domingo, 9 de julho de 2017

Alex Niven: 'Cinturão da Ferrugem' Britânico Reacionário?

Alex Niven,[1] Jacobin Magazine

Para vencer eleições, o corbyninismo tem de enfrentar a intimidante conservadora nas áreas que foram industriais no coração da Inglaterra.
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Repentinamente, estamos na parte mais densa de um momento popular, com a vertigem que isso implica. O inesperado bom resultado dos Trabalhistas (ing. Labour) nas eleições gerais na Grã-Bretanha levou a uma abrupta e dramática ampliação de horizontes, no meio da qual Gramsci é citado como se fosse muito normal por jornalistas da mídia-empresa, e a possibilidade de um primeiro-ministro socialista parece excitantemente ao alcance da mão.

Nesse instante, gente das esquerdas no Reino Unido e em todo o mundo deve permitir-se um momento de perigoso ensimesmar-se. É chegado o tempo do "Trabalhismo com Sensibilidade". Ao longo do último mês, a crença há muito cultivada de que temos de valorizar o pragmatismo acima de tudo perdeu espaço rapidamente. Na verdade, uma trágica ironia de 2017 é que o falecido Mark Fisher – que defendia tão apaixonadamente que mudança radical no século 21 seria disparada por rejeição decisiva do "realismo capitalista" – não esteja conosco para ver o quão rapidamente a cautela estratégica vai dando espaço para surtos de efusivo idealismo.

O levante Corbyn sem dúvida marca o ponto de maturação de uma nova e notável forma de esquerda popular. Mas não suficientemente popular para avançar sobre o poder dia 8 de junho. A força estará agora com Corbyn para fazer precisamente isso nas próximas eleições, como mostram hoje as pesquisas de opinião? Ou há fragilidades estratégicas mais profundas na estratégia do Labour britânico?

No próximo fim de semana, a Durham Miners’ Gala [solenidade que se realiza há 144 anos, dos mineiros do Condado de Durham] reunirá milhares de socialistas de todo o país, no nordeste da Inglaterra. Pela primeira vez em muitos anos há crença genuína de que seja iminente na Grã Bretanha um governo chefiado pela esquerda. Mas a reunião acontecerá numa parte do país onde a eclosão do corbynismo foi muito irregular e instável – e o futuro daquela eclosão parece muito incerto.

Um dos resultados mais satisfatórios do pós-eleições foi o espetáculo dos que não acreditaram em Corbyn obrigados a engolir os próprios discursos, em alguns casos literalmente. Mas, ao lado de vários mea culpa(s), de retratações aparentemente genuínas até bizarras 'sentenças' de responsabilização coletiva, houve também algumas respostas de tipo "lamento, mas nem tanto", as quais, apesar de mal-intencionadas, podem ser lidas como interessantes advertências sobre a história do sucesso do Partido Labour em 2017.

Chama a atenção entre essas respostas uma diatribe do deputado John Mann, dos trabalhistas não corbynistas, publicada na página internet de Politics Home. Depois de reverências pode-se dizer 'afetadas' ante o notável feito de Corbyn, de ter "detonado" os lugares comuns monetaristas das últimas algumas décadas, Mann exigiu que o Partido Trabalhista resolva o "problema Bolsover".

A frase de Mann encarna o que o deputado vê como um problema residual na fórmula corbynista. Bolsover é um distrito eleitoral no leste da Inglaterra, que assistiu a uma mudança de 7,75% de eleitores do Partido Trabalhista para o Partido Conservador (Tories), a segunda maior mudança desse tipo na eleição em todo o país. Embora nesse caso a mudança não tenha sido suficiente para deixar fora do Parlamento o deputado Trabalhista Denis Skinner (veterano militante da esquerda, muito eloquente, famoso pelos ditos anti-Tory cortantes), mudanças similares em distritos eleitorais vizinhos, de Mansfield e North Derbyshire elegeram candidatos Tories em conhecidos tradicionais redutos dos trabalhistas, dois dos raros avanços contra os trabalhistas, da eleição de junho.

Para Mann, essa mudança de vermelho para azul no leste é sinal de que, embora Corbyn talvez tenha vencido a discussão ao se opor à 'austeridade' [é ARROCHO] e ao pregar a "igualdade" (conceito nebuloso bem-amado dos centristas de 2010), ele ainda resiste contra as "aspirações da classe trabalhadora branca em áreas industriais." Para Mann, ao deixar de lado esse grupo demográfico, [os trabalhistas] "nos arriscamos a cair na política de Trump e do cinturão de fábricas enferrujadas, ou ainda pior."

