domingo, 23 de julho de 2017

Joaquim de Carvalho: Jornalistas como Cantanhêde ajudam a construir o grande acordo da impunidade.

Sempre atual: um não vive sem o outro.
Por Joaquim de Carvalho - no DCM - 23/07/2017

No mesmo dia em que Joesley Batista publica artigo na Folha em que denuncia “as mentiras” que contaram para tentar desqualificar a denúncia que fez contra Temer, a coluna de Eliane Cantanhêde no Estadão é um exemplo acabado do que pode ser interpretado como “estratégia” de defesa do sucessor de Dilma Rousseff.
Cantanhêde diz que o relatório da Polícia Federal sobre as gravações do ex-senador Sérgio Machado, que também foi presidente da Transpetro, é um “marco no festival de delações”.
Recapitulando: nesta semana, uma delegada da PF não aceitou a gravação como prova de obstrução de justiça, o que levou Cantanhêde a estabelecer um elo com a gravação de outro delator, Joesley Batista:

“Os acordos mais criticados são justamente os de Machado, que passou dez anos desviando recursos na Transpetro, mas está numa boa com os filhos milionários, e os dos irmãos Joesley e Wesley Batista, que tiraram a sorte grande várias vezes no Brasil e corromperam centenas de políticos, mas saíram ilesos e fazem a festa nos EUA”.
A proximidade de Cantanhêde com o PSDB – o marido dela trabalhou em campanhas do partido e teria até recebido de fonte de dinheiro sujo, exatamente como João Santana, no PT – é um alerta para quem compra jornais esperando alguma isenção. Temer tem a caneta, mas quem segura seu braço na hora da assinatura é o PSDB.
Cantanhêde avisa:
“Quem pensa em repetir Machado e Joesley e sair gravando aliados para escapar deve cuidar para realmente entregar algo consistente. Gravar por gravar pode dar em nada para os alvos, mas pode gerar uma desagradável reviravolta para os autores, com perda de benesses. Muito delator, ou candidato a delator, anda com as barbas de molho”.
Por partes.
A Polícia Federal é uma coisa. A Procuradoria Geral da República, outra. A Polícia Federal é subordinada ao Ministério da Justiça, do Poder Executivo, por sua vez nas mãos de Michel Temer. A Procuradoria Geral da República tem autonomia política e administrativa. Não é subordinado a nenhum dos três poderes.
Portanto, a conclusão de uma delegada da Polícia Federal deve ser vista com reserva. A PF só foi órgão que disciplinava condutas jurídicas nas administrações do PT. Nem tanto por mérito, mas por fraqueza do ministro da Justiça de então.
A PF, como qualquer outro órgão policial, tem uma dupla função. Ela se subordina ao Executivo, mas tem também uma ação judiciária, se subordinado a decisões da Justiça e também do Ministério Público, que é seu órgão de controle.
O relatório da delegada da PF que não viu tentativa de obstrução da  Justiça nas conversas gravadas por Machado deve ser visto muito mais como a evidência de que existe, sim, obstrução da Justiça do que como qualquer outra coisa.
Se o Ministério Público Federal quiser, pode mandar refazer o trabalho da PF. Determinar cotas. Mas, com Rodrigo Janot arrumando as gavetas para ir embora, não é uma certeza de que isso vá ocorrer.
Gravação é indício veemente de crime. Pode conter uma confissão. Mas é preciso buscar provas que reforcem a declaração. Veja-se o caso do senador Romero Jucá.
Ele disse que era preciso estancar a sangria, que estava “matando” os políticos. E uma das ações necessárias era depor Dilma.
Jucá explicou que Michel lá era parte do grande acordo para obstruir a Justiça
Jucá é explícito:
JUCÁ – Você tem que ver com seu advogado como é que a gente pode ajudar. […] Tem que ser política, advogado não encontra [inaudível]. Se é político, como é a política? Tem que resolver essa porra… Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria.
[…]
MACHADO – Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer].
JUCÁ – Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha. Gente, esquece, o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.
MACHADO – É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.
JUCÁ – Com o Supremo, com tudo.
MACHADO – Com tudo, aí parava tudo.
JUCÁ – É. Delimitava onde está, pronto.
Isso foi feito: botaram o Michel.
Depois, na conversa com Joesley Batista, com etapa Dilma vencida, Aécio Neves, presidente nacional do PSDB (licenciado), detalhou o plano. Era para interferir na PF:
AÉCIO – O ministro é um bosta de um caralho, que não dá um alô, peba, está passando mal de saúde, pede para sair, Michel tá doido. Veio só eu e ele ontem de São Paulo, mandou um cara lá no Osmar Serraglio, porque ele errou de novo de nomear essa porra desse (…). Porque aí mexia na PF. O que que vai acontecer agora? Vai vim inquérito de uma porrada de gente, caralho, eles são tão bunda mole que eles não (tem) o cara que vai distribuir os inquéritos para o delegado. Você tem lá cem, sei lá, dois mil delegados da Polícia Federal. Você tem que escolher dez caras, né? Do Moreira, que interessa a ele vai pro João.
JOESLEY: Pro João.
AÉCIO: É. O Aécio vai pro Zé, (…)
JOESLEY: (…) [vozes intercaladas]
AÉCIO: Tem que tirar esse cara.
Essa segunda etapa já foi vencida: Osmar Serraglio já era. E a delegada que assinou o parecer que não vê obstrução de Justiça é o quê? Um Zé ou um João.
O grande acordo da impunidade, que tem tudo para tornar a corrupção mais severa, está em plena execução, na frente de todos nós.
Mas, para dar certo, esse acordo precisa da participação dos aliados de sempre, a velha mídia, fábrica de midiotas.
É preciso contar com a ousadia de uma Eliane Cantanhêde para escrever o que escreve e dizer o que é necessário (para eles), nos jornais e na televisão.
Aécio no Senado, sem riscos: a vez do Zé e do João.
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