afirma a vocalista Cacau de Sá, uma das seis integrantes de Mulamba e autora da letra, em parceria com Amanda Pacífico.
Segundo a vocalista, letra e clipe são um ato político. “A primeira mensagem é de que é possível fazer uma arte de resistência tendo um produto final que dialoga, comunica e transgride. Entendemos os corpos como políticos, logo, temos o clipe como um ato político. Estamos falando de pessoas com situações reais, muitas vezes não vistas e silenciadas. Mas também estamos transmitindo a ideia de que juntas somos mais fortes e de transformação.”
As imagens apresentam retratos e a interação das mulheres entre si e com a banda, intercaladas com uma dança protagonizada pela atriz Nayara Santos. Ela “interpreta uma personagem fictícia, uma espécie de entidade que representa a própria figura da 'mulamba'. Com o rosto coberto por uma máscara em formato de útero, a protagonista destrói objetos simbólicos num processo de libertação. A escolha dos elementos também é fruto de uma pesquisa feita com mulheres que relataram situações de opressão ao longo de suas vidas', detalha a banda no material de divulgação do videoclipe.
A personagem é a encenação de uma força interior que todas nós temos para suportar momentos difíceis. Nesse contexto, a máscara é uma proteção para aguentar esses momentos e, ao final, ela deixa o escudo para mostrar que não precisa mais usar uma defesa. Ao mesmo tempo em que ela se liberta, as mulheres que contaram suas histórias também estão dançando e libertadas, culminando em uma simbiose”, explica a diretora do vídeo.

Protagonismo feminino

Virginia de Ferrante afirma que o processo de filmagem foi bastante intenso. “Queríamos retratar mulheres reais com sentimentos reais, e isso fica bem estampado no clipe. As imagens com as mulheres participantes resultam da dinâmica conduzida pela psicóloga Lari Tomass. Foi num estilo documental, a gente não tinha cenas específicas”, diz Virgínia. Com relação às mulheres, queríamos uma gama de pessoas diferentes entre si, levando em conta onde estamos e os limites da própria cidade. Mas queríamos diferentes idades, etnias, corpos, cores de cabelo e vivências. Como exemplo, tivemos duas mulheres trans, o que deixou o processo mais rico e as trocas de experiência mais interessantes.”
O papel da psicóloga foi conduzir uma dinâmica de grupo. “Quando entramos em contato, explicamos o projeto e o que precisávamos de imagem: mulheres andando, se olhando, trocando informações, contatos, abraços, verdades… Ela propôs uma dinâmica que foi feita antes com a banda para um entendimento prévio, pois não sabíamos como seria a reação das mulheres participantes”, afirma a diretora.
O resultado desse processo é um dos videoclipes brasileiros mais fortes dos últimos tempos, com uma música igualmente potente. É um manifesto que incentiva a união das mulheres contra a opressão de gênero, pela quebra dos estereótipos e pela transformação das dores em liberdade.
Formado em 2015, o sexteto é composto apenas por mulheres: Amanda Pacífico e Cacau de Sá nos vocais, Caro Pisco na bateria, Fer Koppe no violoncelo, Naíra Debértolis no baixo e Nat Fragoso na guitarra). A banda, que deve lançar o primeiro álbum ainda este ano, ganhou notoriedade com o lançamento do vídeo da música P.U.T.A, no final de 2016.
Segundo Cacau de Sá, o nome do grupo tem a intenção de ressignificar a palavra: “Sobre o nome Mulamba, entendemos que somos esse estereótipo do ponto de vista da sociedade patriarcal na qual estamos inseridas. Mas, na nossa própria visão, nos enxergamos como protagonistas de nossas histórias e vidas. Por isso a escolha do termo, porque entendemos que a nossa visão quebra esse entendimento pejorativo e ressignifica a palavra, demonstrando força e protagonismo”.

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