quinta-feira, 2 de março de 2017

O destino da associação de judeus que apoiou Hitler e a palestra cancelada de Bolsonaro na Hebraica. Por Kiko Nogueira

Postado em 01 Mar 2017
Ele
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Coube a um gaúcho de Porto Alegre chamado Mauro Nadvorny poupar a comunidade judaica de São Paulo de um mico perigoso.
Nadvorny é o autor do abaixo assinado contra a palestra de Jair Bolsonaro que o clube A Hebraica havia programado para março. Graças à petição no change.org, mais de 3 mil pessoas fizeram com que a visita fosse cancelada.
Ele explicou a reação ao seu pleito. “Tomou essa proporção por tudo de ruim que representa o Bolsonaro. Um racista, misógino, antissemita, pensar em ser recebido em um clube da comunidade é, por si só, terrível”, disse.
Completou: “Quando Hitler começou, também teve apoio de judeus”. Não é exagero e Nadvorny tocou num ponto sensível. Entre o início dos anos 20 até 1935, existiu a União Nacional dos Judeus-Alemães.

Depois de Hitler assumir a chancelaria, o grupo chefiado pelo advogado Max Naumann, ex-capitão do exército bávaro na Primeira Guerra, soltou uma declaração em que “saudava os resultados”.
Apesar do patriotismo extremista da organização de Naumann, o governo alemão não aceitou o objetivo de assimilação. A associação foi dissolvida e Naumann foi preso num campo de concentração em Berlim. Morreu de câncer em 1939.
O organizador do encontro com Bolsonaro é Alexandre Nigri, administrador e CEO de uma empresa chamada MCP Realty. Nigri arriscou alguns artigos francamente constrangedores, publicados esporadicamente na Gazeta do Povo, de Curitiba.
Num deles, em que defende o impeachment de Dilma, confessa que sentiu “aquela incontrolável vontade” de pedir autógrafo a Roberto Setúbal depois de jantar ao lado do presidente do Itaú num restaurante de São Paulo.
Noutro, igualmente imbecil, acusa o cinema nacional de fazer “proselitismo satânico” (?!?) e torce por filmes sobre os “heróis pracinhas da Segunda Guerra Mundial”. Enfim, é o típico inocente útil de direita saído das avenidas Paulistas.
Nigri deveria agradecer a Nadvorny por tê-lo poupado de dar palco e microfone a um fascista. Não bastassem todas as qualidades listadas por Nadvorny, Bolsonaro deixou claro, num de seus comícios recentes, que põe Deus acima de tudo.
Mas não qualquer Deus. Só o dos cristãos.
“Não tem essa historinha de estado laico não. O Estado é cristão e a minoria que for contra, que se mude. As minorias têm que se curvar para as maiorias”, falou para seus seguidores.
Onze semanas depois de virar chanceler, os nazistas promulgaram a “Lei para a Restauração do Serviço Público Profissional”. O objetivo era segregar os judeus da sociedade ariana. Estavam expulsas pessoas “quando um dos pais ou avós pertencerem à religião judaica”.
Era esse o sujeito que iria palestrar na Hebraica, trazido para dentro de casa por uma de suas vítimas.



Sobre o Autor
Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.
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