Os termos de Mann mais confundem do que esclarecem, fazendo lembrar o jargão silogístico do blairismo (felizmente, forma artística já ultrapassada). Mann diz que os problemas de Corbyn com eleitores trabalhistas tradicionais brotariam da posição dele sobre armas nucleares e terrorismo, e cita a dificuldade de Corbyn, que não "condena sem meias palavras toda e qualquer violência do IRA [Irish Revolucionary Army, Exército Revolucionário Irlandês]."

Há furos enormes na teoria social de Mann. Depois de anos de floreios e flertes centristas com o conservadorismo social, a ideia de "classe trabalhadora branca" tem sido recentemente muito mais profundamente examinada, revelando o quanto se deve suspeitar dessa mistura de raça e classe. Ainda que essa demografia existisse, deveríamos por isso acreditar que ela se oporia, em bloco, oposição militarista, ao Republicanismo Irlandês e à preservação do arsenal nuclear?

Contudo, por mais que a "questão Bolsover" de Mann esteja mal proposta e tenha raízes em clichês do Blue Labour, não é necessariamente a pergunta mais errada a propor. Pode-se dizer, tomando emprestado um axioma de Ian Brown, vocalista da banda Stone Roses, que Mann parece ter pegado o porrete certo, mas pela ponta errada. Será que o apoio hoje reduzido de certa ala da classe trabalhadora mais tradicional poderia ser mesmo um obstáculo na trilha até a hegemonia eleitoral de Corbyn?

Pouco nos ajuda, nesse contexto, qualquer comparação acovardada com o trumpismo e a base de apoio que encontrou no "Cinturão da Ferrugem" (apoio o qual, ele mesmo, é altamente discutível). Mas não pode haver dúvida de que, em algumas partes da Inglaterra e em anos recentes, comunidades da classe trabalhadora industrial foram arrastadas – embora de forma não conclusiva até agora – para a direita, mesmo numa eleição em 2017 que, sob incontáveis outros aspectos, foi fracasso retumbante para o conservadorismo inglês.

No nordeste da Inglaterra, onde vivo e onde esse ano fiz campanha pró Trabalhistas, essa maioria de votos parlamentares eleitos é prova de uma oscilação do Trabalhismo para os Tories. Essa oscilação sugere uma fragilidade nessa área que tradicionalmente sempre foi trabalhista, uma área que ainda não se recuperou completamente da remoção cirúrgica de toda a sua base manufatureira (carvão, aço, estaleiros), acontecida no período neoliberal.

A verdade é que a oscilação de Trabalhistas para Conservadores [ing. Labour-Tory] no nordeste da Inglaterra em 2017 foi relativamente modesta. Só em um distrito eleitoral, Middlesbrough South & East Cleveland (área praticamente de classe média, vizinha do distrito de North Yorkshire, rural e conservador) e que realmente votou com os conservadores. No restante do país, nos ex-campos de carvão, hoje em depressão profunda, de Northumberland e Condado de Durham, a oscilação não ultrapassou 4% (usualmente menos) e não foi suficiente para inverter as maiorias trabalhistas. O Partido Trabalhista venceu os Conservadores no distrito eleitoral de Stockton South, com oscilação de quase 6%, e mudanças de azul para vermelho em quase 1/3 dos assentos parlamentares do nordeste resultaram em aumento dramático das maiorias trabalhistas em grandes centros urbanos, como Newcastle.

Como essas nuanças reforçam, temos de desconfiar muito desse tipo de estereotipagem regional que se tornou frequente em todo o comentariato político londrino em anos recentes – sobretudo depois que o Brexit e o "levante do UKIP" [Partido Independente do Reino Unido] ofereceram incontáveis desculpas para pintar os eventos no norte como ressaca racista.

Deve-se esperar que a energia atual da campanha pós-eleitoral corbynista, que agora, quase miraculosamente, está invocando uma revolução permanente, seja suficiente para cancelar os ganhos embora moderados e análogos dos Conservadores no nordeste e East Midlands. Houve uma diferença de ritmo na campanha eleitoral: algumas áreas do país demoraram a aderir ao "levante Corbyn", mas podem bem fazê-lo agora, quando o humor popular já mudou decisivamente.

Mesmo assim, há provas de sobra de uma intimidante presença conservadora no "Cinturão Britânico da Ferrugem", especialmente em cidades pós-industriais menores como Stoke-on-Trent e Sunderland, para sublinhar que essa oscilação à direita é um dos desafios, e terá de ser enfrentado como tal, no caminho de um Partido Trabalhista em ascensão recentemente radicalizado.

A Direita do Partido Trabalhista fez dessa a sua principal linha de ataque contra a liderança de Corbyn no início da eleição, produzindo pesquisa que mostrava o partido como o último, na preferência dos trabalhadores de mais alta qualificação. O deputado Graham Jones resumiu as preocupações de eleitores da classe trabalhadora tradicional como "contraterrorismo, nacionalismo, defesa e comunidade, contenção de ameaças nucleares e patriotismo." Se essa linha predominar, significará considerável neutralização do potencial de radicalismo do corbynismo.

Mas isso não significa que não haja problema algum diante de nós. Assim sendo, o que os Trabalhistas de Corbyn devem fazer para fazer aumentar o apoio que têm hoje naqueles redutos trabalhistas tradicionais que perderam a fé trabalhista por efeito de anos de descaso por sucessivos governos neoliberais, de Thatcher e Blair a Cameron e May?

Dado que locais como Derbyshire & o Condado de Durham foram crucialmente decisivos também nos séculos 19 e 20, parece óbvio que seriam bom local para começar uma campanha dinâmica de ressindicalização. Com o número de filiados sindicalizados ainda em queda livre, há alguma urgência para que se organize a força de trabalho que subsiste fora dos grandes centros urbanos.

Em todas as áreas do norte e terras médias, a grande maioria dos trabalhadores são apanhados entre o setor público desempoderado, os salários congelados da indústria sufocada de serviços, e o submundo obscuro da economia de Sports Direct (caso da fábrica central do império de roupa esportiva de Mike Ashley, que se tornou sinônimo de exploração em tempo integral na Grã-Bretanha moderna, instalada no distrito eleitoral de Bolsover). Nesse contexto, o número de novos sindicalizados deveria estar subindo sem parar, não despencando como se vê hoje.

Não será suficiente para as lideranças sindicalistas de esquerda que apoiam Corbyn discutir as políticas corbynistas. Aquelas lideranças terão necessariamente de renovar o foco, e reorientar-se para construir poder nos locais de trabalho e aumentar a participação nos sindicatos. Essa mensagem já começa a circular entre os trabalhadores corbynistas, com apoio de secretários-gerais como Dave Ward, do Sindicato dos Trabalhadores em Comunicação da Grã-Bretanha [ing. Communication Workers' Union, CWU], que reconheceu que "vemos a política quase como uma desculpa para não estar nas fábricas e não influenciar mudança alguma, porque a mudança tornou-se muito difícil."

Nessa conjuntura também é crucial, com possibilidades que se multiplicam, que haja uma contrapartida Trabalhista ao esquema da "Northern Powerhouse" [Usina do Norte] do ex-chanceler Tory George Osborne, agora cada vez mais desacreditado. Talvez o último grande neoliberal passionário, Osborne quis resolver a disparidade econômica entre norte e sul, fazendo de Manchester uma capital financeira de segundo escalão, e pregando que se introduzissem prefeituras [orig. boosterist; aprox. "promocionistas"] dedicadas à promoção mercadológica (marketing) nas maiores cidades do norte (Manchester, Liverpool, Leeds, Sheffield, Hull, Newcastle).

Como aconteceu a tantas quimeras conservadoras dos anos 2010s, o projeto de Osborne parece hoje absurdamente ultrapassado. O Partido Trabalhista deve colher essa oportunidade e expandir uma estratégia industrial de John McDonnell e dar-lhe foco popular e regionalista. O Partido Trabalhista sob Corbyn chegou a flertar com essa ideia – quando anunciaram um banco e um conselho do Norte. Mas, embora o manifesto, sim, incluísse referência a iniciativas financeiras locais e à democracia, omitiu as ênfases específicas.

Essas políticas tinham por base o documento da "Northern Future", que prometia "rompimento declarado com uma economia que só se foca no que interessa à City de Londres." Aquelas propostas – que iam de indústria e democracia até cultura e educação – seriam desenvolvidas para gerar oferta que interessasse, e que proveria um caminho para encerrar o capítulo de décadas de decadência planejada imposta pelo norte por governos sucessivos.

A eleição de 2017 viu uma recalibração de tradicionais noções de classe na Grã-Bretanha, com a emergência de um novo proletariado que apoia Corbyn, dos jovens trabalhadores precários, de minorias étnicas, trabalhadores liberais arrochados e as massas cujos salários também estão arrochados. De repente, parafraseando Henry James, nos pomos a supor coisas incontáveis e maravilhosas. 

Mas, para consolidar completamente a ocupação da paisagem eleitoral britânica, o Partido Trabalhista de Corbyn tem de deter o movimento pelo qual os Conservadores estão 'vazando' de cima abaixo da pirâmide econômica na direção das cidades e vilas mineiras e do aço abandonadas na Inglaterra, e recuperar aquelas vozes marginais, para uma releitura renovada e estimulante do socialismo do século 21.*****


[1] Alex Niven é professor conferencista de Literatura Inglesa na Newcastle University e editor de Repeater Books. Seu primeiro livro, Folk Opposition, foi publicado pela Ed. Zero Books em 2011.
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